Louça Suja (3)

Louça suja (1)

Louça suja (2)

Estou me sentindo monótono. Eu, de um único tom, cortei os meses me adestrando. Nessa luta sempre tão voraz, entre corredores e salas e quartos e móveis familiares, entre uma saída e outro retorno, finalmente suponho que me domestiquei. Na manhã livre da segunda-feira, o alarme soou porque, pura ironia, empolgado que estava de poder acordar mais tarde, eu fora dormir sem desativá-lo. Sete horas de um dia vago. Metade da casa já saíra. A outra metade se preparava. Então eu cortei em algumas rodelas as bananas que vibravam maduras sobre a mesa silenciosa, o doce reverberando pela cozinha, como num bocejo entre as paredes da boca aberta. Cascas ao lixo próximo à pia. Esbarrei na torneira e vi que meia pilha já se anunciava. por pura vontade de pertencer (é que eu não sairia o dia inteiro), por puro medo da rejeição, comi as bananas e pus-me a lavar a louça provisória.

Mais uma vez, lembro dos que estão fora pra reafirmar o que corre por dentro. No embalo da água fria matinal escorrendo pelas mãos, fiz duas visitas: um amigo que não quis ainda entrar aqui, ao mesmo tempo em que o outro faz questão de adiar a saída quando chega. A predisposição deste e a timidez daquele colidem e resvalam como o prato engordurado que não se deixa lustrar com água pura. Se ao menos eu fosse detergente, uniria tudo ralo abaixo. Se eu fosse esponja, arrastaria pra mim quem se espalhou demais sobre as superfícies lisas por onde passa. Se eu não fosse tão monótono, eu pararia de lavar a minha louça suja em público assim, tentando disfarçar com limpos termos o que é ora inquietação ora insatisfação. Ou apenas constante vazio dos que saem e dos que não entram. É que eu também já percebi que, se não falo, o bocejo doce vira mau hálito de boca fechada por tempo demais.

E eu ainda não tinha escovado os dentes. Mas era bom o desconforto da língua ainda meio adormecida depois das rodelas de bananas tão macias como travesseiros. Bebi leite frio, eu não quis café. Eu não quis afoguear essa impressão de coisa quieta que me deu. Como se, da noite para o dia, algo tão simples e, portanto, tão imensamente insondável tivesse se modificado completamente. Grandes descobertas em instantes abafados: eu estava relaxado em plena segunda-feira de manhã. Acho até que a fricção da cabeça sobre o travesseiro fez grudar uma música no meu couro cabeludo. Ela Me fazia lembrar do sonho, mas o sonho não tivera nada a ver com a música. “Eu tive um sonho, vou te contar…” Mas eu não me atirava de lugar nenhum, e eu não entendi nada depois que o despertador, incomodamente eficiente, abreviou o sono planejado. Então sentir-se em casa era isso: lembrar de um sonho incompreensível na manhã que começou antes do tempo. E não querer nem tentar compreendê-lo.

A outra metade da casa se vai enquanto termino o último prato. Sozinho, não haverá almoço, não no sentido de ritual que se atribui a almoçar. Toda a louça que se enxergar á noite terá sido minha, pessoal e intransferível. Um dia inteiro para sujar o que for meu. E o que eu sujasse seria de minha inteira responsabilidade. Há quem evite até comer, sabendo que será assim: o tamanho do trabalho diretamente proporcional à sua fome ou gula ou ansiedade de estar só em casa. Não me privo de comer para evitar o trabalho. O trabalho de lavar é como uma confirmação de que houvera tempo e modos para se saciar. A louça suja sobre a pia me tranquiliza e diz: eis o tamanho do teu vazio, preenche-te. Não há monotonia que resista à suave urgência de um vazio que se preencheu sem sair de casa.