No limiar da chuva

E, acostumado que estava de me sentir por dentro da chuva, havia mesmo me esquecido de que, ao chover aqui, não há nuvem desabando por sobre o mundo inteiro.

De vez em quando, nos passa pela cabeça aquele pensamento meio vaporoso, turvo e fugidio, que não se deixa definir bem. Nos perguntamos: sonho perdido ou memória remota? Um desses me acometia com frequência. Assim: dentro de um carro em alta velocidade, por uma estrada que chia baixinho, o som da água no asfalto sendo rasgada pelas borrachas abafado pelos vidros embaçados nos quais eu rabiscava com as pontas dos dedos, eu sentindo a chuva firme batendo e encharcando a mata que ladeia a estrada de ambos os lados, bem verdinha, escurecida, condensada feito esponja molhada, todo o assento traseiro como um confortável abraço em que eu me estou largando sozinho, alguém dirigindo com alguém de carona à minha frente, dois alguéns irreconhecíveis, só que, de súbito, cessam os chiados e as batidinhas, abre-se uma luz, olho por através do para-brisa traseiro e enxergo a cortina d’água diminuindo com a distância, uma linha dividindo o chão seco do chão molhado, o sol rebatendo nas folhas verde-aéreas, de uma hora para a outra. É que eu nunca tinha saído de uma chuva, por isso sempre concluí, das vezes que esse curta-metragem se me reprisava, que tratava-se de sonho infantil.

O pensamento finalmente se definiu quando, há poucos dias, esbarrei com o limiar de outra chuva. Que o tempo de poucos dias ainda nos concede o privilégio de aclarar poucos pensamentos, verificar e separar bem o que foi sonho do que foi só lembrança em vigília. Do mesmo modo, mas diferente: a pés, logo ao sair daquela atmosfera controlada e condicionada a que chamamos de Shopping, em cidade estrangeira, mão esquerda no ombro-apoio que me guia toda vida, mão direita dentro do bolso da bermuda salgada de maresia, ao esperar sentir o vapor do centro do dia que nos acompanhara na chegada, percebo, com certo alvoroço, outra agitação que impressionava os olhos da amiga, soltei-me dela e do meu bolso e, para minha surpresa, braços meio abertos, palmas expostas estendidas para cima, na esquerda dissolviam-se grossas gotas, enquanto a direita empoçava o calor da luz.

Então, por recorrência, eu não havia sonhado. Eu apenas era uma criança cheia de olhos que gostava de chuva e que tinha se chocado com a limitação. Eu era um menino que ficava sozinho e se sentia aconchegado por entre as pesadas nuvens, enormes cúmulos, infinitos, até onde a vista alcançava. Eu era um sonhador que queria morar num lugar onde a chuva fosse plena e universal, onde o céu fosse uniforme e decretasse: se me precipito, molho por inteiro. Mas a vista é curta e o mundo é demorado demais até para o clima. E eu, que já oscilo tantos temperamentos nesse tantinho de terra que cubro, sonhava em ter um dia inteiro de uma coisa só.

Do menino que viu ao homem que pensou ter sonhado, quantas nuvens cruzei? Na soleira de tantas chuvas me apoiei, achando que o coração só chegasse até onde alcançassem os olhos. Mas já temos lupas e binóculos e telescópios que nos fazem mergulhar em verdadeiras nebulosas, quando achávamos, à distância, que alcançá-las seria uma questão de atingi-las e romper-lhes as películas. Então, aproximando-nos cada vez mais, vamos percebendo o quanto não percebemos nada e que já havíamos entrado sem ter enxergado a entrada. Que o tal filósofo falou em grãos de areia, mas podemos pensar em termos de gotas d’água: uma gota é pouco, duas gotas são pouco, três gotas são pouco, mas nunca descobrimos a gota exata que transforma a garoa em tempestade. De uma hora pra outra, descobrimos que a memória virou impressão de sonho e, nesse ínterim, nos perdemos entre o que lembramos ser e o que nos tornamos, porque não há um ponto de virada.


Originally published at www.livrepauta.com on September 3, 2014.

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