O ritmo

APENAS SIGA A BATIDA

Assim como quem não quer nada, como quem vai pegando o ritmo novo aos poucos, bem devagarzinho, um toque após o outro, mais lento no começo, depois, a cada batida, um tom acima, e a vibração adensando as batidas do peito. Acelerando compassadamente. Acho que estou mudando a faixa. Eu querendo um novo jeito de me enxergar, fechando os olhos, tentando captar bem os sons em volta. Como se cada nuance ou ruído perdidos fossem me fazer uma falta enorme para a nova melodia que está para nascer. Quem nascerá desta nova vida a surgir com outros verbos entre vozes graves, cheias de mistérios escondidos por detrás do imprevisível de estar preso ao tempo que não para de passar? Esse tempo rítmico , que se eu encostar o pulso sobre a superfície de um relógio, sou capaz de viajar na velocidade da luz, entre o sangue que pulsa e o ponteiro que, ao saltar, me sobressalta, segundo a segundo, assim mesmo, sempre um sustinho de Espasmo. É que o tempo é involuntário e as coisas mudam sem que a gente se a perceba que, na verdade, fechar os olhos seria o melhor jeito de deixar as coisas passarem batidas, mas ao mesmo tempo de fazê-las compreendidas de um jeito meio pleno demais pra caber nos olhos. Então eu acho que estou começando a entrar na dança decretada pelo som que entra por um ouvido e, antes de sair pelo outro, percorre todo o tempo de um corpo inteiro cheio de vasos que vibram. Eu sou um alto-falante sussurrando coisas incompreensíveis aos sentidos, eu sou a zoada feia que, ao contrastar com a polidez de tons pastéis, vai se fazendo escrever, impresso sobre a pele dos que se me deixam tocar. O ar é meu lápis, dentro dele me movimento com gestos ocos, cheios de ar, ares cheios de novos encantos, desencantos e desencontros entre mim e mim mesmo. Eu me estranho, eu me descubro, eu tenho medo de não me escutar, porque eu fiquei sem rosto diante de um espelho que é mudo, frio, liso, superficial. Dentro, cá dentro existem coisas mais, digamos, alto-relevantes… ou será que não? Será que, às vezes, eu invento que sou um choque entre pressões atmosféricas, só pra me sentir mais vivo. Porque mudo, eu morro, por falta de evidências da vida que de mim seja capaz de ressoar. Ressoar, que palavra tão sonora. Eu quero ressoar e, curiosamente, tenho me calado cada dia mais. Tenho me prendido dentro desta casca hermeticamente fechada a fim de conter meus impulsos. Que quando eu me furo, um ponto de pura pressão sufocada brota, querendo oxidar-se o mais rápido possível com o ar que lhe é negado. De vez em quando, eu sinto que estar vivo se resume a um prender-se dentro da inércia de substâncias liquidas, procurando o nível mais baixo para acumular-se. Eu que tanto quero ser aéreo. Quase vaporoso. Tenho aprendido que o som se propaga pelo ar. Eu vejo nascendo em mim esta vontade cada vez mais provisória e, portanto, imprescindível, de evaporar-me e me propagar feito uma música muito contagiosa. Sem sinfonias, nem rebus cações. Somente aquele ruído que, de tão insistente, não sai da cabeça e acaba virando silêncio por entre a mistura de silêncios que nos ensurdecem diariamente, transbordando o ar de coisas invisíveis. Coisas imprevisíveis, indecifráveis, que a gente só consegue captar quando desiste de compreender. Eu queria parar de querer me compreender. Acho que, por causa disso, tenho soprado brisas curtas. Assim: eu entendi, um dia, que respirar requer níveis igualmente sacrificantes de desprendimento e acumulação. Dentro do ar que me pressuriza, então, eu me contradigo cada dia mais e, a cada vez que me desdigo, me sinto um passo mais perto de ressoar melhor. Ou melhor: reverberar. Que verbo mais vibrante: reverberar. Ecoar, acho que dispenso. Ecoar é repetir uma repetição meio fantasmagórica do que já eu disse. E isso me incomoda porque, quando eu dissera, fazia todo o sentido, mas quando eu ecoo, já não mais me serve, porque só servia deste jeito àquele eu que gritara. Reverberar parece ser mais ativo. Se eu reverbero, eu me aproprio, eu me torno o novo dono de uma velha música que eu havia cantado. Pego-a e faço dela uma nova versão. Interessante, tentar muito ser intérprete de mim mesmo. Fazer auto-cover sem cobrar porcentagem. Eu quero reverberar pra conseguir me reinventar e, assim, ser ventania fresca pelos quatro cantos ao meu redor. Reverberar, vibrar e revibrar, retroceder e avançar, já que ser música é um pouco de manipular o tempo numa arte de repetições que não se reprisam. Eu quero ser uma música porque se eu for um filme, por exemplo, eu perco tempo de tela tentando muito não deixar passar nada. Eu quero me embalar num ritmo que possa me permitir o retrocesso, o retorno ao começo, pra me reinterpretar a cada reprodução, a todo beat compassado, ser um outro toque sobre e sob as peles e poros. Quero a alegria de não me esgotar em menos de quatro minutos, porque a opção de repeat leva um nano-insttante para ser ativada e, claro está eu ter que repetir aqui, um nano-instante é bastante para uma giga-vida inteira, com trilha sonora própria. Calo para me afastar do não-sentido que é sentir sem o corpo, de longe, ausente. Me calo porque o silêncio também compõe uma musicalidade que exige intercâmbios entre o que eu soei e o que ainda estou para soar. Em busca de um ritmo apropriado para a ocasião, sempre outro, Alterno as modulações, me avanço em retrocesso, fazendo algazarra sem mover uma única corda. Vocal, espero a voga do meu som refletida nos tímpanos da Terra, que é corpo e, como eu, também pulsa de acordo com o tom intercalado dos meus passos, ora relutantes, ora firmes demais. Nossos passos que reverberam sem que os ouçamos, porque já se tornaram o silêncio de um ruído infinito. Queria ser o ruído infinito do silêncio que não existe, que ninguém vê, por ser silêncio, por não ter parado ainda. Um silêncio forte o bastante para ressoar nas reentrâncias de cada volta que eu já fiz e farei. Reverberar-me. Cantar e me recontar na letra sempre nova que eu inventar para acompanhar meu ritmo, meus ritmos.

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