Palavra-chave

Você dá bom dia e deseja boas vindas. A conversa é boa, o contato é próximo. Contudo, ainda assim, você sente que está faltando alguma coisa. Como se algo tivesse que ser dito, mas não está sendo dito. E se isso for dito, tudo vai se resolver, vai dar tudo certo. Se aquela coisa, que você não sabe o que é, for verbalizada com os termos exatinhos, que você não sabe quais são, de repente, Lá no íntimo, começaria uma reação em cadeia, borbulhando de dentro para fora, que transformaria o seu dia, seu sorriso, seu jeito de andar, até o modo como você olha pro céu. Nada. Até falam-lhe coisas bonitas, coisas agradáveis, coisas simples e serenas, ou mesmo coisas mudas, meio sem jeito de serem faladas. Falam-lhe coisas familiares, e isso é muito confortável. Mas você espera algo assim absolutamente novo, como um comando de voz, como um feitiço, algo que transforme. Você desconhece, portanto não poderia nem dizer assim: fulano, tenta me falar tal e tal, pra ver se funciona mesmo. É que teria que ser de uma surpresa calma e espontânea. Você quer ouvir um sopro de vida, mas toda vida que sopra já nasceu. Então vão-se embora, dizem até logo, boa noite, durma bem, sonhe com os anjos. Ficou o bom sentimento, a visita afetuosa, o carinho na conversa amiga. Não aconteceu mágica nenhuma, pelo menos, não a que você esperava. Mágicas invisíveis se passam enquanto vocês falam, só que você queria, uma vez sequer, enxergar uma transformação imensa, irrefutável, indubitável, transfiguradora. Restou o silêncio, a boa saudade, a espera da próxima vez. Você está só, continua o mesmo. Dentro, todas as palavras, inalteradas. Você lembra que tentou até ver se conseguia direcionar por um caminho que julgou conveniente, durante o papo, para chegar aonde você queria. Vão, pois não existem caminhos que levam a esse lugar-nenhum. Redundante, você pensa, eu já ouvi tudo o que eu já ouvi. Quando é que eu vou ouvir o que eu nunca me diria?

Então, você recorre ao sobrenatural. Porque você está convencido de ser impossível que não haja essa coisa indizível, humanamente indizível, que vai te modificar para o resto da vida e te fazer entender bem tudo o que se passa com você e com os seus. Você reza, afinal, você só sabe meditar de um modo verbal. Se dependesse de ondas magnéticas mudas, você sequer saberia amar ou ter raiva ou se chocar ou chorar de dor e de alegria. Você se coloca em uma posição confortável, junta as mãos, depois as solta, pra não ser muito lugar-comum. Começa: que eu saiba entender o outro, que eu me conheça cada dia melhor para poder entender melhor que eu não vou entender o outro, que eu não me sabote e admita que entender a si mesmo não é uma questão de me pôr a prova, nem de saber reagir a tudo, que eu não me frustre quando o outro não conseguir receber a ajuda que eu tento dar, que eu tente sempre ajudar sem vaidade, porque isso atrapalha mais, que eu tolere as minhas falhas que descubro sempre que desvendo um pouco o outro, que eu seja paciente, que eu continue querendo melhorar, que a minha mudança venha em bom tempo… então você adormece, a oração serve como uma canção de ninar, te relaxa, te acalma, até mesmo te convence de que dá pra crer em grandes mistérios inomináveis. Mas, aí, você acorda, no dia seguinte, e tudo está rigorosamente igual dentro de você. O mesmo silêncio intercalado de uma porção de palavras já conhecidas. Você se frustra, pensa até que não sabe rezar direito. Como se faltasse assim, também, uma palavra toda especifica, colocada na posição adequada, entre um termo e outro, no tom e inflexão determinados, que fariam com que a sua oração fosse eficaz. Como decodificar a linguagem oculta do mundo? Você não sabe, você sabe que ninguém sabe. Mas você poderia ao menos ter conseguido isso por acaso. O acaso não te satisfaz. Você procura causas para tudo. Principalmente para o seu mais novo autoconhecimento: não é só o outro que não sabe a palavra certa pra me dizer, tampouco eu a sei também. Quem lhe dirá o que você quer ouvir?

O que eu quero ouvir mesmo? Você se pergunta e, ao mesmo tempo, se comove. Por ora, você não queria ouvir nada. Ou melhor, você não queria ouvir nada do que já ouviu antes. Queria escutar um som absolutamente inédito. Existe isso? Você desconfia que não, porque se você parar pra pensar bem, talvez o mundo girando faça um barulho danado, mas você não sabe qual é, pois ele nunca parou para que houvesse o contraste revelador. Você se vê mergulhado nesse silencio de esfera dançando, esse silencio que te deixa assim meio tonto mesmo, querendo um minuto que fosse de ruído puro e genuíno, um instante de zoada original. Só o que você tem é um punhado de verdades pré-estabelecidas e alguns poucos com quem mastigá-las. Você se empenha bastante em ser autêntico, ao organizar sistematicamente tudo isso. Mas sua fala sai toda caótica, cheia de motivos para os gramáticos… Os gramáticos que vão pro inferno! Eles tampouco te diriam as palavras-chave. Depois, você percebe que ter verbalizado tanto sobre sua incapacidade de saber a senha que vai revolucionar seu pensamento e seu corpo até te ajudou um pouquinho a se compreender melhor. De novo, a frustração da redundância: até agora, nada de novo saiu novamente. Então, conversar não passa de um exercício dramatúrgico , treinar as falas que você dirá diariamente, sempre que a luz se acender. Ator de si mesmo, você quer um papel novo. Plateia do outro, você gostaria de um feedback no qual eles não são capazes de pensar.

Você se cansa. Sem derrotismos. Passa pela memória o fato de que poucos humanos possuem essa avidez linguística essencial. Quer dizer, poucos que você já tenha ouvido falar. Você declara tudo isso, porque se deu conta de que, até então, essa preocupação e essa vontade todas não passavam de pensamentos discutidos apenas no âmbito da sua própria consciência. Você tem a ideia de divulgar que está em busca da palavra-chave, não porque ache que vai encontrá-la, mas por ter a agradável sensação de que, apesar de você não saber, tem gente por aí pensando a mesmíssima coisa. Só pensando, não dizendo, como você vinha fazendo até agora. Agora que você sabe que precisa verbalizar a sua sede de verbo, você delira: outros sedentos vão me reconhecer, no mínimo. E se um chegar e vier discutir essa falta de termos com você, talvez seja o diálogo mais incompreensível do mundo. Essa possibilidade do absurdo faz teus olhos brilharem. Se for assim, a espera compensou, a oração foi ouvida. Você sabe usar as palavras. Você só não tem as palavras que sabe usar. E talvez nunca venha a ter. Enquanto isso, você se encanta com um “pelo menos”. Pelo menos, você pode acreditar em acreditar, porque acreditar é uma palavra que, se não te transforma, pelo menos te convence.