Vida de cubo

Era 1974, quando o professor de Desenho de Interiores húngaro Ernö Rubik tentava achar um jeito bacana de ilustrar bem o conceito tridimensional, ele acabou inventando um troço danado que viria a ser chamado de Cubo Mágico. Como a ciência — aprendiz do Mr. M. — desvenda tudo muito fácil, a mágica virou equação, e a invenção, como toda geringonça bem sucedida, levou o nome de seu criador. Assim, o Cubo de Rubik, que tem tanta matemática na sua essência, virou brinquedo nos anos de 1980. Sim, mas o que você, leitor, tem a ver com isso, né?

Correndo o risco de soar extremamente cafona, eu — que sou fã do quebra-cabeça 3D — acho que a invenção de Rubik faz uma síntese pura de como funciona a experiência humana. Vou ser mais brega ainda: o Cubo Mágico, tenho pra mim, é a metáfora perfeita da nossa vida. Certo, vou dar um tempinho pro leitor sarar da náusea…

Tá melhor? Voltemos. Imagine o seguinte: quando você ainda estava no útero, seus pais passaram por uma loja de brinquedos e viram o cubinho. Compraram, pra enfeitar a mesinha do seu quarto. Você nasceu, todo bonitinho, inocente, saído de um lugar bem seguro, cheio de ordem e conforto. O primeiro visitante, contudo, ao chegar no seu quarto, vê o objeto tão interessante, mágico, e não resiste. Meche de leve aqui, gira um pouquinho ali. Nada demais, depois os movimentos seriam revertidos, e as cores voltariam aos seus lugares devidos. É claro que o visitante não consegue reorganizar os lados. De repente, seu cubo vira uma bagunça só. Agora você que passe o resto da vida pra resolver seu quebra-cabeça.

E obviamente você não é um gênio da matemática, não nasceu superdotado, como a imensa maioria de nós, reles mortais de inteligência convencional. Então você vai crescendo, e ao passo que evolui, vai tentado resolver o quebra-cabeça. Você gira de um lado, vira de outro, e no começo tudo fica sempre o mesmo caos. Não interessa o quanto você rode, todos os lados da sua vida estão misturados. Uma zona.

Mas você vai amadurecendo, a coordenação motora melhora, seu raciocínio também — ou pelo menos é o que se espera… Então você aprende a resolver uma face do cubo. Digamos que a face azul corresponda à sua vida familiar. Então, em certo ponto você consegue deixar o lado azul todo azulzinho, só que, ao fazer isso, sem perceber, você estava misturando mais ainda todos os outros lados da sua vida.

Aí você pensa: bem, já que meu lado azul está feito, passemos para outro. Então você se empenha em resolver a face vermelha, que, digamos, corresponde à sua vida amorosa. Ainda iniciante no cubo, você até consegue deixar o lado todo vermelhinho. Só que, de novo, o resto do cubo está uma bagunça. E pior: a face azul, que estava toda certinha, ficou atrapalhada, porque você só se empenhou no lado vermelho.

Pois se cada cor corresponde a um campo da sua vida, sempre que você tentar organizar um, vai estar, inevitavelmente, bagunçando os outros, a não ser que você amadureça o bastante para perceber que, na verdade, o segredo não é focar em um único lado. Montar, sim, um lado de cada vez, mas levando em conta o movimento das outras faces, as conseqüências das suas viradas.

Num quebra-cabeça tridimencional, sua vida é alterada todinha junta. E você sempre dando voltas. Até que chega um ponto em que você entende finalmente isso. Daí vai devagarzinho resolvendo cada peça, uma por uma. Consegue deixar seu cubo quase todo certinho. Digamos que fiquem apenas duas peças fora do lugar. Você se assusta, porque pra devolver elas aos seus cantinhos, toda a ordem por trás, que deu um trabalhão pra estabelecer, vai ser abalada.

Essa é a hora da contemplação. Quando você fica parado, pensando se vale a pena mexer na sua vida todinha, só por causa de duas pecinhas de nada. Isso demora muito. Dá uma dó danada arriscar o que já está todo montadinho. Tem gente que para por aqui.

Suponhamos que você resolva não se contentar com míseras duas peças sobrando. Você olha um pouco mais pro quebra-cabeça e repara que, às vezes — mas veja só! –, para que o seu cubo fique todo certinho, é preciso errar também. Pois se você não errar as peças certas, as peças erradas vão ficar errada pra sempre. Seria uma questão de dar espaço, mas como no cubo não cabe mais nada, está tudo lá de uma vez só, é preciso abrir mão de uma ordem agora, em benefício da plenitude depois.

Né lindo? É quase lindo: então digamos que você finalmente, depois de anos se esforçando muito, consegue montar todas as cores, bem bonitinho. Valeu a pena? Sim, claro que sim. Sua vida amorosa, seu lado branco, a face verde, tudo azul. Mas e agora, leitor? O que é que você vai fazer com um cubo mágico todo montado? O que se faz de algo que está rigorosamente em ordem? Então você finalmente descobre que viver só vale a pena enquanto as cores se misturam. Porque quando você monta totalmente o seu cubo, a vida vira enfeite em cima da mesinha do quarto. Que graça tem não poder mover mais as peças do enigma? Aí, o que você faz? Pede pra alguém misturar, só pra começar tudo de novo…