abryl asaud — II

Me arrastam pelo ar os aromas, cantamos palavras sem rédeas, 
coaxamos fulgores na chuva, eles, os teus olhos, me mastigam, 
trancada numa casa em chamas, a mata se desfazendo
sob as digitais impressas no solo, não fosse o barulho 
ensurdecedor de água correndo, as mãos de madeira foram
pregadas na maçaneta da porta, os espelhos da casa com o teu reflexo digerido, o fantasma perigoso dos nossos gestos. O homem que visitou as minhas terras. A precisão de mim, dos cacos arremessados no rio como se fossem pedras, um pássaro pousou na janela e me observou pelas frestas, dedilhou os cabelos, um pássaro com luz de fogo e muito sono. As palavras 
amargas ficam guardadas numa caixa de ferro, com feitiços
de bruxaria, amuletos de magia negra, sacrifícios e animais 
que morreram de fome, amaldiçoados pela dualidade. 
 
No fundo do poço as palavras rimam com a força de 
mil temores fixados na testa, um crânio branco flutuando 
à tona da água, eu sou feita de escoamentos e poças de heresia. 
Caniços ocos, estraçalhados em mim, pisoteados pela 
minha racionalidade nula. Emoções, carnes, toques, bocas,
a minha libido exagerada, ninfo: o diagnóstico cristão. Os teus 
dedos que já não alcançam os meus, noturna, imperfeita, repleta de 
histerias, cuspes, os meus contatos no teu rosto de geada, 
pés, um após o outro, horários terminantemente calculados, 
fumos. Lamentavelmente, os teus olhos lançam escuros 
marítimos, a sede é proporcional. O pulo, um rosto esgarçado 
poluindo o chão. Não tocamos a margem, te olhei e você 
continuou me olhando, aprofundando a minha tramela, os meus pecados, a minha altivez, as minhas encenações, eu me despi de outras e proferi o que sou, a lucidez traiçoeira dos dias, sólidos, líquidos, arenosos. Ar e água.

Diluída, o desejo é intermitente. Episódios de febre alta 
e tentativas de morte, silêncio, a casa grita, enuncia
escândalos amorosos, pratos quebrados, copos, talheres 
perfurando os pulmões e os nossos ossos chacoalhando de um 
lado para o outro, a dramaturgia das noites eternas. Como hei 
de partir? Alquimias e elevações, o livro dos anjos, a linguagem, 
os vícios, a animalidade da perversão no palco cama, o reencontro. 
Um rosto inexpressivo, o meu, um saco repleto de Deus e carcaças, 
a dimensão que criamos e todos os afetos rechaçados, eu te amo, talvez mais do que amo a minha própria lascívia. Agora, talhada 
de ruídos, sinto as minhas pernas dormentes, banhada com o meu 
próprio sangue jorrando de todos os buracos, me sinto vivaz, 
os músculos pulsantes, impelindo lágrimas sagradas, benção ou
maldição? Ecos que partem a galope, um átomo à deriva, 
emocionalmente distante e incômoda, você incorporou as mãos 
em mim e quase tocou as minhas costelas.

Como um soco omoplata, me batizo mundo, de ritual e fogo, 
sob o mesmo sol: minha e tua.

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