o meu livro preto de bruxaria

Após você me destruir,
o que sobrou? — sobrou?
Um livro preto de bruxaria.

I — o limbo

A morte não é um sonho. Você acredita na crença de que os fantasmas tem o cheiro doce da despedida? Um cheiro de flores e velório. Me ofereço de corpo e alma para os demônios do mundo, toda a minha verdade foi engolida por redemoinhos de terra. Eu matei uma cabra e ritualizei um amor que não chegou, nadei no teu sangue e propus o abuso, a carne se desfez em banquete e os homens me devoraram com a pressa de um cão marrom e faminto, o meu coração, pulsante, agora cria de Lilith, ficou arremessado no canto da estrada sem final. Os feitiços que fiz, o que sou e o que você é, os meus cabelos estão aqui para o ritual de partida: a cura do meu peito. A imposição do universo sobre o meu corpo vil, o peso da Lua e do Sol ambicionando os lábios que tocaram lábios horripilantes, a foice negra desceu do céu e talhou um buraco extenso e eterno em mim, me violou os poros da pele, os meus arrepios e a beleza que nunca nos existiu, até o surgimento das plantas e das pedras. Os homens me transformaram em uma mulher suicida.

II — o inferno

O meu corpo subiu ao céu e então dei nome aos bois, discuti com a floresta que existe dentro de você, perdida numa escuridão cega, não sei se quero abrir os olhos, imploro a retirada da minha lucidez, ela me apavora como um vulto que desliza de um quarto para o outro nesta casa pequena, o portador de magia branca me golpeou com radicalidades bruscas. O silêncio faz parte da minha linguagem, os teatros diários e metafísicos, ensaiados diante da espiritualidade completamente distante. O meu sangue de víbora, certeira, o meu sangue que prolifera um útero que se desintegrou, o que restou de mim e do meu rosto sem perdão, sem linhas de expressão, o meu sangue negro que pingou na tua ausência dolorosa, o tempo ao tempo, campos energéticos, velas e incensos, os dentes separados um por um por alicates estão aqui para o ritual de partida: a ascensão do que penso ser, mesmo te amando muitas vezes mais do que a mim mesma. Sorrisos contemplativos foram retirados pela raiz.

III — o céu

Senhores, eis aqui, o meu fluxo mais intenso de seiva produzida, das minhas águas, dos meus dedos, o amor é escuro. O gênesis da libertação obscena, enfio grandes barbaridades em mim, olhos que imagino, o aqui que não existe e grandes avalanches de poesia muda, as mãos não obedecem aos estímulos da minha dor, os meus cortes nos braços, a testa que parti ao meio, os socos no concreto, as tuas mãos não obedecem aos estímulos do meu amor, o meu coração perfurado, nadando em raiva e desprezo, um amor que adoeceu e que também me deixou doente, com os olhos borbulhando em rezas inadimplentes, as rezas que emitem eco, elas voltam para os meus ouvidos e me culpo por pedir piedade mais uma vez, num súbito grito, os meus braços se estendem e a minha alma grita que te ama e que sou tua para todos os outros dias, o resto deles e o resto de mim. Ao nascimento do que é vulgarmente hostil, o amor é uma coroa de espinhos quando quer ir embora, atravesso a muralha da China e lá encontro o nosso desencontro, a nossa falta de fé, o nosso orgulho e o nosso medo de amar, o amor é uma chama que não se apaga, uma dolorosa separação que me retalhou nas articulações, um abandono que destruiu o meu chão e me fez precipício. Latejo, as flores rosas e as minhas digitais estão aqui para o ritual de partida: a minha morte em você definitiva, um lamento, um choro, enquanto gozo sozinha, posso tocar o teu rosto dentro da minha memória.



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