Não, não é fácil

Não, não é fácil assumir que algo em você não vai bem. Não é fácil perceber em suas reflexões e divagações que boa parte dos seus anos de vida foram (em quase sua totalidade até então) de frustrações, dificuldades e infortúnios. Não, não é fácil.
Não, não é simples ouvir um ‘ah, mas vai passar’, sem saber que ao acordar no dia seguinte, aquilo não passou e nem vai passar tão cedo. Não é simples ouvir um ‘tenha fé’, ‘acredite em Deus’ ou ‘entregue o seu caminho a ele’, sabendo que amanhã a sua descrença em tudo a sua volta será a mesma.
Não, não é animador você suportar toda uma carga pesada de dificuldades e percalços e não poder chorar, ter que segurar o seu choro, pois te ensinaram desde criança que homem não chora. E que todo mundo vai rir de ti se uma lágrima cair e você fraquejar.
Não, não é nada bonito acordar mais cansado do que você foi dormir. Acordar sem ter ânimo de se levantar. Fazer as coisas por que tem que ser feitas, pois você estar sem vontade de fazer, mas tem que fazer. Em alguns dias você sentir mais fome que o normal, em outros não ter vontade sequer de beber um copo com água. Por vezes, não sentir sono e ter dificuldade pra dormir; por vezes ter um sono descomunal.
Não, não é nada motivador você se esforçar tanto pra conviver com as pessoas a sua volta, se esforçar pra conseguir um bom emprego, se esforçar pra ser alguém na vida, e não ser reconhecido, não ser valorizado. Sair de casa buscando algo, sem saber o que será do restante do seu dia dali pra frente; e voltar totalmente cabisbaixo por não ter conseguido nem um terço daquilo que almejava, com a cabeça encostada na janela do ônibus querendo chorar, mas não ter mais lágrimas pra escorrer. Pois a sociedade te ensinou que homem não pode chorar.
Não, não é vergonhoso assumir que todos nós podemos fraquejar. Que podemos sentir, que podemos expressar, que podemos desabafar. Nesse longo texto, estou enfim assumindo de forma aberta o que tanto me perturba desde minha adolescência até os dias de hoje. Eu não sou nada daquilo que dizia querer pra minha vida aos 14 anos de idade. Tive nessa idade minha primeira desilusão amorosa, minha primeira desilusão com as pessoas que diziam ser (ou eu achava que eram) meus amigos, a primeira desilusão acadêmica. Nessa mesma época presenciei a separação dos meus pais e suas brigas canibais quase diárias, minha mãe assumindo uma carga super pesada enquanto meu pai se tornava mais ausente do que quando era casado. Essa sequência de fatos se repetiu dezenas de vezes ao longo de todos esses anos. É desgastante, é cansativo.
As palavras que eu ouvia das pessoas (seja da família, da rua, do colégio) cada vez mais me deixavam feridas. Eu chorava e ficava recluso, mas depois voltava a vida normal e tudo começava de novo. Vai passando o tempo, tudo vai se repetindo, e com o tempo suas resistências ficam cada vez menores, cada vez mais inexistentes. E eu achando que uma hora ia passar, e cada vez mais não passava. Pelo contrário, ficava maior, ficava pior.
O que quero dizer com isso? Que estou sim, passando por um momento extremamente complicado da minha vida. Deixei acumular problemas pessoais, problemas sentimentais, problemas psicológicos, problemas financeiros. E com essa fase de desemprego pela qual passo atualmente, tudo veio de uma vez só. Virou uma bola de neve. Deixei, por minha culpa, as coisas chegarem a esse ponto. Me neguei, me ausentei de encarar que me afligia me autoflagelei. Não tenho vergonha de assumir que eu errei e fui indulgente comigo mesmo. Não tenho vergonha de dizer que preciso de ajuda e que preciso me reconhecer novamente.
Você que está lendo isso agora, não tenha vergonha de ser o que é. Não tenha vergonha de errar. Não tenha vergonha de assumir que algo não está bem contigo. Peça ajuda, peça socorro, faça algo apenas quando sentir vontade de fazer. Não se dobre a essa sociedade machista. Chore quantas vezes for preciso chorar. Grite quando não conseguir chorar ou quando algo estiver engasgado na sua garganta, te sufocando, ferindo o seu orgulho. Sinta. Exale. Transpire. Transmute. Não deixe que absolutamente porra nenhuma te diminua. Não deixe que porra nenhuma nesse mundo te diminua. Não deixe que a vida faça contigo o que eu deixei que ela fizesse comigo.
Eu vou procurar ajuda. Eu vou precisar de pessoas verdadeiras a minha volta pra me aconselhar, pra se importarem comigo, pra me auxiliarem da maneira que puderem e eu não me fraqueje ou tenha recaída. Que me compreendam, que se coloquem no meu lugar e que me façam persistir quando eu quiser desistir de tudo. Eu vou ficar bem. Tudo vai ficar bem.
Eu, Jhonatan Henrique, autor desse blog, escrevo aqui, no Twitter e no Facebook. Escrevo textos próprios e textos cedidos por amigos e colegas.
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