Para começar ou retomar o hábito de pedalar, você precisa dessas três coisas:
- Vontade
- Uma bicicleta
- Mais nada

Há os que acham que sair pedalando por aí (ou retomar o hábito) exige investir alto em uma bike. Nope! Claro que o equipamento é importante, no caso do ciclismo equipamento e equipado convivem numa relação simbiótica. Mas para começar, começar mesmo, até uma bicicleta dessas de aço carbono baratinho — as de supermercado (Houston, Caloi, Colli) e de promoções (Bike Tour, ativo.com) já servem. Você só vai sentir no que a bicicleta deixa a desejar quando estiver conseguindo pedalar distâncias um pouco maiores, tipo uns 20 km num rolê.

E é aí que o bicho pega: como ainda não tem a noção exata do tipo de bike ideal para si, nem a quilometragem que vai rodar, a pessoa pode gastar muito de saída e ter que trocar quando estiver mais experimentada. Não é incomum o iniciante que gasta uns 2k e, quando pedala numa emprestada pensa: “poxa, mas o que essa tem que a minha não tem”? Bebê, tem que a bicicleta do amiguinhe é melhor ou foi melhor escolhida e montada.
Obviamente se estiver bem assessorado ou lido bastante a respeito, pode ser que acerte de primeira. Mas no geral isso não ocorre, principalmente porque a primeira bike é na maior parte das vezes uma all terrain, que alguns chamam genericamente de mtb (só que as bikes de mtb de verdade são beeeem diferentes). Mas como nem tudo é perfeito, há muitos outros tipos de magrela, de pedal e até de tribo urbana relacionada ao pedal — vide os fixeiros.

Bike híbrida: o coringa das bikes pois reúne características de estradeira, all terrain, urbana e cicloturismo. Foto: Trek Bikes.

Comece a pedalar com a que estiver ao seu alcance, seja bike de mercado, de promoção, emprestada, doada, montada, com peças usadas ou até plantada e colhida. O importante é começar, com o tempo seu corpo e sua experiência lhe dirão qual bike comprar e qual tipo de pedalada escolher.
Se a bike for muito ruim, ok também. Já vi descerem a Manutenção com uma bike achada em ferro velho, enferrujada, roda e quadro tortos, pneus carecas e o pior grupo disponível.

Obviamente, nem todos estão acostumades à simplicidade proposta pela bicicleta (de verdade, é só sair pedalando) ou então, têm anseio de uma mudança mais significativa em suas vidas. Por isso muitas dúvidas surgem. Elencamos as mais comuns.“Quais acessórios tenho que comprar?”
É bem comum a quem inicia no pedal entrar numa dessas megastores do esporte (Decauro, Centathlon) e “fantasiar-se de ciclista”. Primeiro que a lei, exige poucos equipamentos de segurança, basicamente luzes e refletores (o retrovisor também é exigido, mas é algo tão estapafúrdio que nunca pegou). O capacete não é exigido e, como explica lindamente o ciclo ativista Daniel Guth neste artigo, não passa de um boné de isopor.

Foto da sessão de acessórios da Decathlon: pura compra por impulso. Foto: Jan B.

Em segundo lugar e não menos importante é que diferente do ato de dirigir, pedalar deve ser uma coisa fluída, natural. Cada obrigação que você se impõe para começar a pedalar acaba tendo como consequência o efeito de atrapalhar e não de ajudar.

Dessas obrigações auto impostas, a bermuda e blusa de lycra para pedalar é talvez a mais desnecessária. São bem desconfortáveis (diferente das leggings, aqui as costuras são grossas e mais rígidas) e no caso dos homens te transformam num Mamil. Por favor não seja um Mamil.

“Ora, então pra que servem as roupas de ciclistas em lycra? O ciclista que vi ontem na ESPN usava, seu petralha-comunista!”
Esbraveja o leitor indignado que já gastou quase 1k de acessórios na Decathlon
Servem basicamente para provas longas com tempo determinado como Audax, ou em competições com ordem de chegada. E com uma grande ressalva: talvez para aqueles ciclistas de elite a roupa proporcione alguma diferença de segundos. Para aquele ciclista do amador, mesmo numa prova profissional, pouca diferença faz se for vestido como um desses simpáticos corredores do final da São Silvestre (por um mundo com mais ciclistas fantasiados na pipoca da prova e menos mamils por favor!!!) ou vestindo Cervélo da cabeça aos pés. Não obstante, tanto quanto a bike a roupa também deve ser bem escolhida e atender suas necessidades. Muitas vezes abandona-se inclusive a roupa íntima e pedala-se apenas com a lycra (que é o correto), o que francamente poucas vezes vi fazerem, só em competições mesmo.

Um Mamil. Tinha fotos bem piores, mas expunham mto as pessoas. Joga no Google Imagens Mamil. Foto: Daily Mirror

“Me convenceu, vou começar. Me indica uns grupos de pedais ou um parque legal para eu ir!”
Pedalar em grupo é válido, recomendo para quem tem paciência e disciplina e um pedalzinho no parque pode ser legal para quem está começando.
Mas se há um adjetivo que se aplica perfeitamente ao ato de pedalar é LIBERDADE. Sair em grupo pode significar ter que seguir horário à risca, fazer concessões quanto ao caminho, ao estilo, aos equipamentos e à cadência do pedal. Na pior das hipóteses, há grupos que cobram taxas. 
Pedalar em parques segue a mesma lógica: há espaço determinado, horário, disponibilidade e uma disputa nem sempre justa com o pedestre (nesse caso, injusta para o pedestre). É uma cagação de regra constante que não existe na rua, sendo esse o local correto e garantido por leis para o ato de pedalar. Muitos não têm paciência, mas se essa for a sua pegada posso indicar diversos grupos e quanto aos parques, poucos não permitem a entrada de ciclista montado.

“E os perigos de se pedalar na rua?”
Mais seguro que pedalar na rua só viajar de trem ou avião. As mortes causadas pelos acidentes de automóvel são tão mais numerosas e fatais que fica até sem sentido argumentar. Mas agora se estivermos falando de uma FALSA sensação de segurança, aí essa o carro proporciona bem mais. Vale ressaltar que muitas vias em São Paulo e outras cidades no Brasil já possuem estrutura cicloviária e muitos apps podem te indicar um caminho que inclua ruas mais calmas enquanto você não sente a satisfação de deixar os carros para trás no congestionamento (ou a adrenalina de fazer corredor, mas isso é beeeem mais pra frente).

“Ah, mas e as subidas? E mais, estou fora de forma.”
O raciocínio é muito simples: se és sedentário, andar de carro vai te deixar cada vez mais sedentário. Das atividades físicas pedalar é umas das menos sofridas para ficar em forma, é uma das que inflige menos impactos às articulações e é de longe a mais ágil para deslocamentos. A perda calórica é alta e os benefícios à saúde enormes. Conforme for recuperando forma, as subidas vão parecer bem menos desafiadoras. Uma dica que sempre dou aos novatos é: respeite o caminho linde. Se tem subida coloque na leve e suba devagar, não importa se no começo até os velhinhos a pé te ultrapassarem, repeite o caminho. Mas ficar discorrendo sobre isso tem pouco efeito prático. Experimente por um mês e comprove.

San Francisco tem muitas subidas íngremes e é um dos lugares onde mais se pedala no mundo.

“Eu não posso ir para o trabalho pedalando, não posso chegar suando.”
Essa desculpa é tão antiga que outros querides já escreveram sobre isso bem melhor. Só dar uma lida:
Tem um site que fala só disso? Nossa que legal!
Ah mas aqui também tem dicas, que massa!

“Ah mas dói a bunda, deixa broxa…”
Ai miga, não viaja. Não há estudo conclusivo algum ligando pedalar à impotência sexual. Conheço mais de 1000 ciclistas entre urbanos, amadores e profissionais e nunca ouvi relatos desse problema, inclusive penso que deveria ser o contrário: qualquer atividade física libera endorfina e aumenta a adrenalina, o que por si só melhora a atividade sexual não é mesmo? Mas essa é só uma opinião, sem cunho científico, você pode se basear nesta reportagem para tomar alguns cuidados e evitar de vez isso.
Quanto à dor, sim no começo ela existe para alguns. Mas o que dói não é a bunda, são os ísquios e o períneo. Ambos cessam a dor com um mês ou menos de pedais regulares, quando forma o famoso “calo”. pode acreditar.

Caso não saiba mesmo pedalar você não está só. Tanto que existe o Bike Anjo, essa associação linda que ajuda as pessoas a começarem desde os primeiros passos, ajudam até a montar na bicicleta e se equilibrar. Saiba mais aqui.

Foto: Bike Anjo

Essas são as principais situações que eu pude detectar em mais de 20 anos de pedais, 6 anos de defesa política da causa, fazendo bike anjo e dando consultoria gratuita para quem quer começar e/ou comprar a bike. Mas sempre haverá de surgir demandas novas, mas quem quer pedalar pedala, quem não quer inventa desculpas não é mesmo?

Cycle Kisses pra vcs ;)