Um contador Geiger para a ocupação Maria Domitila

Uma das ocupações mais duradouras de prédios públicos por movimentos sociais em São Paulo é a da Rua Maria Domitila nº 228, próximo ao Parque Dom Pedro, região central de São Paulo.

Ali, entre alguns insistentes proprietários de madeireiras, os ocupantes seguem firmes e fortes. Digo insistentes pois o comércio madeireiro naquela região teve sua ascenção durante a década de 1980, seu apogeu entre 1990 e 2000 e uma queda drástica após esse período. Atualmente ruas como Maria Domitila, Assunção e Monsenhor Anacleto não têm mais relevância comercial. Hoje, o que convencionava-se chamar de “região do gasômetro” se resume à avenida de mesmo nome, já que nas adjacências não restou nada mais que esses poucos insistentes.
Nessa época mais pujante, o imóvel no nº 228 da Rua Maria Domitila era cobiçado por madeireiros que viam ali uma oportunidade de expansão de seus negócios. Porém, mesmo com diversas propostas, o proprietário do imóvel, leia-se INSS (Ministério da Previdência Social — a.k.a. Governo Federal), nunca sentou à mesa de negociações e seguiu ocupando o velho imóvel como bem entendia, resistindo ao poder do capital dos madeireiros que era bem forte nessa época.

Num processo burocrático obscuro, em algum momento década de 1980 ou 1990 o local tornou-se um malfadado depósito de equipamentos velhos do SUS (Ministério da Saúde) no estado de São Paulo.
O depósito era divido entre:
- dois grandes pavimentos na fachada assobradada — loja e sobreloja;
- um grande galpão no meio, de construção típica desta parte da região central da cidade, com vigas de madeira que formavam o teto dividido em duas águas e uma área de respiro no topo por onde o ar quente se dissipava;
- por fim há o enorme terreno baldio nos fundos que vai até a avenida Rangel Pestana. 
Sim, o governo federal deixa baldio um terreno dessas proporções no centro, nessa importante avenida, sem atribuir-lhe qualquer uso social (o que por si só já é um absurdo).

Fachada em 2011. Crédito da foto: Google Maps/Autor.

Nessa fachada assobradada ficavam alguns seguranças terceirizados, um por turno, que cobriam a frente para a Maria Domitila (Foto), mas desguarneciam quase que por completo os fundos para a Rangel Pestana, de fácil acesso por ter um muro baixíssimo.

Imagem interna feita a partir do terreno baldio. Crédito da foto: Jornada Internacional de Políticas Públicas

Um desses seguranças — vamos chamá-lo de Alberto — já relatava invasões esporádicas pelos fundos do imóvel, mas dizia que nada podia fazer. Não eram invasões organizadas por movimentos sociais, mas sim de pessoas em situação de rua ou mendicância buscando algo que pudesse ser vendido ou negociado em meio às tralhas deixadas pelo SUS. Eu testemunhei que havia bastante coisa ali que podia render negociação em um ferro velho.

Trabalhando em um imóvel vizinho desde 1995 peguei amizade com Alberto em meados de 1999, que me confidenciava que as invasões nem eram o principal problema, no geral as condições de trabalho eram horríveis. Os ratos, os pombos, o prédio em ruínas, os equipamentos sinistros, a sujeira, a solidão.

Foto do pavimento superior com o estuque em ruínas. Crédito da foto: Jornada Internacional de Políticas Públicas

Entre 2000 e 2001, começamos a alimentar alguns gatos abandonados da região, nós tínhamos 2 gatas e os pobres esfomeados (muitos oriundos dos baixos do Viaduto 25 de Março) sentiam o cheiro da comida e apareciam em hordas. Minhas gatas viviam indo ao prédio do INSS e o Alberto liberava a entrada para eu resgatá-las. Desde minha primeira incursão fiquei fascinado pelo local.

O depósito lembrava instalações abandonadas da antiga URSS que víamos em fotos ou filmes. Não importava o sol lá fora, lá dentro o tempo sempre parecia nublado, escuro, como se eu tivesse me teletransportado para algum imóvel abandonado em Chernobyl.

Interior da parte do galpão do imóvel já sem qualquer cobertura em foto de 2012. Crédito da foto: http://por.habitants.org/

A maioria das paredes eram revestidas do chão ao teto com pastilhas e a estrutura parecia bem forte, típica de construções antigas mas estava mal conservada. No piso superior por exemplo, o forro de estuque havia ruido por completo. Em meio à sujeira surgiam cores pálidas, branco, cinza, azul. O piso era de cerâmica vermelha bem antiga, aquela mesma que quando quebrada, utilizava-se para fazer o famoso piso de caquinho.
Todo o barulho do centro da cidade ficava da porta para fora. Ali o silêncio era quebrado apenas pelo bater de asas e grunhidos dos pombos, que eram muitos e infestavam tudo com sua sujeira.

Mas aparentemente as semelhanças com Chernobyl não se restringiam apenas à aparência de “documentário-sobre-a-guerra-fria” do local. O SUS mantinha por ali toda a sorte de equipamentos e móveis hospitalares, todos com etiquetas de patrimônio. Eram mesas, cadeiras, armários e outros móveis em metal (grande parte em aço inox), alguns utensílios, muitas macas, carrinhos, tralhas e o mais espantoso: equipamentos com o símbolo radioativo, provavelmente de radiologia ou radioterapia. 
Sim, ali jaziam máquinas desse tipo, antigas e de aparência tétrica. Seu design remontava aos equipamentos da década de 70, com muitos botões analógicos e lâmpadas. Eram obviamente, um deleite para minha cruzada exploratória pós-adolescente e eu fuçava em tudo aquilo com gosto.
Mesmo pesadas eu as abria, movimentava, separava peças e analisava de perto, observava e tocava em tudo. Por já ter se passado uma década, não saberia dizer ao certo em tudo o que mexi e toquei ali e quais tipos de máquinas estava lidando, não lembrar/saber disso me assusta um pouco. Mas me lembro vividamente que ao abrir uma dessas máquinas, deparei-me com um componente de vidro extremamente espesso, tão espesso que se fazia verde. Tinha o formato de um funil e parecia um tubo de televisão antigo, media uns 35 cm de diâmetro na parte maior e ia afunilando ao longo de uns 40 cm, até formar um cano de uns 5 cm, mantendo-se nesse diâmetro por mais ou menos uns 15 cm. Na extremidade havia alguns terminais metálicos grossos, que se conectavam aos demais componentes da máquina. 
Mesmo pesado (tudo nessas máquinas era pesado), pensei em arremessá-lo para além-muro, onde poderia descobrir o que havia dentro. Felizmente apenas derrubei esse (e outros componentes) algumas vezes com força comedida, pois se impusesse mais força, chamaria a atenção de Alberto o que poderia comprometer minha saga exploratória. Porém não foi Alberto quem pôs fim a essa minha fase de Indiana Jones tapuia no templo do INSS.

Essa máquina e esse vidro especificamente exalavam um odor diferente. Lembrava o cheiro típico de peças empoeiradas, mas era um pouco mais forte e não lembrava mofo (mesmo com a umidade do local, não havia mofo nas coisas ali depositadas), era mais metálico, mais ágrio e remetia um pouco ao odor típico dos hospitais. 
Esse odor desconhecido para mim, que não era ruim e não era bom, impregnou em minhas mãos e mesmo lavando muito, apenas enfraquecia. Saiu por completo uns dois dias depois. Me assustou. Ficava imaginando o que poderia ter acontecido se eu tivesse de fato conseguido quebrar esse vidro, ou alguma das outras peças de metal que já havia mexido nessas máquinas.

Após essa experiência comecei a entrar no prédio apenas para pegar minha gata e sair de lá rapidinho. Aquilo tudo ainda me fascinava, mas não arriscaria novamente. 
Me lembro vagamente que alguns anos depois, em meados de 2002 acho, boa parte da cobertura do grande galpão ruiu após um incêndio ou algo do tipo restando apenas a parte assobradada na frente que com toda certeza daria para continuar abrigando os materiais ali depositados.
Na mesma época uma das minhas gatas morreu atropelada e a outra foi roubada, o que acabou com a minha desculpa de entrar ali. Também não se viam mais seguranças, o que me faz concluir que haviam esvaziado o prédio por completo, ficando abandonado e abrindo espaço para a ocupação
O prédio segue ocupado e já contou com mais de 30 famílias ali, no mesmo espaço em que pouco tempo antes apodreciam máquinas radiológicas, além de macas e móveis hospitalares que poderiam conter toda a sorte de contaminantes. E o risco de contaminação para essas famílias? As pessoas que antes invadiam o local atrás de algo para vender podem ter se contaminado? Além de mim, mais de 10 pessoas tiveram contato direto com tudo aquilo. Alguma dessas pessoas foi contaminada?
Naquela rua comercial passavam centenas de pessoas diariamente, o que poderia ter ocorrido?

Foto do imóvel já ocupado. Crédito da foto: Jornada Internacional de Políticas Públicas

Felizmente não houve relatos na imprensa e eu ainda não tive sintomas (ufa!). Porém, isso não apaga o fato que durante esses anos havia risco real de contaminação em massa pairando sobre a região central. Tudo por negligência do estado, a mesma negligência histórica que relega às pessoas mais humildes, a invasão de imóveis que podem inclusive lhes causar riscos à saúde como forma de obter moradia digna.

Está prevista a construção de prédios para moradia popular nesse terreno. Sem desmerecer a vitória política desse movimento, mas não me parece coincidência que nos últimos anos a região tenha se tornado um canteiro de obras. Prédios e mais prédios com muitos andares e apartamentos pequenos (para compensar o VGV), estão sendo construídos nos grandes galpões que antigamente cediam espaço às madeireiras e armazéns. Até casarões e imóveis com relevância histórica já sumiram, num forte processo de verticalização e especulação imobiliária que se estende desde a Av. Alcântara Machado até o Largo do Pari, e está arrasando com parte significativa da história do bairro do Brás, um tradicional reduto de operários e imigrantes em São Paulo. Vários lançamentos imobiliários podem ser vistos “colados” a este imóvel — agora alienado pela administração municipal — nas adjacências da Rangel Pestana e adentrando pela Zona Cerealista. Para construção destes imóveis novos as imobiliárias usam os espaços que antes estocavam coisas inofensivas como cebolas ou tábuas de pinus. Para a população de baixa renda restou o espaço que abrigava lixo hospitalar e máquinas radiológicas que estiveram sujeitas ao desgaste do tempo e à curiosidade e necessidade de alguns.

(Nos logradouros citados, há links de alguns dos lançamentos imobiliários da região nos últimos anos).

Quanto ao projeto social de moradia que dará lugar à ocupação, mesmo com a alienação do imóvel, não há previsão para o início das obras, o que pode ser bom, pois dá tempo de sobra à Cetesb (ou outro agente interessado) realizar alguns testes de contaminação, quem sabe até pedir um contador Geiger emprestado (alguém em Goiânia pode ensinar a utilizá-lo).