Mapa de Israel encontrado em Madaba, Jordânia, século VI dC.

Guia para a vida pós-seminário

Uma bússola veterotestamentária para o ministério pastoral

A palavra paraninfo vem do grego paranymphos (gr. παρανυμφος) e significa, literalmente, aquele “ao lado do noivo/noiva” (παρα + νυμφίος/νύμφη). O termo era título para o padrinho ou madrinha de casamento, pessoa incumbida de acompanhar e proteger o noivo até a casa da noiva ou acompanhar a noiva até o noivo. Assim, acompanhar, testemunhar, proteger e se alegrar eram funções do paraninfo, um papel que envolvia tanto a admiração recíproca, quanto um senso de profunda responsabilidade. Com o passar dos séculos, o termo começou a ser utilizado em outros momentos, como em formaturas, onde o paraninfo passou a ser o responsável por “entregar os alunos à vida”. É assim que me sinto hoje: honrado e, ao mesmo tempo, incumbido de extrema responsabilidade, não de lhes oferecer uma última aula, mas de entregá-los ao lugar ao qual vocês pertencem: ao mundo. E, pensando sobre esse discurso, pensei ser oportuno oferecer-lhes uma bússola teológica, para seguirem essa árdua jornada.

Jan Lievens (1607–1674), "Caim mata Abel", c. 1640

Por que uma bússola? Porque uma sensação que será recorrente no fazer teológico de vocês é a de estarem sozinhos num ambiente hostil, cheio de feras prontas a lhes devorar. Quando vocês saíram de suas comunidades de fé, abandonaram um ambiente de respostas prontas para qualquer dilema existencial. Lá, discursavam com intrepidez não só sobre teologia, mas sobre biologia, genética, psicologia, política, história e — acreditem! — até a mente de Deus parecia simples de descrever. A verdade soava como pressuposto, não como algo que deviam buscar. Isso ocorria, pois estavam num ambiente construído por suas mestras e mestres para darem os primeiros passos. Mas hoje, ao se formarem, vocês ganham a responsabilidade de oferecer as próprias respostas e de criarem o ambiente para que outros dêem os primeiros passos na fé. Então, perceberão que a verdade se descobre no suor, no sangue e com muitas lágrimas. Descobrirão que a fé lhes exigirá posicionamentos, que jamais poderão ser áridos ou severos demais. E terão o infortúnio de errar, o que desconstruirá não apenas a teologia sistemática de vocês, mas a própria auto-imagem de vocês e a percepção de Deus. Assim, espero que com essa bússola vocês tenham um norte ao qual buscar e um oeste ao qual evitar.

A bússola teológica do Antigo Testamento

Os pontos cardeais — i.e.: “Norte”, “Sul”, “Leste” e “Oeste” — na tradição canaanita, desde a grandiosa Ugarit até o Israel Bíblico, não eram simplesmente conceitos geográficos para localização, mas faziam parte da forma de entender o mundo religiosamente. Eram parte de um todo coerente, uma cosmovisão. Assim, tinham um significado fundamental na formação sócio-religiosa dos antigos. Haviam lugares a se evitar, que representavam a própria presença do mal, enquanto outros locais eram considerados a fonte de todo o bem, produziam toda a shalom.

Dentre os quatro pontos cardeais, o que era considerado principal era o local de onde o sol se erguia, o que chamamos “oriente”. Os nomes mizrāḥ (heb. מִזְרָח, cf. Is 45.6) e môṣāʾ (heb. מוֹצָא, cf. Sl 65.9) significam, respectivamente, lugar do brilho [do sol] e lugar de saída [do sol]. Este era o ponto cardeal que ordenava toda a orientação dos habitantes do mundo bíblico, tal qual hoje temos nosso “norte”, um conceito que é econômico, não mítico-teológico. Mas o principal e mais antigo nome dessa região do nascimento do sol era qedem (heb. קֶדֶם = ug. qdm, cf. Gn 2.8). É interessante que a palavra qedem pode significar, ao mesmo tempo: (1) face; (2) leste; e (3) passado. Para os antigos, o lugar para onde nossas faces/rostos deveriam estar virados era para o passado. Ali, no passado, é que a luz habitava. De fato, as únicas certezas que podemos ter é o que já se vivenciou e a única luz que se pode enxergar é do que já foi, isso é o que podemos estudar e aprender. Não é à toa que o Sol era símbolo da ressurreição em Ugarit (cf. ressurreição do Deus da Chuva Baal, KTU 1.3), pois é pela observação do passado que novas coisas se originam. Essa é a primeira dica que ofereço: mantenham a bússola de vocês ligada ao passado, pois será na experiência dos antigos, em traumas de agonia e vivências de fé e, não menos importante, no Texto Sagrado, que encontrarão a matéria-prima necessária para o futuro.

Albrecht Dürer (1471–1528), "Ló e sua família fogem de Sodoma", c. 1496

O local aonde o sol se põe, nosso “oeste”, por sua vez, era chamado maʿărāb (heb. מַעֲרָב, cf. Is 43.5) ou mābôʾ (heb. מָבוֹא, cf. Sl 50.1), respectivamente, lugar de depósito [do sol] e lugar de entrada [do sol]. O termo mais comum e antigo para designá-lo era ʾāḥôr (heb. אָחוֹר, = ug. aḫr), que também possuía três significados: (1) atrás; (2) oeste; (3) futuro. Para os antigos, o futuro estava às costas, era impossível prevê-lo. E, consequentemente, isso fazia dele um lugar temeroso, escuro. A lua (yārēaḥ ou ḥōdeš, heb. יָרֵחַ ou חֹדֶשׁ; ug. yarikh), por isso, foi considerada guarda do submundo (KTU 1.114; cf. Sl 104.19) em Ugarit, local de apreensão e morte. De fato, não podemos colocar toda a nossa força no que virá. Não podemos desassociar passado de futuro. A bússola que só aponta o futuro só gerará ansiedade, temor e, consequentemente, frustração e morte. Assim, a segunda dica que ofereço é: não ocupem-se integralmente do amanhã. Mantenham a tensão entre hoje e amanhã, mas sempre tendo a experiência do passado como parâmetro, assim vocês criarão um futuro saudável.

Por fim, existiam concepções para os lugares que chamamos de sul e de norte. O lado à “direita” do nascimento do sol — para nós: "sul" — era yāmîn (heb. יָמִין), um lugar considerado de segurança e bem estar (cf. Gn 48.17; Sl 16.8; Ec 10.2 etc), de onde nascia a justiça e a felicidade. Não é à toa que os profetas tenham associado as origens de yhwh ao sul (no caso têmān, heb. תֵּימָן, cf. Hc 3.3). Já o lado à “esquerda” do nascimento do sol, nosso norte, era śĕmōʾl (heb. שְׂמֹאל; cf. ṣāpôn, heb. צָפוֹן), um lugar considerado de maldição e temor (cf. Gn 48.13; Ec 10.2) e, talvez, de ausência divina (Ez 16.46!, cf. Jó 23.9; Gn 13.9). É interessante que o monte dos deuses de Ugarit era em ṣāpôn, outro título para o “lugar a esquerda do Sol” (cf. KTU 1.3–4; Sl 89.13). A presença dos deuses era temida em Canaã, embora fossem capazes de exercer misericórdia, a interpretação que prevalecia era de que os deuses eram perigosos e deveriam ser temidos, como os deuses de alguns cristãos, hoje. Mas é interessante que, quando ywhw chega, ele tem uma nova preocupação, de promover direito e justiça, que antes era responsabilidade de sacerdotes e reis (Jó 26.7; Is 14.13; Sl 48.1–3). Essa é, inclusive, a “prova real” para reconhecer ao Deus verdadeiro, em Sl 82: se ele coopera para a criação da justiça e direito, ele pode ser chamado Deus. Assim, nossa terceira dica é: se algum dia não souberem para onde a bússola está apontando, se as lições do passado e o medo do futuro forem demais, percebam os frutos. Se houver recuperação do desamparado e do empobrecido, se houver chance de salvar o pobre, a viúva e o necessitado, essa é têmān, o lugar de onde vem nosso Deus. Nosso Deus não se assenta em montes isolados para ostentar e acumular riquezas fúteis, mas é aquele que se ajunta ao povo para criar justiça, verdade e esperança.

Conclusão

Vivemos em tempos de urgência. Um tempo que, especialmente em nossa nação, se cultuam ideologias: avanço/progresso a qualquer custo ou tradição/conservação a qualquer custo. E, nos dois extremos, a única baixa é das pessoas em nossas comunidades, que procuram um sentido mais profundo para vida, que não seja apenas político ou econômico. Assim, onde vocês atuarem — em púlpitos, bancos, praças, telhados, universidades, empresas — , gostaria que lembrassem das três lições que aprendemos com a bússola dos antigos: (1) ajustem a bússola ao passado, se apeguem às experiências antigas, deixem que elas iluminem o futuro; (2) fujam da ansiedade do futuro, vocês jamais alcançarão o futuro e viverão em eterna inatividade, assim, vivam na tensão entre hoje e amanhã, mas sempre suportados pelo passado; e, por fim, caso os horizontes fiquem confusos em algum momento, (3) lembrem que nossa “prova-real” é a justiça: se os frutos de nossas ações forem ostentação e individualismo, eles não pertencem ao reino, mas se forem justiça e esperança, eles tem jeito de ywhw.

Que yhwh faça resplandecer o rosto sobre vocês e lhes ajude a construir a shalom!


[Discurso proferido em 26/06/2016, como paraninfo da terceira turma do Curso de Bacharelado Livre de Teologia do Instituto Bíblico Kalleyano, IBK]