O QUE DEVE SER ETERNIZADO
Coisa mais difícil é não dar atenção às insignificâncias passadas, que insistem em deturpar a imaginação e, pior, saem por aí em forma de palavras a contaminar e aborrecer os outros que aturam nossos murmúrios. O antídoto para isso foi-me dado quando li o “inscripción en cualquier sepulcro”, do Borges, e entendi que não se deve gastar mármore para eternizar as miudezas que ele chama de “gárrulas transgressões” — o adjetivo tão sonoro significa “pessoa que fala demais”, revela-me o Aulete. É conselho do poeta pra gente não se dispersar na tagarelice que inevitavelmente será banhada no esquecimento. “Lo esencial de la vida fenecida — la trémula esperanza, el milagro implacable del dolor y el asombro del goce — siempre perdurará”, e é isso que interessa ser eternizado — não apenas no mármore, mas nas almas sempre imortais que replicam há gerações vozes aparentemente caladas, mas que sobrevivem e moldam nossa autoestima, hábitos, costumes. Que ressoe a partir de mim o que houver de melhor: eis o meu mais sincero desejo a partir desta noite.
