Semivivo

Não consigo dormir. As coisas simplesmente estão perdendo o sentido. É como se aos poucos, eu fosse ficando daltônico e não conseguisse distinguir as cores. Raiva, tristeza, frustração… tudo está ficando linear, tudo está virando o mesmo. Não consigo fazer as coisas direito. Por mim, ficaria o dia inteiro na cama, desejando não existir. Não quero apenas fazer nada. Eu quero ser nada.

As situações ocorrem ao meu redor, e eu apenas consigo presenciá-las, mas não consigo modifica-las. Eu assimilo algo, e logo depois o esqueço. Tento estudar e não consigo. Começo as coisas e não as termino. Simplesmente não consigo.

Usava fotografia como recurso de prazer. Afinal, nunca fumei, muito menos bebi. Transar nem se fala. Em outras palavras: eu ainda não vivi. Ainda não experimentei. Mas a fotografia aliviava essa frustração. As fotos transpareciam como eu estava, como aquilo significava algo para mim. Nunca tive uma câmera, apesar de querer muito uma. E agora estou sem celular, pois fui assaltado. Não consigo registrar os momentos que quero. Não consigo fazer a atividade prazerosa que gosto.

Quase surtei essa semana. Em plena aula. Foi estranho. Simplesmente veio do nada. Estava desregulado, e quando a pessoa certa veio falar comigo, comecei a surtar aos poucos. Comentei uma ou duas coisas, mas não é nem metade do que se passa na minha cabeça ou na minha vida. De repente, comecei a olhar para todos os lados com medo de me verem marejado. Assustado. Inconsolável. As pessoas, e uma delas me disse isso, não sabiam o que fazer comigo. Não conseguiam lidar comigo surtando. Senti como se estivesse num zoológico, e as pessoas apenas me olhassem por todos os ângulos, mas não lutassem para me libertar. Mas esse é o problema. Eles não podem me ajudar. Ninguém pode me ajudar. Eu sou o meu problema. Sou a pedra no meu caminho. E só de me ver atrapalhando, a vontade é de deitar no chão e dormir, apenas olhar para o nada e pensar em nada. Sei que sou forte, e por isso não consigo me vencer.

Sinto-me ilhado, e que todos ao meu redor apenas jogam paraquedas na ilha contando dos seus problemas e frustrações, mas eu não posso dizê-las. Não posso falar dos meus problemas. Sou a âncora. Sou o farol. Não tenho problemas. Sou ruim para uns, bom para outros. Reduzido apenas a isso.

Não posso falar sobre algumas coisas. Umas são pessoais, e outras envolvem outras pessoas. Não posso dizer nada. Só posso escutar. Nunca fiz um voto, mas sempre estou em silêncio. Confio nos meus amigos. Mas eu não posso dizer a eles. Alguns não querem perder tempo com isso, e todos vão apenas me escutar achando que isso vai me aliviar. Mas não vai resolver o problema. Eu sou o problema.

Quanto aos meus pais… não posso perturba-los. Todo momento para eles agora é destinado ao descanso ou ao casamento deles. Não posso conversar sobre isso, até porque nunca fui próximo dos dois. Sempre esperaram que eu desse o primeiro passo. Coitados. Mal sabem que estou parado no tempo.

Todos ao meu redor não me veem. E estou começando a não me ver também. Mas não posso falar. Eu transpareço confiança e segurança com uma porção de pessimismo. Sou o apoio de muitas pessoas. Não posso deixa-las na mão.

Costumo pensar que minha situação é injusta, mas vem outra parte da minha mente e me diz que poderia ser pior. É assim que a minha mente funciona. Um lado afirma, e o outro critica, questiona, contesta, desmoraliza. Quando penso em algo, não demora muito para ficar incerto e indeciso. Não tenho opinião, e quando tenho, tremo ao ter que compartilhá-la. Inclusive, estou me perguntando se eu realmente estou assim ou não. Talvez eu não esteja. Talvez eu só esteja dramatizando.

Isso faz sentido? Acho que não.

Seja lá o que esteja acontecendo com a porra do meu cérebro, toma todo o meu tempo. Deixa-me mais introspectivo, mas não para conversar comigo, e sim com o nada. Fico calado, olhando para o vazio, enquanto o sinto e penso nele. É como uma banheira em que eu ficasse imerso por muito tempo. E isso está me parando.

Quero ser um psiquiatra. Irônico, não é? Sonho em ajudar pessoas perdidas em suas mentes e em seus vazios, mas não consigo lidar comigo. E daí eu penso: “Como vou ajudar um paciente a melhorar se minha cabeça é fodida?” A resposta é simples: não vou. Para ser um psiquiatra, eu teria que cursar medicina. O curso mais concorrido. Não sou inteligente o suficiente. Não sou bom o suficiente. Não sei nem se tenho vocação. Sou tão falso que estudo para todas as matérias e reconheço e gosto de todas elas. Mas não tenho vocação para nenhuma. Não sou bom numa determinada matéria. Ou seja: estudo para tudo e sou razoável em tudo. Mas não sou unicamente bom em nada.

Além disso, convivo com concorrentes. E faço questão de saber como o desempenho deles está, apenas para me machucar.

Sou inútil. Não tenho sentido. Sou apenas uma porção de matéria sem nexo ocupando o espaço de outra muito mais importante e talentosa. Eu simplesmente deveria sumir.

Acho que a morte perfeita seria reunir todas as pessoas que amo e aumentar o barulho e as vozes em minha cabeça a ponto da mesma explodir. Explodir expondo seja lá quem eu fui um dia. Todos os meus segredos e nuances. Uma grande explosão azul. Eu gritaria até não aguentar mais. E depois estaria exposto, sem nada a esconder.

Mas eu não posso sumir. Algumas pessoas precisam de mim. Outras estão cagando, mas não posso obriga-las a se importar com um bosta como eu. Existem bilhões de pessoas no mundo. Eu sou inútil. Não sirvo para nada. Não me encaixo no capitalismo. Não me encaixo nessa realidade.

Não posso deixar as pessoas segurarem minha barra. Eu seguro minha barra. Fraco, perturbado, aperreado. Não importa. Ninguém sabe lidar comigo. Nem mesmo eu.

Talvez isso seja drama. Não sei. De qualquer forma, desconsidere isso, caro leitor. Estava sem ideias e apenas quis falar como estou. Semivivo. Não me recordo qual autor disse isso, mas “quem quase vive, já morreu”.



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