Taciturno

Ele se sentia sozinho. Ele não via saída. Ele temeu tanto se mostrar ao mundo, que perdeu-se em si mesmo. Estava preso num labirinto o qual não tinha começo, meio e fim. O labirinto era a quarta dimensão, o tempo. Não havia saída, apenas espera. Ele olhava todos os dias para as mesmas pessoas, torcendo para que elas achassem em seus olhos uma centelha de desespero, de tristeza. Mas na maioria das vezes, ele esquecia de si e desfrutava da presença dos semelhantes. Sempre tentava ajudar alguns e ouvia suas crises. Mas nunca ouviram as suas. Ele não os culpava. Afinal, passou tanto tempo prendendo sua voz que a perdeu. Não a achava mais. Não conseguia mais definir suas crises. Ele era o soluto, mas não esperava também ser o solvente. Ele era uma osmose, rapidamente se perdendo, lentamente se achando. Esgoelando-se internamente e sorrindo externamente. Não se engane, ele era sério. Muito sério. Na verdade, sua seriedade assustava o resto. Ele destruía as pontes inconscientemente e chorava por se ilhar involuntariamente. Queria pular. Queria dançar. Queria poder olhar para as pessoas e dizer “não precisa ter medo, eu sou inofensivo”. Mas não conseguia. Era mais forte que ele. Então apenas ficava calado, taciturno, afundando-se em si mesmo e adicionando crises constantes ao meio, deixando camadas de conteúdo instável, como um prédio mal projetado. Não enxergava mais sua infraestrutura. Acordava e dormia temendo ruir. Pensava em demolir a si mesmo, mas não conseguia fazê-lo. Pensava em gritar, mas não conseguia parar de se sufocar. Não conseguia respirar direito, e seus músculos doíam constantemente. Queria ajuda. Queria uma solução. Mas estava tão… quebrado. Tão… ilhado. Ele não queria achar uma pessoa que o amasse. Apenas queria sair da bagunça que criou e organizá-la depois.

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