O Antigo Inimigo

Foi como uma cerimônia de abertura de um novo ciclo. Intenso como a minha sede de escrever minha historia. Quem conhece o Hard Core sabe como um show acontece. Gente voando do palco, gente segurando que voa do palco, gente levantando quem cai na roda, gente se empurrando, se espancando, enfim, gente sem nojo de gente, e sem medo de experimentar as leis da física da forma mais frenética possível.

Lá estava eu, encarando o Dead Fish como o aprendiz que ouve as ultimas palavras do seu mestre antes de partir pra guerra. Deitado nas alturas, sustentando pelas mãos de outras pessoas, que, sem duvida, precisaram das minhas pra não beija o chão em algum momento do show — o que inclusive me provou que a fraqueza e as vertigens da crise de ansiedade eram coisas da minha cabeça, e não do meu corpo. A musica era vitória, e o verso “O antigo inimigo cedeu espaço pra um desafio ainda maior”.

Meu inimigo nunca foi o cara que tirou sarro de mim no colégio, alguém tentou me assaltar, alguém que jogou minha confiança no lixo… Esses ocupam apenas o posto de grandíssimos, e perdoáveis, filhos da puta. Meu real inimigo sempre foi quem me privou de ter uma jornada terrestre fascinante. Sim, eu mesmo.

Foi com isso na cabeça que eu me joguei na vida, e logo em uma das primeiras vezes o acaso já me presenteou com um fato significante. Eu descendo a trilha da Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí, depois de uma caminha que rende um longo texto, dava um merecido mergulho numa cachoeira ali perto. Um dos companheiros de viagem pegou no fundo dela uma pedra, e me deu. Ainda sob efeito do Segredo, eu decidi guardar aquilo como amuleto, algo que armazenasse a energia das memórias daquele episódio incrível. Desde então, de toda viagem que eu fizesse — ou qualquer acontecimento relevante — eu trazia alguma coisa como lembrança. Ingressos, passagens, panfletos, pedras, tampas de cerveja, adesivos. Tudo isso e mais um pouco constitui o que eu chamo de altar da vivencia.

Olha ele ai!

Esse altar deixa mais do que provado de que eu estou imune ao demônio tenta me convencer de que a minha vida foi pacata. Mas, ele ainda não espanta o que me convence de que ela foi insignificante. Partindo agora pra vida universitária, em outra cidade, eu me vejo frente a um novo desafio. Montar o altar do sonho. Esse vai guardar não só o que me lembra da intensidade da minha passagem por aqui, como o que me lembra que ela deixara vestígios expressivamente positivos.

Espero que eles estejam sendo iniciados com esses textos, inspirando os leitores dele.

Vamo ae!

* o esparadrapo verde limão com o escrito “vitória” foi tirado do folha com o setlist usado no show, e colado na parede do altar. :)