#VisibilidadeLésbica — Quem está invisível?

No Brasil o dia 29 de agosto é considerado o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, que tem como objetivo promover a existência e a resistência das mulheres lésbicas. Este dia foi escolhido devido ao dia do 1º Seminário Nacional de Lésbicas, realizado na cidade do Rio de Janeiro no ano de 1996. Este seminário foi construído na intenção de fomentar a discussão de direitos e dignidade das mulheres lésbicas. Ainda no contexto do dia da Visibilidade Lésbica, vale lembrar que a sigla amplamente usada no passado como GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes) foi alterada para LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros), além da inclusão de um grupo que sofre preconceito e tem uma expectativa de vida de apenas 30/35 anos, os transgêneros, em discussão foi avaliado a importância de colocar o grupo lésbico na frente da sigla.

Neste sentido, de dar visibilidade ao grupo de mulheres lésbicas dentro da sociedade, gostaria de trazer a reflexão sobre as “sapas velhas”. Certa vez fui num bar onde mulheres lésbicas de maior idade (acima de 35 anos, há uns 8 anos atras) com minhas amigas na idade dos vinte e muitos fazíamos comentários de “aquela sapatão”, termo que para nós era extremamente comum, sem nenhum preconceito, sem nenhum sentido pejorativo. Porém percebemos o constrangimento das mulheres ali presentes. Estas mulheres que mesmo não sendo ativistas dos direitos LGBTs abriram muitos espaço para exercermos publicamente nossa sexualidade.

Cada vez acostumamos mais, principalmente em grupos “esclarecidos” e “avant garde” que o “assumir a sexualidade” como algo natural e tranquilo. Apesar de noticiados dia após dia crimes de violência contra nossa comunidade. Porém, as lésbicas que não tiveram o privilégio de nascer em nossa geração, ou conviver em meios que aceitam a sexualidade de forma natural, passaram caladas e se tornando grupos fechados, e as vezes secretos, para viver de forma plena. Essas mulheres, e algumas senhoras, são as tias solteironas que nunca casaram, são as mulheres que se afastaram de suas famílias (pais e irmãos) há décadas. São mulheres que trabalham, estudaram, mas continuam submissas as convenções sociais da qual acabam se isolando, isolando do convívio social, andando em guetos subterrâneos e sendo observadas com olhos curiosos e críticos de seus contemporâneos e antecessores.

Outro grupo que precisamos dar visibilidade é o “das novas lésbicas”, aquelas mulheres que já casaram com homens, muitas com filhos, que no alto de sua plenitude como mulheres decidem acabar com relacionamentos duradouros, ou até mesmo com relacionamentos curtos porém frequentes com homens, e descobrem nos braços de outras mulheres o prazer e a companhia que almejam. São mulheres que durante 30, 40, até 50 anos responderam a todas as expectativas sociais de “boas moças”, mas que precisam no auge de sua maturidade lidar com a desconstrução de uma imagem, e o pior, lidar com a rejeição e os rótulos de “depois de velha ficou louca” ou “crises da meia idade”. Essas mulheres que não são mais novinhas adolescentes para curtir a vida, e só querem sossego ao lado de suas parceiras, mas que são vistas como pobres perdidas depois que terminaram seus relacionamentos infelizes. São mulheres que apesar de sua maturidade, são colocadas como incapazes de levarem suas vidas, pois estão perdidas.

Nesse dia 29 de agosto, é para elas que quero dar a visibilidade, as mulheres que passaram toda uma vida sob a sombra de “não demonstrar afeto” e as mulheres que no alto de suas vidas resolveram experimentar e assumir sua lesbianidade, mesmo com tantos problemas, que fogem ao da jovem que contou para mãe ser lésbica, mas a mãe que contou às suas filhas que é lésbica.

A grande bandeira que carregamos para a diminuição do preconceito nem sempre é nas avenidas da cidade, mostrando a sociedade que existimos, a grande resistência é manter a serenidade de gostar de quem gostamos, no dia a dia, em casa da família, dos parentes, dos amigos, no ambiente de trabalho. As sapas velhas obrigada, as novas sapas velhas resistência!