As 10 razões para fazeres um Retiro no Nepal

Entrei na casa de banho e ela tinha os pés dentro do lavatório das mãos. A burca tinha sido habilmente removida e a alegria era estonteante enquanto lavava a cara, o cabelo e os pés, no lavatório das mãos. Aquela cena era o normal naquela realidade. Eu, por outro lado, fiquei uns segundos a integrar a situação.

Ele andava todo enrolado em algo que me parecia uma série de toalhas. Tinha acabado de aterrar e estava sem dormir à quase 24 horas, por isso a primeira coisa que questionei foi se havia um spa por ali ou se era cultural andar assim no aeroporto.

Esta foi a minha entrada na parte Oriental do Mundo. Tudo o que fica para lá da Turquia, é , no meu mapa mental Oriente. Viajei até ao Nepal sozinha para fazer um retiro de silêncio no Kopan Monastery. Aconteceu, por acaso, pois andava à procura de cursos no Tibete. Agora, sem qualquer comissão, faço já o disclaimer ando a aconselhar toda a gente a ir. O sítio é mágico, tem boa energia e permite-nos parar no tempo. Pensar sobre nós próprios e existir no meio do caos.

Deixo já uma nota importante. O curso de 5 dias com tudo incluído custa… (agora poderiam soar alguns tambores) a módica quantia de $75. Sim, é isto, com TUDO incluído. Para quem quer quarto individual ou mesmo duplo tem de pagar um extra. O voo, se comprado com antecedência chega a ser 500€. ( No final deixo as contas em detalhe para quem quiser explorar mais).

Fazer um retiro em silêncio devia constar da nossa lista de prioridades. E, viajar sozinho enche-nos a alma. Deveríamos fazê-lo, pelo menos uma vez na vida, pelas seguintes razões:

1- Ganhamos Perspectiva
Olhamos para as coisas com as nossas lentes culturais como se os óculos que usamos só nos deixassem ver uma perspectiva. Quando viajamos sozinhos não temos interferências dos demais, digerimos as emoções como um bom vinho, à nossa maneira, dentro e fora do Mosteiro.

2- Ganhamos coragem
Dois dias antes de viajar para Katmandu caiu um avião no aeroporto. Os amigos que sabiam da minha viagem ligaram-me a perguntar se sabia que ia para um país de terceiro Mundo. Ainda não tinha pensado muito no tema, mas confesso que comecei a repensar nas minhas opções de vida. Já tinha tudo pago, por isso só tinha uma solução, meter-me no avião.
Coragem, é isto, ir com medo, mas fazer.

3 — Desapego da zona de conforto
Os meus amigos, o meu café favorito, a minha marca de vinho, enfim tudo o que me define como pessoa está agarrado à pele como o creme solar que não desaparece com a água do mar.
Somos humanos e como tal, rapidamente nos ajustamos ao conforto. Dado que empacotamos apenas o essencial, quando viajamos deixamos tudo aquilo que são os nossos pressupostos para trás e agarramo-nos à experiência da liberdade de não nos agarramos a nada.

4- Aprendemos a estar sozinhos
Na viagem, estar sozinho passa a ser uma boa necessidade da equação. Aprendemos que o nosso tempo individual é fundamental para o crescimento pessoal. Sabemos que falar connosco está bem, ficar em silêncio também está bem. Abandonamos a necessidade de estar sempre agarrados aos outros para validação.

5- Tornamo-nos maleáveis
Na maior parte das vezes somos o resultado única e exclusivamente do que conhecemos. Ser maleável é fazer as coisas que nunca fizemos como acordar às cinco da manhã, comer sempre da mesma taça com uma colher e lavar a loiça sem detergente.

6 — Ganhamos novos amigos
Quando viajamos sozinhos para sítios onde também existem outros viajantes sozinhos é fácil fazer novos amigos pois estamos abertos e disponíveis para tal. As experiências quando são intensas juntam as pessoas pois não há mais ninguém no Mundo que perceba aquele preciso momento pelo que ele é, porque não estão lá, a vivência-lo.

7- Ficamos a conhecer-nos melhor
O nosso comportamento segue um determinado padrão quando estamos sozinhos com tempo para pensar. Esses padrões quase nunca estão em evidência quando percorremos a estrada acelerada do dia-a-dia. Sabendo quais os padrões que nos são inerentes poderemos alterar o que não nos faz falta. Quando a nossa bagagem está cheia de coisas que pesam o caminho é mais penoso. A escolha de carregar as pedras é apenas nossa.

8- Relativizamos tudo
Há experiências na vida que advêm do choque cultural. Da diferença entre o que conhecemos e o que nos permitimos integrar.
As viagens em que a pobreza é aliada à felicidade simples ajudam-nos a relativizar os nossos problemas. Auxiliam a nossa mente a ver o outro lado da vida onde a genuidade, instinto e sobrevivência amplificam os sentidos em detrimento dos problemas triviais onde estamos presos.

9 — Vivemos o momento
Não estar presente no momento é como escalar uma montanha e estar sempre a pensar que a base é melhor que o topo, e que quando chegarmos é que vamos estar bem. Para viver o momento temos de colocar um pé à frente do outro e esse é o nosso único focus. É nesse ponto que estamos completos e felizes pois aquele espaço temporal é o único que existe.

10 — Aprendemos a comunicar com a alma
Estamos limitados pelas línguas que falamos para nos expressarmos totalmente. Ter uma conversa profunda implica conceitos que são complexos de passar a não ser que haja um bom entendimento de uma base comum. Quando não há forma de comunicar usando palavras, aprendemos estratégias para fazer chegar a mensagem através de expressões universais.

Aprendi que fazer um retiro de silêncio ajuda a clarificar a mente. Desligar o telemóvel salva-nos do caos que se instala constantemente no nosso cérebro.

Ter tempo para ver as árvores crescer, os pássaros chilrear e as borboletas a voar faz parte da experiência humana.


Originally published at Jackie Silva.