American Dream #3 — Como sei que sou Portuguesa?

Sim vais dizer-me que é uma pergunta estúpida porque está no meu BI, no meu passaporte e na língua que falo…

Mas, se já leste “O labirinto da saudade” de Eduardo Lourenço sabes do que estou a falar. Há coisas tão nossas, tão portuguesas, que só nos apercebemos se estivermos distantes da situação para as conseguirmos identificar!

Tenho uma pergunta para ti:
Sabes quanto mede a ilha onde vives confortavelmente o teu dia-a-dia?

Se me disseres que não vives numa ilha então viverás no teu barco, no teu canto, o teu espaço…
Podes chamar-lhes nomes diferentes mas é a zona onde te moves, é o teu conforto. Na maior parte das vezes está tudo bem, pois tu controlas a situação.

  1. Nós, Humanos, independentemente da nacionalidade temos tendência a movimentar-nos nos espaços que conhecemos. É mais fácil.

Quando mudamos de pais tudo fica em perspectiva . Os pequenos detalhes são diferentes:

  • A comida,
  • A condução
  • Os sítios
  • A cultura

Esta sim última sim, mexe com os nossos alicerces.

Como fã de tecnologia que sou, a segunda coisa que fiz assim que cheguei aos EUA foi tentar encontrar uma solução para o facto de não ter dados no telemóvel e precisar deles …

Identifiquei o melhor pacote e comprei um novo número com dados. Já na loja, agarraram no meu telemóvel, levaram-no, colocaram o cartão SIM, liguei o telemóvel e saí. Mais tarde, já em casa apercebi-me que não tinha trazido o cartão do PIN e PUK comigo.

A odisseia começou aí.

Fui ler tudo sobre como se pode clonar cartões, roubos de identidade e fiz um pequeno filme sobre como cancelar as contas todas, pois se eles me tinham ficado com informação preciosa estava em maus lençóis. Estive a ponto de cancelar o cartão SIM mas nem sequer sabia como e precisava dos dados, portanto fiz aquilo que podia… fui dormir!

No dia seguinte às 8 da manhã estava à porta da loja a pedir o meu cartão com PIN e PUK. Meia hora depois percebi que sim, que o meu lado mesmo Português salta sempre à superfície nestas pequenas coisas. A desconfiança é parte genética que por mais que se treine não sai da corrente sanguínea.

Nos EUA não se usa PIN e PUK.

Aqueles cartões especificamente não têm aquela informação. Se acontecer alguma coisa tenho de ir à loja e pedir para cancelar. É simples.

As coisas que estamos mais habituados e acreditamos que são normais são por vezes,

noutro contexto, são as que nos fazem questionar porque fazemos as coisas como fazemos.

Quando foi que te questionaste a última vez acerca da forma como fazes as pequenas coisas?

Good Luck!


Originally published at Jaqueline Silva.