Harém digital

Silvana Sampaio
Nov 6 · 2 min read

ou

Sobre homens, gado e como se enganam em relacionamentos virtuais.


Elas vêm bonitinhas no seu whatsapp, e vêm em bandos trabalhadas com tutoriais de maquiagem e largas doses de aplicativos que aumentam peitos, alargam bundas, alegram sorrisos... Elas vêm lindas a qualquer momento e são o seu harém. Parecem até uma horda de sacerdotisas, seminuas, semivirgens e com o fogo de dez sóis queimando. Você nunca se engana.

E elas estão ali pertinho demais, bem na sua frente, na palma da sua canhota, no fino espaço entre o vidro e a maçã. Estão todas alegres, concordando, se submetendo, implorando a sua atenção. Inflando o seu ego, feito aquela bomba de encher balão em festa de criança. E nesse quadradinho você pode ser deus. Acredite tudo é verdade.

Elas estão ali para dizer só o que você quer ouvir, para te mandar corações e bom dias reluzentes, com bicos de pato e poses pra lá sensuais. Haja coluna pra isso! Você é sempre fabuloso, gostoso, gato garoto, que delícia. Daí de trás da tela pode, e pode muito. Você é tipo o Thanos estalando os dedos e controlando a vida de metade da humanidade. Pra cima delas titan poderoso.

Aplaudem todas as cervejas que você que mostra que tomou, os bens que você ostenta com hashtag gratidão, festejam a sua a vida plena de filtros, o gel no cabelo e o sorriso largo. Não importa se a sua pressão está alertando para um infarto, ou se às terças você sai do trabalho para chorar com o analista. Tudo é virtual. Elas não precisam saber da realidade. Nem você.

Estão ali disponíveis às três da tarde, plenas, rígidas, abertas, descompromissadas, casuais, com cílios tão genuínos quanto a opinião que exprimem. Não contestam, não questionam, não precisam de um tempo pra si, nem pra cuidar da própria vida… Elas não falam mal do presidente, nem pactuam com essa treta de feminismo. Afinal são todinhas suas, vivem plenamente para você. Mas, ó, só se você quiser, porque você também pode desaparecer. Não carece de responsabilidade.

Sem enganação, sem mentiras, sem paranoias. São só suas amigas. Não precisa de apego ou afeto. O seu harém te basta. Bastará também quando tiver 80 anos e precisar de ajuda para mijar. Tudo é questão de criar um novo fake e vida que segue.

Bom mesmo é ter harém, meia dúzia de telefones com bateria de longa duração. Porque da última vez que viu uma mulher de verdade… Teve falha no download. Eu lembro, eu estava lá.


Para a migs Maria Caroline, mulherão daqueles. Sigamos acreditando no amor. Mas enquanto ele não vêm: vivamos o que temos para o momento.

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Criativa, míope, mãe de um moleque sensacional. Daquelas pessoas que sabem resolver quase tudo, menos, obviamente, o que tange à própria vida.

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