Bata a cabeça algumas vezes

Acordou com a boca seca, bocejou e rumou em direção a geladeira para aliviar a boca ferida devido a falta de água, mesmo ainda estando enrolado nas cobertas e naquele estado que a gente nem mesmo lembra nosso nome ao acordar, mas qual a importância do nome dele numa manhã fria dessas? Seu nome é em vão até que ele seja pronunciado e certamente ele não seria dito numa manha de domingo às seis e cinqüenta naquela solitária casa gelada, enquanto ele estava prestes a assassinar a sede. Encontrou o vidro de água vazio, ou cheio de vento igual alguns otimistas pensariam, só que estava cedo demais até para clássicas filosofias dispersivas que traziam conclusões óbvias. Se contentou com a água da torneira, que estava razoavelmente gelada devido ao inverno. Inverno, ele mesmo já tinha visto 22 deles e ainda se encantava com a estação. Jogou a coberta no sofá, se pôs a vestir uma roupa quente e saiu direção a padaria, de certo ainda não tinha acordado, poise se tivesse não teria chocado sua cabeça contra um orelhão velho que já não funcionava havia anos e que se situava frente a loja de verduras do seu Mauro. Soltou um “AI!! Orelhão filho da puta” enquanto o seu Mauro só observava e se continha para não rir. “Cuidado garoto, o orelhão já esta aí a quase 20 anos e certamente você não foi o primeiro a bater nele e provavelmente não será o último”. Resolveu ignorar o velho, bom, pelo menos não se deu ao trabalho de responde-lo, mas aquelas palavras despertaram algo nele. Teve uma epifania. Começou a pensar na quantidade de gente que já batera ali e que de alguma forma ofenderam o orelhão, não deveriam ser poucos, aquele orelhão já deveria ter ouvido de tudo nessa vida. Hoje dia com a internet é fácil a gente guardar algo que sentimos sobre alguém, seja em texto ou fotos, mas 15–20 anos atrás não eram tão simples, eram cartas e mais cartas com declarações e poemas entre os confidentes que talvez nunca revelados, já pensou no tanto de declarações de amor ou ódio sinceras que um orelhão já escutou na vida? Ou o tanto de sentimentos e preocupações que um carteiro já teve de carregar em seu embornal? Ele nunca tinha pensado e bater a cabeça ali despertou esse sentimento. Refletiu mais uns minutos e se viu nos anos 90 mandando uma letra de musica baranga para aquela menina que ele sempre via no ônibus quando ia trabalhar, era uma troca de olhares e vontades, mas não passava disso. Teve uma ideia: Entregar uma carta para ela nos próximos dias, não sabia bem o que escrever, mas quando se tem que ser sincero e dizer algo de coração, é só abrir a boca que as palavras se organizam sozinhas, o destino trata do resto. Voltou da padaria, passou pelo orelhão e agradeceu a ele mentalmente. Mal tinha mastigado o pão e lá estava ele encarando o papel e a caneta, e foi ali que ele viu que quando a gente precisa de pensar em algo urgente e inspirador, a gente não pensa em nada. Inspiração brota do nada. Pensou que as palavras se organizariam se ele não pensasse e na carta saiu algo parecido com isso: ’’Oi. me chamo Antônio e não sei bem o que escrever aqui, mas pensei em falar oi com você de uma maneira diferente, te vejo todos os dias no ônibus e percebi que sempre você estava mandando um bafo quente no vidro, que fazia o mesmo embaçar, tu me parece alguém que vê suas saudades refletidas nas gotículas de água que escorrem nas janelas dos ônibus, o que a gente pega para irmos seja onde for, ainda mais durante essa época do ano em que a maioria das pessoas tenta aquecer tudo que sente ao relembrar dos devaneios já vividos, principalmente os que ajudaram a petrificar o coração que agora é só um topo de montanha, rochoso e gelado. Espero te ver amanha e se não for um incomodo, você poderia me dar um sorriso como um sinal de que você não odiou isso?”. Ficou surpreso com o resultado, aquelas palavras pareciam já estarem ditas a muito tempo bem no fundo da sua cabeça e isso o fez se sentir bem aliviado. Arrumou um envelope de papel e bateu um pouco do seu perfume, estava tudo pronto. Mal dormiu na noite e já ansiava pelo ônibus quando ele apontou na esquina, subiu e já a avistou no penúltimo banco, se sentou no banco atrás dela, sempre fazia isso, gostava do perfume que ela exalava. Pouco antes do seu ponto, ele juntou todas as suas forças e disse: ”Moça, você deixou cair isso”. “Mas isso não é meu, moço”. “Agora é seu, mas só abra em casa ou quando estiver sozinha? por favor…”. “Isso é esquisto, mas tudo bem”. Ele suava frio, mas já tinha passado a pior parte e isso não impediu de ele ficar mais ansioso ainda pelo outro dia. Outra noite mal dormida. Outro aperto no coração ao ver o ônibus dobrar a esquina. Subiu nele e la estava ela, só que havia algo diferente dessa vez, ela não estava soprando o bafo no vidro e nem quis trocar mais olhares com ele. Ele gelou mais que o vento la fora. O ponto dela chegou e ela desceu sem dar qualquer manifestação a ele. Foi quando o ônibus partia e ele olhou pela janela com aquela ultima esperança que nos faz agarrar as coisas que já estão pra lá de fodidas, lá estava ela, acenando e sorrindo de uma maneira que encheu o corpo dele de alegria. Trabalhou mais feliz naquele dia e nos outros que eles se relacionaram no futuro. Quem diria que um orelhão com mais de 20 anos e que não funcionava ainda podia transmitir mensagens assim.

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