Eu tenho uma filha, mas ela não existe

Eu tenho uma filha, mas ela não existe. E mesmo assim ainda consigo vê-la, correndo em minha direção com medo do que ela imagina estar debaixo da cama, e se perdendo na infinita segurança que meus braços oferecem ao circundar-la.

Tem dias que a vejo no café da manhã, sujando os dedos com a manteiga e me vendo ficar nervoso por ela acabar os limpando no forro da mesa que eu acabei de lavar.

As vezes acordo assustado ao a encontrar do meu lado da cama às 3 da manhã, e ao ser questionada no outro dia, certamente vai dizer que tem um monstro no quarto dela, é só uma desculpa para dormir no meu vão da cama, eu sei bem disso. “Dorme bem aqui que o monstro também tá dormindo, ok?”.

Mal sabe ela que quando crescermos os monstros vão sair de dentro do armário e enfiar em nossas cabeças na forma de incertezas sobre o presente e medo do futuro, ainda bem que ela não sabe.

Tem vezes que ela vem chorando segurando um dos dedos e gritando que uma abelha ‘mordeu' ela, eu não resisto e solto uma gargalhada que a faz chorar mais ainda, e ela já viu que tem que ter paciência comigo na mesma proporção que tenho com ela, posso ser muito irritante.

Uma vez ela me disse que achava que as estrelas eram só postes colocados muito longe no céu e que isso era o motivo de eu volta e meia ta preocupado com a conta de luz, até porque com tanto ‘poste' assim no espaço, a eletricidade gasta deveria ser enorme e nada barata.

Que imaginação a dela né? Mas acho que ela tem de onde puxar, pois aqui estou eu imaginando cada aspecto dela sem que ela mesmo tenha um corpo, mas ela tem forma dentro de mim.

Eu tenho uma filha, mas ela não existe.

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