O porto esperança

Já fazia 20 anos que eu era um navegante na vida, sem porto
Era eu, meu semblante duvidoso e meus barquinhos em forma de pés
Esses que andavam descalços na enxurrada do dia a dia, em meio as extravagancias da vida moderna, se sujavam mais que um porco

Por um tempo achei que não iria necessitar de porto algum, achei que o combustível era infinito, que as marés nunca ficariam ruins
Oh se eu soubesse o tanto que estava errado, talvez soltaria um grito, quem sabe enxeria meu convés de cupins, afundaria meu barco

Busquei portos diversos; o da beleza, da compaixão, da empatia e do amor
Também busquei em portos inversos; o da solidão, da tristeza, da apatia e da dor
Em nenhum porto achei algo que me satisfizesse
Então decidi apenas ir consertando meu barco e tentando descobrir meus pontos de interesse

Era só eu naquele mar cheio de barcos, alguns pareciam saber bem onde iam 
Já havia meses de procura e num dia de março, parei no porto da esperança
Me perguntaram pelo rádio se eu ja tinha ido a todos os outros portos
Se estava raivoso, ofuscado por sentimentos mortos ou querendo vingança
Meu não foi dito por reflexo

Cheguei e já sentia que iria me adaptar ali, estava navegando a vida toda
Sempre em busca, mas nunca achando nada que me preenchesse
Sorri, em meio aquela gente que queria se achar a toda custa
Mas me assustei com uma placa pendurada que dizia:
“Permanência máxima de 24 horas”, achei que era o fim de minha busca
Mas ninguém podia ali morar, ninguém podia viver só na esperança

Apesar de entender o que a placa dizia, me enfureci, entender não era aceitar
Dei um grito, e uma mulher, ao me ver ao berro, veio me encontrar
Já aproximou perguntando: “O que há? Alguém tao jovem não deve ser por a gritar desesperado assim”
Eu já não pensava, estava quase chorando, fora de mim
“Sera que o mar é tão difícil para todos? Ou só para nós, que mais parecemos uns tolos?”
Enxuguei às lagrimas, e ela saiu de seu silêncio:
“Olhe para trás e veja que ele também pode ser belo, em seus tons de azuis, céus vermelhos e ventos que soam como um violoncelo, mas me diga, você consegue imaginar outro caminho com tais belezas e mais fácil que esse?
Não consegui responder

Conversamos por dezesseis das minhas vinte e quatro horas permitidas 
Contamos sobre como cada um lidava com as tempestades, as ressacas e as feridas
Sorrimos e choramos, ela também não estava na esperança a toa
Abri-me de bom grado e mostrei-a a minha proa
Decidimos sair dali e navegar juntos

Após alguns anos de ondas brandas e brabas 
Eu percebi que não queria mais atracar em porto algum
Que quando duas rotas amigas se encontram no mares da vida
E que chegamos no tão ansiado porto
E nós eramos o nosso…