Pedra, Pó e Fome
Eu conheci um homem que era uma pedra, será que eu o chutei ou ele me acertou?
Jogado ali no chão, destacado de todo o resto do monte, cheio de poeira, parecia ter vindo direto de algum poema de Drummond, sei lá.
Onze horas e eu já pensando que estava a endoidar, já fazia tempo que não usava drogas, mas a bendita pedra ousava a me falar: "Ei seu bunda mole, não era hoje que você iria se matar?"
Eu tava me matando um pouco a cada dia mesmo, limpei o suor da testa. "Cada dia uma morte diferente, pedra, agora o que me pega é o pouco de vida que me resta", afirmei à afrontosa.
"Parece que alguém aprendeu a lidar consigo, acho que a partir de agora seu sapato já não vai mais andar comigo. O que mais andou aprendendo?".
Por alguns segundos, fiquei remoendo.
"Cada dia uma morte diferente; cigarros; bebidas; lágrimas de quem eu gosto; minha falta de sorte, uma criança ontem fiz chorar, um coração que recentemente fiz um corte... Tudo isso me mata um pouco a cada dia, mas se até cobra há de trocar de pele, por que não eu poderia? Você me perguntou se iria me matar, mas o segredo é que eu já me mato todo dia, só que conceitualmente. A cada segundo um velho eu morre, então não devo me perder com isso, pois meu tempo escorre lento. Vou indo agora, pois estou atrasado, espero que o seu silêncio, a partir de agora, seja consumado".
Saí andando na rua procurando algo pra comer, todo mundo sabe que pedra não fala, mas, em minha cabeça, aquela era um conversa que eu precisava ter.

