Autocriatividade

Eu me sinto meio discípula da Frida Kahlo quando ela diz: “Pinto a mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”.

Só que eu ainda sou uma discípula tipo “filhote”: “Escrevo sobre mim mesma porque sou o assunto que quero conhecer melhor” (a parte do sozinha esquece, eu realmente NUNCA estou sozinha).

Tanto quero me conhecer melhor, que venho há muitos anos treinando o que chamamos de “eu observador”: aquela parte nossa que consegue dar um passo pra trás e enxergar a gente mesmo, nossas ações, pensamentos, sentimentos, palavras, etc. e tal, na hora em que estão acontecendo.

Com tanto treino, hoje em dia tenho um “eu observador” bem perspicaz. Quase sempre consigo me pegar no pulo em tempo real: Olha eu sendo assim, olha eu sendo assado, olha eu repetindo aquilo, olha eu conseguindo segurar a onda, olha eu não conseguindo…

Definitivamente é uma ferramenta crucial para o autoconhecimento! Se continuar assim posso até me inscrever no banco de habilitados para discípula júnior!

Mas é bom dizer que o “eu observador” só observa! É preciso outros eu, para, por exemplo, parar a birra, baixar a voz, desapegar de um pensamento, interromper um diálogo mental vicioso… Mas já é um começo.

Às vezes o eu observador “online” falha, e, por isso, também uso outras práticas. Uma revisão diária, por exemplo, que é tipo um “processamento batch”: ao final do dia (ou simplesmente quando der) paro um pouquinho para pensar no que aconteceu, no que chamou atenção, nos pontos que pegaram, nos sentimentos, pra rever aquilo que incomodou… e normalmente anoto, percebo padrões, “processo”.

Exemplo de revisão diária:

Fato:

De manhã, eu estava me arrumando pro trabalho e nesse dia ia também participar de um evento. Antes de sair de casa eu perguntei pra minha filha: — Essa roupa tá legal? É que eu quero estar bem arrumada pra esse evento, mas não quero que pareça que eu queria estar bem arrumada… quero passar a impressão de quem não tá ligando muito pra isso, entende?

Processo:

Pelo amor de Deus, a essa altura do campeonato não acredito que EU ainda faça (pense, sinta e fale) esse tipo de coisa.

Quer dizer que a pessoa passa um tempão em frente àquele closet lotado pensando nas tendências da estação, na paleta de cores, combina o sapato, descombina a bolsa, estica o cabelo, maquiagem “cara lavada”…

…E depois quer convencer a galera que está acima dessa coisa de se preocupar com moda, com imagem… que acordou, escovou os dentes e partiu!!??

Santa falta de personalidade, santa falta de espontaneidade, santa falta do que fazer!!!!

E ainda por cima dando mau exemplo pra filha adolescente (aff!).

Se o sindicato das discípulas da Frida Kahlo souber de uma coisa dessa, vão me expulsar, com certeza!

Se conhecer melhor tem dessas coisas… ao contrário daquela música, às vezes sinto até um decréscimo de estima por mim mesma, mas não sinto vontade de me desconhecer, seria pior, certamente… assim pelo menos tenho a chance (e a dignidade) de olhar de frente pra esse tipo de comportamento. Na verdade depois de muito “processar” posso até concluir que sou sim uma pessoa espontânea, mas não 100% das vezes (também, 100% é muito, né?).

Essa curiosidade a meu respeito, tem me levado a fazer cada vez mais perguntas. E não são perguntinhas nível “filhote” não, as atuais estão mais pra nível “máster de TI”:

  • Acredito mesmo nas coisas que acredito ou simplesmente me apropriei dessas crenças?
  • Quem realmente me influencia e porque?
  • Sou capaz de abrir mão de ser aceita em prol das minhas próprias opiniões? E quais são elas?
  • Do que sou capaz em determinadas situações? Até onde vou? O que realmente temo?
  • Tenho uma missão a cumprir?
  • Isso é tudo que existe para ver em mim?

O legal é que além da excitação com as possíveis respostas há também a excitação com as próximas perguntas que serão propostas pelos guias, por mim mesma, pela vida!

Uma coisa que meu eu observador tem me mostrado é que, apesar de todas essas questões existenciais e profundas que tenho sobre a minha pessoa, do ponto de vista da criatividade tem uma pergunta que eu andava me fazendo bem pouco: POR QUE NÃO?

E a moda agora é ser criativo, confere?

Para nossa sobrevivência no futuro pre-ci-sa-mos ser criativos, aumentar nosso repertório, explorar novas abordagens! Importante inclusive treinar a conexão das fibras nervosas do nosso cérebro e buscar, por meio do treino, aumentar bainha de mielina pra turbinar a velocidade dessas conexões. Explico — A bainha de mielina é uma estrutura que envolve os axônios facilitando e acelerando a propagação do estímulo elétrico. Quando a bainha de mielina é saudável (e quanto maior), os sinais nervosos são enviados e recebidos mais rapidamente. — Aí quanto mais conexões mais criatividade, fui clara??!!

Pelo que entendi o “POR QUE NÃO?” é tipo meio caminho andado, é uma pergunta “destravante”, que, se for somada a uma boa dose de coragem e outra de ação, pode mudar o mundo!

Então, como está na moda (e acabei de confessar que eu até ligo um pouquinho pra moda), estou tentando praticar um pouco mais. E não é que alguns “POR QUE NÃO?” já foram suficientes pra mudar bastante as coisas nos últimos tempos?!

Sondar o improvável, o impraticável, o impossível tem me trazido insights e experiências bem bacanas. Ando curiosa com o mundo e ele tem me inspirado cada vez mais!

Sabe aquela frase que a gente escuta desde criança: “POR QUE NÃO não é resposta!”? Descobri que “POR QUE NÃO” não é resposta porque tem que ser pergunta!!! E é uma pergunta muito massa!!!

Revisão diária:

Fato:

Tô querendo escrever um texto sobre autocriatividade… e… POR QUE NÃO?

É que essa palavra nem existe!!!

…POR QUE NÃO inventá-la?

Processo:

Com tanto “destravamento” tô me sentindo cada vez mais F_D_* mesmo!!!

*FR\DA (rsrsrs)