Como desaparecer um ônibus (ou vários)

Eu já contei pra você a história de como desaparecer um ônibus (ou vários)?

Me lembrei dessa história por causa do comentário de uma amiga sobre o seu comportamento no trânsito e a reação dela foi tão bacana que pensei que valeria a pena compartilhar.

Once upon a time,

lá pelo ano 2000, quando me mudei para o nem tão distante reino de Brasília, quase todo dia eu precisava fazer um trajeto de carro, perto das 18hs, passando obrigatoriamente pela avenida W3.

Para quem não conhece, a W3 é uma avenida enorme, que vai de uma extremidade a outra da província Plano Piloto. Ela tem umas 3 pistas de cada lado e naquela época não tinha ainda uma faixa exclusiva para tráfego dos ônibus (ou dragões).

E adivinha que tipo de veículo mais circulava por essa avenida no horário de pico?

Nessa hora, essa avenida “do reino do inferno” ficava entupida de ônibus!

Era tanto ônibus, mas tanto ônibus que eu imaginava que eles faziam parte de clãs (nem sempre aliados) e se encontravam a noite, em volta de uma fogueira, pra discutir sobre estratégias e ensaiar aquela dança de guerra que eles executavam toda vez que eu entrava na avenida. Se bem me lembro os passos eram mais ou menos esses, com algumas possíveis variações:

  • Fechar os carros pela direita.
  • Fechar os pela esquerda.
  • Tomar as três pistas da avenida e andar bem devagar.
  • Encostar nas traseiras e aí querer andar bem depressa.
  • Piscar os faróis e/ou buzinar.
  • Repetir tudo o tempo todo (Pelo menos nos 10 minutos que durava o meu trajeto).

E eu também repetia sem parar:

  • A COISA QUE EU MAIS ODEIO NO MUNDO É MOTORISTA DE ÔNIBUS!
  • Os caras são muuuuuito sacanas!
  • Eles são maus!
  • Eles fazem de propósito!
  • Eles tam-bém me odeiam!

A parte boa é que dava um certo orgulho de odiar tanto assim. Era meio que uma constatação de autoconhecimento profundo: “eu SEI qual é a coisa que eu mais odeio no mundo”.

Legal também é que eu nunca me sentia só. Sempre que eu estava numa rodinha fazendo a minha demonstração de “olha como eu me conheço bem” e destilando veneno contra os motoristas, tinha alguém pra fazer coro comigo. Certeza. Obviamente aquela maldita coreografia na W3 não era exclusiva pra mim.

E assim os dias se passavam enquanto eu seguia minha rotininha das 18hs: CD de Música “Zen” tocando, ar condicionado ligado, conexão com energias positivas, viro a esquina, entro na W3 e… lá se foi minha energia positiva (ou usando uma expressão mais condizente com o sentimento — Energia positiva é o C*!). Eu passava um bom tempo dos meus fins de tarde sofrendo, indignada, odiando com todas as minhas forças.

Até que em um lindo dia, horário de verão, saí umas 18h30, sol quente pra caramba e lá fui eu: música “Zen”, ar condicionado… e quando o terceiro ou quarto ônibus saiu do ponto e entrou na minha frente sem cerimônia, tirando um fino do meu carro que eu estou sem respiração até agora, eu me dignei a olhar pra cima, pra dentro daquele ônibus lotado, pra cara do motorista, disposta mesmo a tornar aquela questão mais pessoal: daqui pra frente seria ódio tipo olho no olho!!!

Eu olhei pro motorista e acho que foi a primeira vez que eu vi o rosto do meu arqui-inimigo daquele ângulo. E então descobri uma coisa surpreendente: A COISA que eu mais odiava no mundo era, na verdade, uma PESSOA.

Ele estava trabalhando, naquele calor, naquele trânsito, indo e vindo tantas vezes, com todas aquelas pessoas sob sua responsabilidade, com horários a cumprir…

E eu, sozinha dentro do carro, com o ar condicionado tão forte que meu cabelo balançava, pra lá e pra cá ao som de Khrishna Das (ou era Enya?), achando que eu tinha o direito de odiar o trabalhador que estava ali na minha frente. Bonito hein!?

E mais, quantas pessoas estavam dentro daquele ônibus?

E eu ali, achando que eu tinha que chegar antes de todo mundo, que meu ritmo tinha que ser respeitado, que eu tinha que ser a “prioridade da W3” a caminho da minha aula de biodança, da terapia ou meditação …(sim, eu fazia aquele trajeto com a finalidade de me tornar uma pessoa melhor).

Tive que baixar o olhar e esse momento foi um PONTO DE INFLEXÃO.

Nos próximos dias refleti muito e não é que eu tenha começado a amar os motoristas de ônibus de uma hora para outra, até porque eu não saio por aí amando as pessoas só porque elas exercem uma ou outra profissão, mas eu simplesmente resolvi tomar algumas medidas:

  • Passei a me colocar no meu devido lugar no trânsito.
  • Passei a dar passagem pra quem realmente deve ter prioridade.
  • Passei a sair da frente quando estavam atrás de mim, impacientes com meu ritmo “Hare Krishna, Hare Krishna, Hare Krishna, Hare, Hare…”.
  • Passei a cultivar respeito pelas pessoas que domam dragões (quando não fosse possível cultivar respeito por todas as pessoas do mundo, claro).
  • Parei de alimentar meu ódio e de fomentar o ódio alheio (e me arrisquei a encarar alguns momentos de solidão).

E não é que foi só eu estabelecer essa minha nova política de boa vontade que eles mudaram completamente?! Tipo assim: o simples fato de eu passar a diminuir a velocidade toda vez que eu via um ônibus dando seta para retornar à pista fez com que eles cortassem do show as entradas abruptas na minha frente.

Acho que eles conversaram muito sobre isso naqueles seus encontros em volta da fogueira e resolveram maneirar nos 10 minutos da coreografia em que eu passava pela W3 pois fui percebendo que os demais comportamentos que causavam a fúria do fim da tarde foram diminuindo e eu tinha até a impressão que o número de dragões circulando estava em sensível decadência.

Pouquíssimo tempo depois, meus compromissos mudaram do SRTVS (Setor de rádio e TV sul) para a 407 Norte e nem precisa conhecer Brasília pra sacar que meu itinerário mudou e a avenida W3 saiu completamente do meu caminho.

E adivinha o que aconteceu? Num balançar da varinha de condão — voilá: os ônibus DESAPARECERAM!!!

De lá pra cá é claro que eu ainda encontro alguns representantes da classe no meio do trânsito cada vez mais pesado da capital federal. Quando reparo, vejo que eles passam por mim ou eu passo por eles, a maioria das vezes como ilustres desconhecidos. Eventualmente eles me dão passagem, eventualmente sou eu quem dou. E eles eventualmente me fecham ou ficam irritados com meu ritmo (como todos os outros tipos e cores de carros e de motoristas).

E assim eu vivi feliz para sempre, sem fechar, nem odiar ninguém!

The End

PS.: Em homenagem à minha amiga ex estressada no trânsito (ou quase)