Vazio…

Outro dia no caminho para o trabalho me deparei com algo estranho.

Não era uma coisa, não era uma imagem, não era um sentimento, não era nada.

Não estava na minha frente, nem à minha volta, nem ao alcance das minhas mãos. Não estava em lugar algum e ainda assim estava ali.

Demorei para perceber que estava dentro de mim e no momento em que caiu essa ficha entendi na pele o significado de “vazio”: não é que tem alguma coisa chamada vazio dentro do seu peito: é que tem nada!

A princípio não me pareceu tão ruim, mas, aos poucos, permanecer ali foi se tornando insuportável.

Quis correr mas não tinha caminho.

Quis me esconder mas não tinha lugar.

Tive medo de me aproximar, medo de me perder, medo de ser pra sempre.

Tive medo de nunca mais parar de chorar.

Parei num sinal vermelho, respirei fundo e decidi olhar para aquele vazio.

Mas nesse momento ele já não estava lá.

Havia sido preenchido por tudo o que me permiti sentir entre uma curva e outra nos últimos quilômetros do meu trajeto.

Desconforto, tristeza, medo, solidão.

Lágrima.

De repente ouvi de longe a música que tocava no rádio.

Meus olhos doeram com a luz do sol e com o sabor do sal.

(Me pergunto se dirigi até ali de olhos fechados).

Estacionei meu carro em frente ao prédio onde trabalho e percebi ao meu lado o rapaz que lavou meu carro ontem.

Ele queria saber se eu tinha ficado satisfeita com o serviço.

Eu queria disfarçar a minha condição.

Ele percebeu meu pranto.

Eu me deixei perceber.

Ele estendeu a mão e disse que sabe o valor de uma mão estendida.

Ofereceu água e gentileza.

Ofereceu qualquer coisa que eu precisasse.

Desci do meu carro (que estava limpo de se admirar) olhando para aquele ser humano iluminado, cheio de amor, comovido com a moça que dirige um Jeep mas naquele dia não penteou o cabelo.

Ainda olhando nos seus olhos investiguei meu peito.

Milhões de sentimentos presentes, mas não encontrei a solidão. Acho que ela escorregou da minha mão quando aceitei a mão do outro oferecida pra mim.

No seu lugar encontrei gratidão.

Engraçado pensar que aquele rapaz, além de lavar meu carro lavou também minha alma.

Colocou de volta um sorriso no meu rosto e no meu coração a certeza de que o amor está em todo lugar, em todo mundo.

A certeza de que posso escolher viver a partir desse amor (ou a partir do medo).

A certeza de que gentileza atrai gentileza.

Entrei no prédio e dentro do elevador eu já era outra pessoa.

Feliz e emocionada com as surpresas da vida e com a força dos encontros que ela proporciona.

Corri pra contar aquilo pra primeira amiga que encontrei.

Ela me perguntou se essa história viraria um texto.

E você já sabe a resposta ;)