De trincheiras e toupeiras: desescolarizar a política

A disposição para se entrincheirar no velho e no tradicional é uma das coisas que mais me incomodou nos últimos anos na esquerda e no progressismo brasileiros. Diante de junho de 2013 e da Operação Lava-Jato, por exemplo, ambos eventos e processos que descortinaram a corrupção medular do consórcio estado-mercado no Brasil, a esquerda e o progressismo se identificaram a tal ponto com o sistema que viram o bolsonarismo surgir como alternativa de grande força eleitoral, classificando como "antipolítica" tudo aquilo que não era política por dentro do sistema, ou seja, tudo aquilo que não era liturgia do estado democrático de direito (enquanto esse mesmo estado de direito sustentava os dispositivos de exceção que removia, matava e fazia desaparecer os pobres nas favelas e periferias).

Isso se repete em quase todas as discussões e me parece ilustrar uma tendência profunda das últimas décadas: após o fim do socialismo real, restou à esquerda a defesa daquilo que existia e quase nada de mudança foi proposto. Quando muito, a esquerda e o progressismo restringiram-se a produzir negativas e recusas sem uma agenda reformista da sociedade. Foi assim no movimento contra a globalização na passagem ao século XXI, durante a crise capitalista iniciada em 2008 e sua longa onda de mobilizações pelo globo, com raras exceções (e nem sempre tão bem sucedidas, como o Syriza na Grécia, o Podemos e as plataformas municipalistas na Espanha, além da relativamente bem-sucedida Geringonça portuguesa -- essa última, entretanto, correspondeu a um processo distinto).

No debate sobre a educação no Brasil, esse bloqueio ao novo e o correspondente entrincheiramento no velho e no sistêmico me parecem exemplares. Diante das reformas propostas por Temer e que tendem a ser radicalizada por Bolsonaro, temos a oferecer a defesa do sistema escolar existente justo quando ele se incompatibilizou totalmente com o arranjo societário existente. Instituição moderna e disciplinar, a escola funcionou durante quase um século no encaixe com as demais engrenagens da modernidade (família e estado à frente) na produção de uma subjetividade social distinta àquela que organiza a sociedade atualmente. Esse desencaixe entre as instituições da modernidade requer uma reinvenção capaz de refazer o acoplamento entre elas, requalificando completamente as relações e o funcionamento de todas elas globalmente.

Numa sociedade em que os professores deixaram de ser o sol em torno do qual gira o sistema solar escolar (para usar a metáfora de Michel Serres) -- e na qual o progressismo se movimenta para fazer dele um ícone do passadismo, indo votar com seus livros debaixo do braço (lembrando os cavaleiros poloneses se batendo contra os panzers alemães em setembro se 1939), é necessário que se promova uma ideia nova sobre o que pode ser a educação, que se pense a educação nos termos do contemporâneo -- e da sua potência -- e que haja alternativas de reforma que deem conta de produzir esse novo encaixe, fazendo a educação (que não é sinônimo de escola) engrenar novamente com o arranjo societário.

A sociedade já desescolarizou os saberes (e o macartismo do escola sem partido é o sintoma mórbido desse fenômeno, bem como os youtubers e seus similares apontam para um novo terreno de produção e reprodução dos saberes). O que resta saber é se vamos desescolarizar e "desprofessoralizar" a nossa política para a educação e nos permitir pensar para além do que existe. Com as cabeças enfiadas na trincheira da escola e da sala de aula como toupeiras, vamos perder. Desprofessoralizar e desescolarizar nossa política é a saída para construir ativamente uma nova inteligência, que já existe na inovações sociais desde os territórios, e uma nova disposição em relação ao mundo, o que é, enfim, uma nova política.