De volta para o futuro

Com a conjuntura social, econômica e política brasileiras acelerando rumo a um quadro extremamente crítico, a permanência de Michel Temer no poder se tornou insustentável e — enquanto as facções da política institucional negociam a descoberto um modo de, a um só tempo, substituí-lo e também de assegurar a continuidade de um arranjo de poder baseado num modo de fazer política essencialmente corrupto — a alternativa democrática é a mobilização social por eleições.

Assim, enquanto o establishment partidário de esquerda articula-se na sua já habitual estratégia bifronte (negociando nos bastidores enquanto capitaliza atos e protestos politicamente vazios e impotentes) e o establishment partidário de direita, mídia e instituições se lança na campanha pelo respeito à Constituição (sobre a qual não a própria direita não hesitou em fazer mudanças socialmente regressivas recentemente), defendendo assim aquilo que nela está previsto para a nossa situação (eleições indiretas), uma maioria social esmagadora (85% da população, segundo o Datafolha) deseja novas eleições presidenciais.

Diante dessa situação, nas últimas semanas se tornou reiterado o lamento, no meio militante, sobre a necessidade de “termos que lutar por eleições diretas para presidente novamente” — quando, de fato, poderíamos estar exigindo eleições gerais e a possibilidade de recompor radicalmente a situação atual, na qual a ilegitimidade do sistema político atinge seu auge dia após dia. Tal lamento é, de fato, um dos sintomas de uma nefasta operação psicopolítica empreendida pelo establishment político (partidos, sindicatos, movimentos sociais, artistas e intelectuais incluídos) de esquerda nos últimos anos: a mobilização incessante do imaginário e da memória política brasileira daquilo que pode-se qualificar como o Brasil moderno.

A situação que vivemos hoje é não apenas inteiramente diferente daquela dos que, em 1983 e 1984, se mobilizaram por “Diretas Já!”, como é uma resultante daqueles anos e dos que se seguiram a eles. Hoje o que obstaculiza a possibilidade de eleição direta não é uma ditadura civil-militar e seu controle sobre a transição para a democracia, mas os limites dessa própria redemocratização três décadas depois — o que determina eleições indiretas, afinal, é a própria Constituição de 1988 e tampouco há qualquer previsão de que não haja eleições diretas em outubro de 2018.

Assim, a sensação difusa, ou melhor, a sensação fundamentalmente difundida, de uma certa nostalgia do retrocesso é, de fato, uma resultante dessa contínua mobilização da memória e do imaginário da nossa história política, a vitória de um superego que o establishment (numa colaboração entre a direita e a esquerda) conseguiu construir como modo de bloquear a emergência de um impulso social novo e autônomo trazido consigo pelo levante de junho de 2013. Tratou-se, desde então, de fazer reconvergir o horizonte do possível para uma polarização falsa entre duas facções em luta, não entre si mesmas, mas para preservar o próprio arranjo político mafioso que a redemocratização determinou historicamente.

A tarefa que se coloca, hoje, diante da aceleração da crise brasileira é, assim, em primeiro lugar, destruir toda a maquinaria polarizante, com seus intelectuais de araque, sua midiocracia, suas organizações e instituições, para que haja novamente um horizonte de invenção da política — não mais a partir de uma constelação de afetos que determina uma percepção do presente sempre constituída como repetição (traumática) do passado¹, mas de uma capaz de mobilizar a imaginação como forma de atravessar o presente de volta para o futuro.

Nota:

  1. Na situação brasileira o aforismo escrito por Walter Benjamin no final da década de 1920 é profundamente atual na sua extemporaneidade (o único modo de contemporaneidade possível): “Nos tempos que correm ninguém pode agarrar-se aquilo que ‘sabe fazer’. O trunfo é a improvisação. Todos os golpes decisivos serão desferidos com a mão esquerda” (Walter Benjamin, “Rua de mão única” [1928] In: Rua de mão única/ Infância berlinense: 1900, 2013, p. 13).