Perseguir o sol pela sombra

A "burrice da inteligência", para usar a feliz expressão do Marcos Nobre em seu artigo no Valor sobre o Brexit (1), é um ponto de partida adequado pra começar a pensar desde o abismo político e ético que nos cerca. Como o próprio Nobre a descreve, a "inteligência" burra, hoje, não é apenas uma expressão tecnoburocrática dos aparelhos de estado, mas é constituída por um longo arco de consensos instituídos que perpassam as instituições financeiras, políticas, acadêmicas, certa conformação juvenil e mesmo sua rebeldia consentida (o espelho daquilo que essa juventude troca pela própria servidão voluntária). Essa inteligência é uma racionalidade que eu chamaria, com o Rancière, de republicana e que tem um modo de operação estritamente vertical. É a racionalidade que posterga a democracia sempre para um depois no qual o povo terá sido educado, podendo, enfim, participar da política. Ora, a política não pode ser nunca esse jogo consentido no interior do que está constituído (isso é governo, polícia), pois ela é sempre, no sentido forte do termo, uma ruptura que institui um outro estado de coisas.

Por que fomos derrotados de uma forma tão contundente após junho de 2013? Porque nunca questionamos essa idéia republicana de inteligência e sua correlata concepção de democracia. Ao contrário. No país que assistiu a emergência da ideia republicana "bestializado", conforme um cronista republicano da época, as esquerdas e demais forças sociais opuseram ao caos das ruas uma racionalidade que nada tinha de estratégica, mas era uma espécie de barreira de contenção e a levaram ao paroxismo. Que o sentido comum do levante de junho de 2013 tenha desembocado nas mil e uma igrejinhas identitárias cooptadas por um governismo vazio de qualquer sentido material e sustentado no vazio das próprias "ideias de esquerda" não se esgota exatamente aí (o próprio modo de organização do capitalismo e sua "dominação informática" também explicam essa deriva fracassante), mas talvez encontre nessa concepção republicana (que no Brasil é francamente autoritária) seu fio condutor.

Quando hoje o caráter ofuscante da iluminação geral, que essa dominação de novo tipo nos impõe, promove a incapacidade do sono e do sonho, mobilizando a nossa atenção para um presente infinito, é necessário pensar com esse povo "despreparado" para a democracia. É na contingência estruturalmente determinada do seu pragmatismo - inerente às suas (sobre-)vidas - que é possível construir um pouco de sombra. Ali é que se pode voltar a ver os vaga-lumes que Pasolini decretou mortos. Eles se metamorfosearam e é necessária uma nova imaginação para vê-los. Como ensina a Gaia Ciência:

"Não querendo cansar a vista e o senso,
Persiga o sol pela sombra." (2)

Perseguir o sol pela sombra é aquela insistência na democracia real que só pode ser construída aqui e agora com aqueles que estão excluídos da própria racionalidade republicana da política, abandonando os choramingos por uma cidadania que não existe. Esse é o projeto da nossa república desde sempre. O terrível da nossa ordem fundadora não é sua disfuncionalidade, mas seu absoluto sucesso. Não há nenhuma saída partindo da inteligência burra do atual complexo acadêmico-partidário a que se resumiu a esquerda brasileira. O BR EXIT, uma saída para o Brasil, só existe enquanto construção de outra prática política, uma que possamos qualificar novamente como antagonista.

(Esse texto foi publicado no Facebook em 28/06/2017)

Notas:

  1. Marcos Nobre, “A burrice da inteligência”, Valor Econômico, 27/06/2016.
  2. Friedrich W. Nietzsche, A gaia ciência, São Paulo, Companhia das Letras, 2012 [1881], § 12, p. 22.
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