“Não problematiza pro meu lado”
Eita, tarde demais…
Warning: este texto não é destinado a ninguém em especial. A turma anda neurótica, né? Vai que…
Tenho estranhado muito algumas postagens mais recentes nas redes sociais. Elas vêm, inclusive, de pessoas que pertencem a grupos historicamente oprimidos e marginalizados. É um tal de “não problematiza pro meu lado” que é, decididamente, muito problemático.

Está óbvio que esse incômodo nasceu junto com a evolução tecnológica, que popularizou não só o acesso à produção de conteúdo, mas também ajuda a democratizar os lugares de fala. Isso, aliás, é um ponto muito delicado para as militâncias: o espaço de voz, de expressão, o protagonismo.
Tudo isso ganhou corpo com a internet e o uso livre da plataforma como campo de desconstrução. Ninguém mais está “seguro” de falar o que quer sem ter que encarar o que não quer. Nem de gritar opinião sem aturar argumentos.

Hoje, se você faz um post machista, LGBTfóbico ou simplesmente elogia o tempo porque passou dos 30º C, fatalmente alguém vai poder lhe rebater. E é aqui que mora o problema.
“Não problematiza pro meu lado” é um discurso primo do “opinião não se discute”. É namorado do “não sou preconceituoso, mas” e é igual ao “guarde sua indignação pra si”. É o silenciamento antes de abrir a boca, é sufocamento prévio porque “não tô interessado em te ouvir”. Isto, aliás, é bem ok, mas daí a tentar impedir o outro de lhe confrontar é demais.
Eu enxergo até um pouco de autodefesa nisso, o que de nenhuma maneira justifica a atitude. O indivíduo já é tão reprimido pelo que é, que acaba por tentar se livrar até do toque sadio, do alerta pro comportamento socialmente construído e imposto que ele reproduz sem nem notar.
Acontece que, como muito lindamente a Pitty disse no Twitter, “eu não volto pra cozinha, nem o negro pra senzala, nem o gay pro armário. o choro é livre ( e nós também) :))))”. Se alguma coisa foi conquistada em matéria de respeito às diversidades socioculturais nesse país e no mundo foi em função de quem não guardou a indignação na dispensa. Tá na hora de parar de ignorar isso!

Não fosse ‘a gay afeminada’ que não segura o rebolado pra não chocar a tradicional família brasileira, a travesti de cabelo comprido e saia curta, o negro que não aceita a discriminação ou a mulher que não se contenta com o fogão, a gente ainda viveria no século 19. Pra onde, aliás, tem uma galera querendo que a gente volte…