Quando caí no bueiro da escola

Dando início à série Contando Derrotas

Todo mundo diz que as redes sociais são lugares de pessoas perfeitas. Só há sorrisos, amizades sinceras e histórias vitoriosas(e algumas tretas políticas, posts de autoajuda e indiretas românticas, vá lá, porque ninguém é de ferro). Por isso, resolvi subverter a ordem vigente e escrever minhas derrotas. Não me refiro aqui a derrotas no sentido de fracassos de vida — longe de mim cair no tom melodramático — e, sim, de situações vexatórias, daquelas que a gente prefere narrar na terceira pessoa: “tenho que contar uma história que aconteceu com uma amiga minha”.

Agora, neste exato momento, não consigo contabilizá-las precisamente. Mas sei que são muitas. Ainda mais para uma pessoa tão pequena como eu.

Porque sabe aquela frase “isso só acontece comigo”, então, eu deveria tê-la inventado. Sei que parece aquele papo de melhor mãe do mundo; cada um acha que é a sua. Mas, talvez, depois que conte todas, você concorde.

E só uma última ressalva, para acabar a enrolação e ir ao que interessa. Apesar de tudo, eu me orgulho das minhas derrotas. Tudo bem, orgulho pode ser uma palavra meio forte. Mas nutro um grande carinho por elas. Sempre me rendem boas recordações, risadas e, é claro, histórias para contar. Então, é isso. Chega. Vamos a elas.

Quando caí no bueiro da escola

Estava na quarta série do fundamental (hoje, quinto ano). O cenário era o pátio do Pedrão, do Colégio Pedro II do Engenho Novo. Eu e um grupo de amiguinhos — incluindo o crush da época — brincávamos de polícia e ladrão enquanto nossos respectivos transportes escolares não chegavam.

Corre daqui, pega pra lá, até que o crush me alcançou e me levou para a “prisão”: em frente a um bueiro destampado. “Já pensou se eu te jogo lá dentro”, e fez que empurrava. Eu não relutei, porque tinha certeza de que ele não seria capaz. E daí, caros amigos, foi assim que, aos 10 anos, aprendi de uma forma um tanto quanto inusitada que não podemos confiar nos homens. Mesmo que ele seja seu inocente e fofo namoradinho de infância.

Consegui me segurar na borda e sobrevivi. Molhei apenas da cabeça para baixo. Foi um auê só: inspetores, professores, alunos, todo mundo em volta gritando, pedindo socorro. Fui resgatada e levada para a secretaria, onde me secaram, deram uniforme novo e chamaram minha mãe e a mãe do menino.

Precisei tomar algumas vacinas, fazer uns exames, mas, no fim, minha incursão ao esgoto (mentira, foi um bueiro de força e luz) não teve maiores consequências. Durante uns dias, virei uma espécie de celebridade da escola. Por onde passava, era apontada. “Não é a menina que caiu no bueiro?!”, “Olha a menina do bueiro”. No entanto, como toda boa subcelebridade, fui esquecida rapidamente. E o episódio tornou-se apenas uma lembrança divertida. Às vezes, de tão surreal, depois desse tempo todo, tenho dúvidas se realmente aconteceu.

Quanto ao crush que me empurrou, ele jurou que tinha sido sem querer. Chorou, pediu desculpas, disse que a mão dele escorregou, que só queria me dar um susto. Eu acredito nisso até hoje. De verdade, pois não temos mais nenhum contato e poderia muito bem falar o contrário. Afinal, outra lição que aprendi precocemente com essa história é que, muitas vezes, é mais fácil chegar ao fundo do poço do que admitir uma decepção amorosa.