Quando explodi o fogão na minha cara

Manuais de fornos, atualmente, trazem o seguinte alerta de segurança:

“Este aparelho não se destina à utilização por pessoas (inclusive crianças) com capacidades físicas, sensoriais ou mentais reduzidas, ou por pessoas com falta de experiência e conhecimento, a menos que tenham recebido instruções referentes à utilização do aparelho ou estejam sob a supervisão de uma pessoa responsável pela sua segurança.”

Eu — e aposto que você também — nunca havia lido um manual de fogão até ter algumas dúvidas para escrever esse artigo. Mas poderia jurar que essa advertência só passou a ser publicada há alguns anos. Mais precisamente, depois que um técnico precisou vir fazer uma vistoria aqui em casa, devido a um pequeno acidente que causei.

O forno a gás, que usamos na cozinha, possui uma dinâmica bem simples: o Gás Liquefeito de Petróleo, composto basicamente pelos gases butano e propano, funciona como combustível; o oxigênio é o comburente; e, para completar o triângulo do fogo, falta apenas o calor — que fica a cargo daquela faísquinha que sai quando apertamos o botão elétrico. E, então, somando combustível, comburente e calor: buum! Fiat lux 🔥.

É claro que sempre soube disso tudo e não precisei fazer qualquer pesquisa no Google para escrever esse último parágrafo — oras, afinal, o que está pensando de mim? Duvida da minha inteligência? O problema é que, naquela ocasião, eu me atrasei um pouco para colocar em prática uma das etapas desse tal triângulo do fogo (amigo de infância, by the way). Posso dizer que aprendi essa equação química, literalmente, na pele.

O que aconteceu foi seguinte:

Em um ano não determinado da época da faculdade — ou um pouco depois, talvez — eu estava me preparando para ir à comemoração de aniversário de uma colega num bar. Hoje, não consigo me lembrar bem o porquê e não faz muito sentido, mas resolvi assar uma pizza congelada antes de ir. Para um bar. Lugar onde, aliás, nem existe comida. Mas foi assim. Tenho algumas hipóteses: 1) Talvez estivesse dura (era uma jornalista universitária!); 2) Poderia ser um bar de comidas esquisitas (sou um tanto chata para comer); ou 3) A comemoração era tarde e eu apenas estava com fome mesmo.

Mas voltando ao que interessa, o fato é que, naquele dia, independentemente do motivo, pus a tal pizza para assar no forno. Tirei da caixa, liguei o gás e coloquei lá dentro. Enquanto esperava ficar pronta, fui para o quarto ler um livro. Algumas páginas e algo em torno de meia hora depois, estranhei o fato de que ainda não sentia nenhum cheirinho de pizza assando. Fui checar o andamento do processo. Abri o forno e notei que não havia acendido a chama. Durr. Como a pizza ia assar sem fogo?!

Não ia, né?!. Por isso, achei razoável apertar o botão da faísca após meia hora de gás concentrado dentro do fogão. A verdade é que não refleti muito sobre o assunto. Foi tipo um reflexo de assalto. A gente não mede as consequências na hora. Simplesmente vi que o fogo não estava aceso e apertei o botão.

Vivi, então, a fração de segundo mais demorada da vida. Logo me dei conta da tremenda asneira que tinha cometido e tudo que queria era voltar atrás no tempo. Mas a imensa bola de fogo já estava vindo na minha direção. Não tinha mais nada o que fazer. Apenas. Esperar. O. Buuuuuum!

Fiquei mais ou menos assim:

Mas o resultado foi bem favorável. Principalmente, se comparado à gravidade da minha estupidez: queimei uns fios de cabelos e um pouco da pálpebra, perdi uns cílios e parte da sobrancelha. E só. Continuei vivinha da silva, visão perfeita, nenhuma queimadura relevante. Impressionante, não é?!

Acho que sou meio um gato. Devido à minha inclinação para fazer besteiras, fui abençoada com sete vidas. Mas melhor me cuidar, porque, pelas minhas contas, já se foram algumas por aí.

Acho que vou começar a ler os manuais.

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