Quando um telefone que não era meu tocou da minha mochila durante a aula

Então, eu também sofri bullying na escola. Nunca foi de um tipo agressivo, é importante esclarecer. E, por isso, nunca me traumatizou ou causou qualquer mal maior. Entendam, não estou de forma alguma apoiando o bullying. Tenho plena consciência dos transtornos que pode causar. Mas aqui em casa, sempre que eu chegava reclamando das travessuras que aprontavam comigo, meu pai me confortava dizendo que as pessoas “só implicam com aqueles de quem gostam”. Acho que isso está longe de ser uma verdade universal. Mas, no meu caso, funcionava para eu ficar bem.

Nos tempos de escola, sempre fui aquele tipo de aluna queridinha dos professores. Quieta, atenciosa, boas notas. Uma CDF, em outras palavras, como rotulavam naquela época. Mas, ao contrário de muitos dessa espécie, sempre detestei (com todas as minhas forças) chamar qualquer atenção para mim. Ou seja, jamais levantava a mão para responder ou fazer perguntas — por maiores que fossem minhas certezas ou dúvidas. Nunca gostei de apresentar trabalhos ou participar de peças escolares. Isso tudo porque tinha (tenho ainda um pouco) um probleminha: fico muito vermelha quando envergonhada/constrangida.

No ensino médio, mudei de escola. Me adaptei super bem. Fiz novos amigos. Mas continuava na minha, tentando chamar o mínimo de atenção possível para mim. Até que em uma aula de química no primeiro ano, uma professora me fez uma pergunta sobre a matéria que ela estava expondo no quadro. Como era um pedido hierárquico, tive que acatar. Respondi e respondi certo. A professora era meio sarcástica e ficou fazendo elogios irônicos, o que resultou na turma toda olhando para mim. E então eu corei. E todos acharam engraçado e ficaram apontando e comentando “olha como ela está vermelha!”. Então corei mais ainda. Eles adoraram.

Daí por diante, não teve uma só semana em que não me colocassem em alguma situação desconfortável nas aulas pelo simples gostinho de me deixarem vermelha. Adolescente é um bicho malvado.

O caso do celular

Mas o pior episódio foi no terceiro ano. Pré-vestibular. Todos mais maduros. HA HA. Um celular começou a tocar no meio da aula. Era época daqueles ringtones chatos, que cada um personalizava de acordo com sua fossa. Eu conhecia minha fossa. E aquela, definitivamente, não era a minha. Nem me preocupei. O professor pediu para desligarem. Mas o barulho não cessava. Todo mundo se olhando. E eu tranquilona olhando para os outros também: “po, gente, desliga logo isso aí”, dizia na minha cabeça em uma repressão silenciosa.

O professor foi ficando cada vez mais bravo. E o telefone tocando. Eu sentia que estava perto de onde estava sentada, mas ninguém se acusava.E o telefone tocando. A aula, nesse momento, já estava completamente interrompida. Todos na busca pelo dono sem noção do celular barulhento. E o telefone tocando. Devia ser importante.

Resolvi, sei lá por que razão, checar minha mochila. Apesar de meu aparelho estar desligado na bolsa, percebi, para o meu desespero, que o som realmente vinha dela. Abri correndo a mochila e tirei o celular berrante. Pronto. A prova do crime agora estava na minha mão. O professor, obviamente, não quis nenhuma explicação. Declarando-me culpada de imediato — afinal fui pega em flagrante— , me pagou o maior esporro na frente da turma, achando ainda que eu estava zombando dele por demorar tanto a pegar o celular e desligá-lo. Fiquei sem ação e, é claro, corada como nunca, de vergonha e de raiva: o. aparelho. não. era. meu.

Pouco tempo depois, os engraçadinhos (meus melhores amigos da sala) se acusaram, falaram que tinha sido uma brincadeira, que não achavam que ia levar tanto tempo para perceber e se desculparam. O professor passou um pequeno sermão na turma, mas, no fim, ficou tudo bem. Adolescente é realmente um bicho malvado.

Mulatão

Anos depois, já adulta, formada, jornalista, trabalhando numa empresa grande e séria, ganhei o apelido “mulatão” dos meus queridos coleguinhas (isso fica para outra história, mas a ironia toda está em que sou uma branquela de um metro e meio). Vira e mexe, do meio da redação, soava um grito de “ôô mulatão”. Eu ficava com vergonha, corava. E isso era divertido. Adolescente… ops! É, não tem a ver com a idade.

No fundo, o fato é que eu também me divertia em cada um desses episódios. Porque apesar de o constrangimento ser sempre verdadeiro, eu segui e sigo acreditando que as pessoas “só implicam com quem aqueles de quem gostam”. E contando pela quantidade de bullying que já sofri, tenho a certeza de que sou uma pessoa muito querida!

Agora, olha para lá que estou ficando vermelha. ;)