
Quando sua Evolução Pessoal está em Descompasso com sua Evolução Profissional
Essa semana uma pessoa me enviou uma mensagem falando que estava realizando trabalhos com os quais não se identificava, mas que tinha um grande sonho de ingressar numa determinada profissão e me perguntou se era possível fazer essa transição, já numa idade madura.
Assim como essa pessoa, muitas outras, me conhecendo e sabendo que atuo na área de orientação de carreira, me contam de seu descontentamento e insatisfação com o que fazem profissionalmente.
Percebo um elemento comum nesses relatos associado a um sentimento de descompasso entre a evolução pessoal e a evolução profissional, causando um desequilíbrio que vai se intensificando durante a carreira.
E o que seria essa evolução pessoal? Jung, psiquiatra e psicanalista suíço, chamou esse processo de individuação, no qual o ser humano busca tornar-se um ser único, singular, que ele denominou de Si-mesmo. Embora Jung tenha concebido que a individuação ocorre no meio da vida, sabemos, hoje, que esse processo de busca de Si-mesmo e de encontrar significado no que faz e na vida, acontece ao longo de toda a nossa trajetória.
Precisamos dar sentido e nos reconhecermos no que vivemos, o que só é possível por meio do autoconhecimento. No cerne do processo de individuação está esse movimento de autodescoberta. De forma gradual, vamos identificando interesses, preferências, aquilo em que somos mais hábeis, assim como potenciais ainda não explorados e prontos para serem desenvolvidos. Nesse percurso nossos valores também vão se tornando mais claros, se solidificando. Às vezes, ao contrário, revisamos valores e crenças, modificando-os.
Na área profissional, nem sempre o trabalho que exercemos evolui de modo congruente com essa evolução psíquica. Nossa alma clama e aspira por vivenciar novas experiências que estejam integradas ao nosso processo de crescimento e evolução. Essa divisão entre aquilo que uma pessoa se torna e o que ela faz no plano profissional pode ser fonte de intensa frustração.
Vivemos numa sociedade que tem um discurso de humanização do trabalho, mas que, na prática, ao promover essa alienação entre o que se faz e o que se é, gera angústia e sofrimento. Algumas pessoas, diante desse cenário, para não perderem a segurança do conhecido e com receio da mudança, tentam se encaixar em modelos nos quais já não cabem.
Não é incomum em nossa época esse descompasso. E como podemos pensar em formas de lidar com esse dilema? Não pretendo oferecer soluções, uma vez que cada pessoa vive essa situação de maneira única e precisa buscar em si mesma essa resposta. Proponho, contudo, alguns pontos para serem considerados nessa busca:
1. O processo de mudança deve começar pelo autoconhecimento. Isso requer discernir o que se quer, identificar aquilo que gera significado para você e lhe realiza, definir objetivos alinhados aos seus valores e integrar a carreira à vida.
2. Toda mudança e transição de carreira precisa ser pensada e planejada. As chances de conseguir atingir os objetivos e ser bem-sucedido ao fazer um plano estruturado, com avanços progressivos, é comprovadamente mais eficaz do que tomar decisões e agir sem um projeto.
3. Essa transição requer autoconfiança e coragem para enfrentar os desafios, suportar algumas perdas na fase de reconstrução da carreira, superar as próprias resistências e fazer acontecer.
4. Esse descompasso entre evolução pessoal e evolução profissional deve ser enfrentado porque, se não dermos atenção ao chamado de nossa alma, vamos perdendo a potência e a possibilidade de viver uma existência mais plena e realizada.
Simone Carvalho - Psicóloga e Consultora em Desenvolvimento de Pessoas e Organizações