Dia de abraço: tocar o outro é sempre benéfico

O dia 21 de janeiro foi declarado o "Dia internacional do abraço", seguindo uma tradição que teria sido intitulada em 1986 por um pastor americano acreditando que seus contemporâneos sentem falta de ternura. Sobre o abraço e seus equivalentes nos animais e tudo que solicita o toque, a ciência investiga há muito mais tempo do que pensamos.

Um homem escolhe sua mulher ao se lembrar da cabelos sedosos e brilhantes de sua mãe? Independentemente da resposta, essa é a hipótese formulada em 1932 por Roy Sheldon e Egmont Arens, dois pioneiros do design industrial que queriam ilustrar a importância da memória das primeiras sensações táteis e seu interesse na área do marketing. Dentre nossos sentidos, o toque é o que temos menos consciência, já que é um meio ação direta no mundo físico e social. O simples fato de tocar alguém de forma amigável pode ter mais impacto que uma troca verbal. É o "Efeito Midas" (rei que transforma em ouro tudo o que toca), posto evidência nos anos 1980 pela psicóloga April Crusco, da universidade de Mississipi, através de uma experiência mostrando que os garçons de restaurante ganham uma gorjeta melhor se eles tocam o ombro do cliente ao apresentar a conta.

O tocar social é inscrito nas profundezas de nossa história natural. Observe dentro das numerosas espécies animais, os contatos táteis foram estudados pelos primatas que praticam a catação de piolhos uns dos outros, o equivalente de nossos carinhos e massagens. De fato, se não se tratasse de uma prática higiênica, o esperado seria que a duração da catação de piolhos variasse de acordo com o tamanho da superfície a se limpar. Porém, não é verdade: os maiores não são "desinfestados" por mais tempo que os menores e a frequência das sessões excedem enormemente o estrito necessário para garantir uma pelugem limpa. A seleção natural opera segundo os princípios mais racionais. A razão de tal investimento (até duas horas por dia!) merece ser discutida. O tempo sacrificado por atividades mais "sérias" como a procura por comida deve ser bem compensado por benefícios de uma outra ordem. Quais são eles?

Movimentos de catação de piolhos e carícias

Os movimentos de catação de piolhos são rítmicos e alternam-se entre fortes beliscões na pele e carícias amplas e suaves. Esses últimos ativam as neurofibras não mielinizadas numa velocidade lenta dos impulsos nervosos cujas projeções terminam na ínsula e no córtex orbitofrontal. Estudos mostram que a atividade de limpeza provoca a liberação da endorfina e da ocitocina, sistemas neuroendócrinos envolvidos em funções como a analgesia, o prazer, os relacionamentos sociais. Observamos também uma diminuição da pressão arterial e do tônus parassimpático e um estado de bem estar e relaxamento.

São esses os efeitos diretos. Mas qual vantagem seletiva é ocasionada a partir da preocupação com o bem estar do outro? O antropólogo Robin Dunbar (Universidade de Oxford) evoca a hipótese do cérebro social. Os primatas se distinguem dos outros mamíferos por ter um enorme cérebro comparado ao tamano do corpo e, quando comparamos diferentes espécies, há uma forte correlação entre o volume cerebral e a complexidade das estruturas sociais. Os primatas humanos e não humanos estabelecem relações fortes e de longa duração com seus parceiros de reprodução mas também com os vários outros membros de seu grupo. Essas relações devem ser geradas delicadamente afim de preservar as coalições e os equilíbrios necessários ao acompanhamento individual e à coesão do grupo. Uma relação não reprodutiva durável, ou seja, uma amizade, é cultivada. O toque social, segundo Dunbar, é talvez a solução que encontrou a evolução para criar um clima psicofarmacológico propício ao estabelecimento da confiança recíproca e ao fortalecimento de laços.

Você está pronto para um abraço gratuito?

Tradução do artigo: http://www.lemonde.fr/sciences/article/2016/01/18/toucher-l-autre-c-est-tout-benefice_4849226_1650684.html