Sobre atitudes, leveza e confiança

Toda virada de ano é a mesma coisa, traz em si aquela esperança de que uma nova oportunidade está nos sendo dada.

É como se o último minuto de um ano virasse para cada um de nós e dissesse “agora é com você de novo!”

Ao abraçar essa sensação boa de renovação, de poder recomeçar, mas tentar fazer diferente e cada vez melhor, passamos a acreditar de novo que aquele sonho que ainda não saiu do papel ou da nossa cabeça vai ter a sua hora de acontecer no ano que começa.

Também nesse momento da virada e nas horas seguintes do comecinho de ano, em que o dia parece tão preguiçoso e convida a pensar, está uma boa ocasião para vasculhar os vários “eus” que moram dentro da gente e que por vezes nem prestamos atenção para ver como estão se portando.

Assim, me encontro com o “eu” que ama e que vê no amor a solução para muitos problemas e situações, mas às vezes exagera na dose e me faz sofrer; com o “eu” que aprendeu a perdoar e já caminha sozinho com as próprias pernas; com aquele que ainda sente raiva quando alguma coisa não dá certo (como será que ele está? Já devia ter crescido e parado com essa mania de querer tudo a seu modo); falo com o “eu” que sente medos (preciso cuidar dele com mais carinho, para que os receios tolos sejam deixados de lado e ele me permita viver mais coisas); abraço o “eu” tolerante que descobriu o valor da paciência e da compreensão (não posso deixar que ele perca de vista o quanto tudo isso traz bons frutos); brinco com o “eu” criança que adora rir de si mesmo e que me traz a alegria e a força que preciso para encarar as dificuldades quando surgem.

São tantos “eus”, cada um exigindo o seu cuidado.

Converso intimamente com cada um deles. Na verdade, faço uma reunião com todos para que se mostrem uns aos outros e descubram sempre a melhor maneira de conviverem, e para que, da coerência entre eles, surja em mim um comportamento mais assertivo para melhor vivenciar o ciclo que inicia.

Muitas vezes somos tão rígidos conosco que se uma realização ainda não foi possível achamos que somos incapazes e impotentes, e a tentação de desistir bate à nossa porta.

Que tolice. Existem sonhos e desejos que demandam tempo e preparo de nossa parte, amadurecimento mesmo. Às vezes ambicionamos aquilo que nem temos maturidade ou capacidade para realizar.

Se não estamos prontos para realizar tal coisa, se nossa hora ainda não chegou, a culpa ou responsabilidade não é exclusivamente nossa. Tudo faz parte desse jogo chamado vida, em que, por mais que queiramos ter o controle de tudo em nossas mãos, ao aceitar que isso não é possível, mas sim desgastante e desnecessário, nos sentimos aliviados e com o tempo podemos perceber que a própria vida se encarrega de nos trazer, quando menos esperamos, aquilo de que mais precisamos. E como é bom receber dela esse presente.

Vale lembrar que não somos pequenos deuses no sentido de sabermos planejar sem erros o nosso destino, até porque, como num seriado, os episódios que se sucedem em nossa vida não são escritos somente por nós. Há colaboradores e roteiristas espalhados na família, nos amigos, nos colegas do trabalho, na rua, em todo lugar, enfim, outras cabeças e outros corações escrevem a nossa cena em parceria conosco, assim como ajudamos a escrever as cenas deles. Por isso o final de um episódio pode surpreender e às vezes até deixar um gancho melhor para a cena que virá na sequência.

Lembrando sempre disso chegará o momento em que nos libertaremos da sede de controlar todos os acontecimentos de nossa vida e ficaremos abertos para o que tiver que vir até nós, aceitando a sabedoria dessa magia/mistério que é viver.

É claro que temos coisas na vida que podemos e devemos organizar, planejar, cuidar, realizar e até mesmo tentar controlar, afinal não somos marionetes do acaso, mas quando percebemos que a possibilidade de se jogar, de apostar e acreditar que o melhor pode vir sem que estejamos no controle de tudo, a vida adquire uma amplitude sem igual e passa a fazer muito sentido continuarmos a sonhar, fazendo a nossa parte naquilo que somos capazes e damos conta (é o que eu chamo de “semeadura”) e aguardar que a vida, a energia ou a divindade, como queiram, se encarregue da nossa colheita.

Como na natureza, quando estivermos maduros para os nossos sonhos eles cairão aos nossos pés.

E que em 2018 essa colheita seja farta e feliz!

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