Carpe Carnaval

“Nunca devemos excluir as crianças dos rituais. A presença das crianças torna os rituais mais simples e vibrantes. Quando estão presentes, o que quer que se faça de errado se torna certo. Por alguma razão, elas são, por sua própria natureza, ritualísticas”. (Sobonfu Somé)

Aprendi isso com minha mãe e com as mulheres que me criaram. Sempre fiz parte das conversas, dos preparos, das rodas, dos ritos delas. Não era excluída nem quando o assunto era sexo e nunca entendi muito bem se esse momento picante (quase não) acontecia porque a minha presença não era estranha ou se porque elas tinham pudor umas das outras sobre falar de algo tão bom.

Sempre ali, onipresente e onisciente no meio delas, aprendi a costurar roupinhas para as minhas bonecas; a colecionar livrinhos da editora Pingo de Ouro; a ler revista de fotonovela (sim, tinha isso nos anos 80! e eu adorava — inclusive, foi através de uma delas que conheci e me encantei com a atriz Sandra Bréa); aprendi a “dibicar” pipa; a afofar claras para o bolo macio e desafofá-las para a omelete perfeita (tia Alice era exímia nas duas tarefas); aprendi a bordar; a enrolar chuvisco para por no pote com calda (presente recorrente de Natal da tia Olívia, quando ela não cismava com promoção do sabonete “Alma de Flores”); aprendi a distinguir entre salsinha e coentro e entre bertalha e espinafre; a escolher castanha portuguesa na quitanda; a fazer licor de jenipapo (uma das bebidas mais horrendas que já provei — não aconselho); a alimentar a Polenga, a Jandira e o Amarelinho (minha gata, minha tartaruga e meu pinto); a “straicar” na roda da bolinha de gude (nisso, em amarelinha, assobio, bordar e soltar pipa, a gênia era a tia Adélia, que também tentou me iniciar no piano mas não deu certo — ainda não dá); a fazer creme de massagem para hidratar meu cabelo (ou minha magafagafa, segundo a Madre Celeste) com babosa e lanolina. Aprendi a pendurar roupa no varal depois dela “quarar”; a cozinhar banana-da-terra; a recitar Pixinguinha e Amelinha e Chico e Dona Ivone Lara e Roberto Ribeiro e Benito de Paula e Beth Carvalho e Luiz Ayrão e Roberto Carlos e a Vanusa e o Tim Maia e a Nara Leão e a Elis Regina e o Ney Matogrosso no Secos e Molhados e o Cartola e tanta gente… (recitar porque, na verdade, com minha vocação para maritaca, em vez de cantar, eu praticamente dizia as letras das músicas, minha cantoria ainda não se iguala à da minha mãe, com quem aprendi minhas primeiras canções: “A Banda” e “Carinhoso”, pois enquanto ela lavava roupa eu a observava e a ouvia cantar, e talvez porque não tínhamos máquina de lavar, ela cantava sempre quando lavava roupa porque era no tanque, curioso isso! me fez lembrar agora da Marisa Monte cantando “Ensaboa”, que eu nunca soube ao certo se foi composta por Donga ou por Cartola; você sabe? me conta?!). Aprendi a verificar se o abacate e o abacaxi estão maduros; a acertar o dia da visita da vendedora de Yakult; a esfregar a pia de mármore branco; a escaldar o coador de café; a usar clichês em latim (mania que herdei da minha dinda, excêntrica apreciadora de língua morta, ela tinha um caderno repleto); aprendi quando o crayon serve ou não para pintar os olhos; a cortar papel colorido para enfeitar as prateleiras do quarto da minha vó materna; a ir à missa e a rezar o terço; a bater palma na gira; a ler a Bíblia; a orar na Seicho-no-ie e no johrei da Messiânica. Aprendi também a separar as fantasias conforme a ocasião do Carnaval, baile-matinê ou bloco: sábado era bailarina no Municipal da Hadock Lobo, domingo índia no Cacique de Ramos num ano e coelha metida a tigresa no Bafo da Onça no ano seguinte; segunda-feira e terça podia ser caipira (um ano minha mãe fez isso comigo, acho que não teve grana pra comprar fantasia e me enfiou no vestido da festa junina e lá fomos, com tia Olivia, dindinha e tia Alice, faceiras pro bloco), podia ser pirata, baiana, gatinha, fada, pantera, borboleta, qualquer coisa, mas preferia ser odalisca. Iniciada, misturada, habituada, ali, sempre no meio delas e dentro da minha mãe.

Por tudo isso, sempre achei natural o que a Sobonfu Somé exorta sobre a participação das crianças nos rituais e, conforme as mulheres da minha vida ampliaram minha visão sobre os ritos, também teria agido assim com meu filho, se não o tivesse perdido.
Uma lembrança que faz cócega no timo de tão boa que é, é a de passar as manhãs de domingo com minha mãe, porque depois que meu pai faleceu ela trabalhava de segunda a sábado e saia muito cedo de casa. Então, aos domingos, depois da missa, tomávamos café da manhã juntas e comíamos muita coisa, mas preferíamos, e até hoje preferimos, mingau de milho. Minha mãe é natural de Campos dos Goytacazes, talvez isso explique certas preferências e transferências palatáveis. Atualmente ela é minha vizinha e porque estou adoentada ela tem me dado aquela força-maternal que inclui o tal mingau que costumamos saborear só aos domingos.

Enfim, trouxe essa escrevinhação toda aqui, porque o Carnaval é parte da nossa cultura. Ele é sobre um dos jeitos de ser brasileiro. Embora nem todos apreciem a festa do Momo e por isso viagem (porque viajar é maravilhoso também), o Carnaval é um ritual em nós que, de certa forma, ainda somos crianças com mania de festejar a vida em si e não somente o que acontece nela. E isso também é bom! 
É uma bobagem, então, ficar (de hoje até dia 14, é), aí ou aqui, triste, lamentado a corrupção, o valor da nota fiscal das compras no hortifrutti ou no super mercado ou na feira ou na farmácia e o preço do combustível, lamentando os (des)governos em todas as instâncias que, agora, não por acaso, mas por sufrágio, estão sob a responsabilidade da Dilma; entretanto, desde Deodoro da Fonseca não têm dado muito certo, não, né? 
Que precisamos de professores e de médicos, de creches e escolas e universidades, de hospitais e clínicas, de praças públicas, de artistas, de teatros, de cinemas e galerias, de bibliotecas, de laboratórios, de bombeiros, de respeito aos índios e às árvores e aos rios; que precisamos de comida, de habitação, de trabalho, de, infelizmente, passeatas e às vezes de tapa na cara, todo mundo sabe, mas alguns (que têm se tornado maioria) têm dúvida se precisamos de folia. E a folia — aaaah a folia — é ingrediente do maná, porque alegria também é alimento que se falta à alma ela morre. Inanição não combina com o ritual do Carnaval, não! O ópio, o circo, o pão, o livro, o teto, a estrada, o dedo em riste, a revolução e a cama, são necessários, sim; todos são! Mas cada um a seu tempo. Porque viver é um rito.

No bloco, no retiro, no baile, na Sapucaí ou em Veneza, Carpe Carnaval!

Pra juntar as letras deste texto, me inspirei em um post do João Gabriel Ascenso em outra mídia social sobre Sobunfu Somé, tremenda diva espiritual de Burkina Faso, país da África. 
Na ocasião, o assunto foi o Zoé, filho recém-nascido dos queridos amigos Marianna e Heyk, e o João enfatizou, através da exortação da Sobunfu, o quão importante é perceber a oportunidade de ressoar através do ritmo dedicado aos rebentos. ~ Tamborzinhos! ~