Minha experiência com a Ayahuasca — Parte I

Recentemente escrevi um artigo onde falei sobre o meu processo de cura e como conheci a Ayahuasca. Agora vou contar com detalhes sobre a minha experiência com a “medicina”.

Após tomar a decisão de provar o “chá” e por ser a minha primeira vez, não quis criar muitas expectativas sobre o que aconteceria. Afinal, era pouco provável que tivesse uma experiência parecida com a de qualquer outra pessoa. Obviamente existem efeitos comuns, mas o que dita o que acontecerá é algo bem pessoal. Claro que senti certo receio e até medo, porém algo dentro de mim sabia que era a hora certa. Eu continuei recebendo mensagens por meio da natureza e sonhos. Sendo assim, a limpeza e a cura que eu viveria com a Ayahuasca começou antes inclusive de tomar a medicina.

Existe uma certa preparação para o que muitos chamam de “cerimônia”. O local escolhido — Céu de Ramatis, no Sambaqui — é um dos que servem a bebida sem associação a nenhuma religião. Eles são um ponto de luz, digamos assim, e apesar de receberem influências de várias crenças, espíritas, cristãs e inclusive indianas, indígenas e africanas, percebidas nos quadros místicos, canções e até nas orientações dadas, a ideia é que seja livre de qualquer dogma. Ali existe todo um respeito e a consciência do poder que esta combinação de plantas representa. Por este motivo, pede-se que se mantenha o melhor nível vibratório possível ao receber a “bebida sagrada”. Ou seja, quanto mais livre de influências negativas ou interferências externas, melhor. Isso significa que alguns dias antes a pessoa que participa do ritual deve evitar comer carne, bebidas alcoólicas e o envolvimento em conflitos. Além disso existem regras rígidas sobre o uso de drogas. A vestimenta é no geral para homens e mulheres de roupas brancas ou claras. Para mulheres saias longas e roupa sem decote e para homens nada de shorts ou camisetas regatas. Você pode ver a lista completa no site.

Via de regra, vários locais tem preparações semelhantes, alguns são mais rígidos e outros menos. Em alguns locais a preparação é de uma semana; geralmente nos retiros. Há inclusive um detox nesses locais. Porém, onde eu fui a preparação é de 3 dias antes. Outro ponto interessante é o horário do “ritual”, realizado no período da tarde, e parece diferir de outros que ocorrem à noite, terminando de manhã. O ritual começa às 14h e vai até umas 22h (ou até os participantes estiverem em condições de deixar o local — deve ter autorização dos organizadores para tal). Ninguém é deixado sozinho, nem durante nem após o encerramento.

Além disso, existem também outros dois detalhes que podem ser um pouco diferentes. Pede-se que se permaneça o tempo todo sentado— exceções acontecem apenas para os que realmente pedem ou não conseguem por algum motivo, permanecer sentados — e não existe a presença de um Xamã, figura-chave nos rituais como guia da jornada. Ao invés disso, existe a figura do padrinho — o mentor espiritual — que vai guiando através de músicas escolhidas por ele de acordo com o tema do ritual ou a energia do momento.

Pois bem, conforme disse foi nesse período de preparação (três dias antes) que começou meu processo de cura e limpeza. Minha menstruação iniciou justamente nesse período e fiquei na dúvida se poderia ou não participar, pois li sobre restrições em alguns locais. Eu nunca sofri muito com dores menstruais, mas me surpreendi ao notar que durante esses dias eu tive uma das mais longas e dolorosas cólicas da minha vida! Fiquei horas de cama, dormindo e tendo vários sonhos. Um deles, bem curioso, ocorreu dois dias antes. Acordei de madrugada com a imagem belíssima de ter visto uma baleia gigante parir. Um nascimento difícil. De certa forma, parecia que a baleia e eu éramos um ser só e eu me senti renascendo. Esse sonho me deu uma ideia da dimensão da transformação pela qual eu passaria.

Minha conexão com os animais é forte. Comentei no meu artigo anterior sobre o meu primeiro encontro — nada convencional — com um morcego. Tive mais dois encontros com esses seres dias antes do evento. Um deles apareceu enquanto andava pela rua da minha casa. Desta vez, surgiu voando baixo e reto, na mesma direção em que eu caminhava. Foi lindo! Depois eu tive mais um encontro, mais assustador, ao me deparar com um sobrevoando uma árvore próxima à casa do meu namorado, vindo na minha direção. Se não bastasse, um dia antes tive uma bela visão antes de dormir, vi um pequeno morcego me observando, pendurado de cabeça para baixo.

Finalmente chegou o dia do encontro com a “pachamama”, ou mãe Terra. Nessa manhã garoava e as minhas cólicas só aumentavam fazendo me sentir fraca e, como podem imaginar, com certo medo — que aumentava a cada instante. Mas, o chamado era tão forte quanto a dor física. Eu rezava e pedia proteção pois sabia que estava no caminho certo. No meu caminho em direção a algo verdadeiramente maravilhoso.

De certa forma senti-me mais calma quando ao chegar próximo ao local, reconheci o caminho percorrido ao lembrar de um sonho em que um ônibus passava por aquele mesmo caminho. Quando entramos no local, após passar pelo portão principal, vi a figura de um índio, em um quadro, parecidíssimo a imagem da índia vista no meu primeiro chamado. Estava tudo certo!

Se tudo isso parece esquisito e bizarro, acreditem é. E é só o começo. O que vivi esse dia foi ainda mais indescritível. A viagem apenas começava!!!

Fomos umas das primeiras em chegar. No carro eu e mais quatro meninas. Uma delas também participava pela primeira vez. Aguardamos de pé do lado de fora da casa — que ficava dentro da propriedade— para realizar a inscrição e o pagamento. O valor de R$30 é apenas usado para cobrir os gastos, já que a bebida é trazida de avião do Amazonas, conforme explicam. O local é rodeado da mais bela natureza, com jardins cheio de flores e animais, inclusive dois galos belíssimos, que circulavam por ali livremente.

Finalmente entramos na pequena casa reservada para a cerimônia. Ali esperamos em torno de uma hora até que todos chegassem. Todos em silêncio, sentados. Nesses dia as primeiras músicas que tocaram eram de caráter espírita. Eu lembro de rezar e pedir proteção pois a certa altura comecei novamente a sentir medo. Quando todos estavam prontos tivemos duas orientações. O padrinho basicamente explicava um pouco sobre o efeito — que disse demora de 15 a 45 minutos- e orientava a quem tomava pela primeira vez, tomar dois copinhos cheios — como primeira dose. A segunda dose (que seria apenas um copinho) que ocorre horas depois, só toma quem consegue se levantar para receber. Recebemos também outras instruções, como a de não olhar para o vizinho, especialmente se ele estiver no processo de limpeza (existem baldes embaixo de cada cadeira para os famosos “expurgos”) sobre a importância de fazer perguntas aos guias espirituais durante o processo e sobre a vontade de querer sair do local, ou “fugir”, o que não é de forma alguma permitido. Que o trabalho ali não é diversão, mas autoconhecimento.

Existe também uma instrução moral, sobre atitudes e considerações de comportamentos e pensamentos, oferecido pela filha do padrinho. Após o que durou aproximadamente uma meia hora de palestra, a “bebida” começou a ser distribuída. O gosto no geral é desagradável, quase que repulsivo para muitos. Quando chegou a minha vez, pedi para tomar menos, por causa do meu estômago. Porém acabei tomando um pouco mais de um copinho e meio. O gosto para mim foi familiar e agradável. Não senti medo, nem arrependimento. Ao contrário. Voltei a me sentar no meu lugar, feliz.

Enquanto alguns c0meçavam a sentir os efeitos minutos depois, eu não sentia absolutamente nada. Nesse meio tempo, que pareceu durar uma eternidade, eu rezava e pedia proteção. Senti receio do que poderia acontecer, mas à medida que o efeito não chegava fui ficando tranquila. Comecei a pensar que talvez a Ayahuasca não fosse surgir efeito em mim, por eu ser muito racional. Parece que esse período de espera durou aproximadamente uma hora e daí comecei a sentir. Foi uma sensação surreal, uma conexão extraordinária com o divino dentro de mim. É impossível descrever em palavras. Uma imagem me veio à mente, a imagem do EU SOU, da Fraternidade Branca. Para quem desconhece, a ideia é que todos somos “Deus”, que um dia nos uniremos ao nosso ser “Crístico” e assim como Jesus, seremos todos capazes de criar e ser UM com a energia que está em todos os lugares. É uma linda imagem, nela estamos nós, nosso ser superior e a energia cósmica maior. Pois bem, eu lembrei da imagem e a vi como realidade. Senti essa conexão. Foi uma experiência mágica, inesquecível do mais puro amor.

Ao mesmo tempo sentia meu ego ali, do meu lado esquerdo, querendo interferir. Questionando, sem parar, absolutamente tudo que vivia. E meu ser maior, intuitivo, conectado ao amor apenas dizia “Shhhh, fica quietinho aí”, como se quisesse dizer ‘aqui você não tem vez, querido’. Foi assim que aos poucos fui “domando” o Ego e com a mente silenciada, todo temor, julgamento e questionamento sobre estar ali foi passando naturalmente.

De vez em quando ainda sentia muita dor e cólicas. Confesso que uma das coisas que mais fiz nesta experiências foi ir ao banheiro. Quase não vomitei, mas tive muita diarreia o que parece acontecer com algumas pessoas. Após retornar da minha primeira “visita” ao banheiro comecei a me sentir bem fraca. Em certo momento senti e vi a presença de seres altos, uns 3–4, não sei bem ao certo, de cor azul (veja imagem abaixo uma referência de como eles eram). De repente, tive uma grande vontade de inclinar a cabeça para trás. Fiquei assim com o pescoço bem esticado, sentada meio que deitada enquanto eles ficavam de pé na minha frente, fazendo algo. Senti que me “operavam” nessa área, do laríngeo, mas eu não vi mais nada. Fiquei assim por bastante tempo. Ouvia algumas mensagens nesse tempo, mas não pude mais vê-los. Apenas sabia que fizeram algo em mim. Depois disso passei por mais momentos de fraqueza e em outros senti muita dor; as cólicas eram fortes. As mensagens que ouvia eram sempre repetidas, poucas e certeiras.

PACIÊNCIA, HUMILDADE e COMPAIXÃO, eu ouvia. Eu não vi, nem ouvi muito mais do que isso. Apenas sentia e ouvia ao fundo algumas pessoas passando mal. Naquele local éramos guiados por músicas e de repente elas ficaram mais “pesadas”, depois soube que eram músicas da Umbanda. Na hora não entendia bem. Apenas sentia o cheiro do palo santo, uma espécie de incenso, sendo queimado e pedia proteção. Em certo momento ouvi uma voz de repreensão. Era necessário “elevar a vibração” e cuidar dos pensamentos, avisava a filha do padrinho . Logo após disso retiraram um dos homens que estava passando mal e um outro foi autorizado a deitar no chão. Enquanto isso eu apenas me protegia ali, com meu cobertor. Cobri meu corpo todo e pedia proteção e luz para os que ali estavam. Foi em uma dessas horas, a mais sombria de todas ali no grupo, e toda coberta, que me vi rodeada de nada mais nada menos do um bando de morcegos!!! Foi uma visão, mas foi muito real. O papel deles em toda essa minha jornada finalmente ficou claro.

A partir daí fui me sentindo cada vez mais fraca. Voltei algumas vezes mais ao banheiro e fui alertada que meu trabalho não deveria ser feito lá, deveria estar sentada ali com o grupo. Depois disso, voltando à minha cadeira, um tempo depois, comecei a sentir o efeito passar um pouco. E logo veio o chamado para tomar a segunda dose. Como eu podia me levantar fui e tomei mais um copinho, dessa vez cheio. Estava bem naquela hora. Porém, depois desse copo senti profundamente a Ayahuasca em mim, o seu efeito de alteração de estado de consciência foi notado. Senti que saia de mim, que estava ali, sem estar. Novamente a mente quis questionar eu estar ali tendo aquela experiência, que muitos chamam erroneamente de “droga”, mas novamente eu sabia que era necessário. Sabia que era cura e não havia o que temer ou julgar. Continuei ouvindo mensagens, a maioria de amor, e sentia uma profunda compreensão de tudo. Maravilhoso. Apesar de não ver muita coisa, nem ouvir muitas mensagens claras, tudo o que consigo lembrar agora são sentimentos de conexão com tudo e todos. As palavras inicias foram repetidas mais dezenas de vezes.

Foi após a segunda dose que minha pressão caiu, comecei a ficar mal fisicamente. Quando me recuperei um pouco voltei ao banheiro, apesar de não conseguir mais evacuar. Lá pude me olhar no espelho, ver como eu era de fato linda e forte. Decidi não permanecer ali, apesar da vontade, pois deveria continuar no “trabalho”. Ao voltar, percebi que os assistentes estavam já limpando o local, retirando as cadeiras. Uma das portas estava aberta e havia uma bela fogueira do lado de fora, e a maioria do grupo já ali fora. Eu voltei a me sentar na sala e com ajuda de uma das assistentes fui uma das últimas a sair pois estava muito fraca. A “força” como chamam estava fazendo efeito e sua presença era bem forte em mim.

Sinto arrepio só de lembrar da experiência de estar ali próximo à fogueira, com uma lua cheia INCRÍVEL no céu, em meio à natureza, com árvores ao meu redor, uma em particular, e nada parecia real. As nuvens, o fogo, tudo, era simplesmente mágico. Lembro de pensar e me maravilhar com o poder da natureza. E apesar de sentir dificuldade em manter os olhos abertos — que era a instrução do momento — eu olhava e pensava que SIM, eu tinha que passar por isso! Era tudo perfeito. Mágico. E eu estava sendo cuidada. “Estão cuidando de mim. Não preciso temer”, sentia.

Depois de um bom tempo ali, a maioria já fora do efeito da Ayahuasca eu ainda me sentia na “força”. Após comer algo, voltamos todos para dentro da casa e ali eu senti, em um determinado momento, um certo desespero, pois sentia que não conseguia voltar ao mundo, digamos assim. Rezei e dancei, conforme fui orientada, e aos poucos fui saindo da força. No entanto, a sensação continuou por mais uns dias! Nem preciso dizer, que apesar de ter carona, fui uma das últimas a ter autorização para sair do local.

Pois assim termina a Parte I da minha experiência com a Ayahuasca. Na Parte II conto mais sobre o que aconteceria naquela noite e o que ocorreu nos dias seguintes.

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