O carioca está gripado

Saiu de casa depois de ouvir o tiroteio cessar. Vai amanhecer. Desceu a ladeira desviando-se dos fios d’água suja e de esgoto que erodem dia a dia o chão descalçado.

Na espera incerta da condução, mais um alvoroço. Percebe-se logo o porquê. Olhos baixos, olhos baixos. É a polícia que cruza na contramão. Um chute na porta de um vizinho. Assim é que se chega em muitas casas cariocas. De supetão.

O interfone toca uma, duas vezes. “É a polícia, senhor”. O barulho do helicóptero ensurdece e amola os vizinhos do prédio com piscina e sauna, garagem e varanda. É cedo. Mas ainda há tempo. Veste a camisa branca, a calça cáqui, o cinto, as meias sociais, os sapatos. Os óculos escuros. Uma bolsa de mão. Está pronto. A rua cercada por cancelas da milícia — não, na Zona Sul se usa outro nome –, a rua cercada por cancelas da segurança particular amanhece curiosa: quem será o preso desta vez?

A máquina do cartão do ônibus não funciona. O sistema — “o sistema é foda, parceiro” — está fora do ar. O dinheiro contado só permite pular a roleta, porque atrasos do outro lado do túnel não são permitidos.

O camburão passa pelo ônibus riscando o chão, com a porta traseira amarrada. Pela fresta, uma perna pende, inerte, nua e banal, para fora do carro.

Na garagem do edifício de dez andares, um utilitário de vidros escuros aguarda margeando o elevador de serviço. É por ali que o preso de camisa branca, calça cáqui, cinto, meias sociais, sapatos e óculos escuros vai sair. Uma fresta do portão de acesso aos carros fica displicentemente aberta para uma imagem roubada pelos fotógrafos. Rouba-se de tudo hoje em dia.

Já se passaram mais de 55 minutos entre o toque do interfone e o chute na porta. Quase que não se cruzam aqueles dois cariocas. O honesto e o desonesto.

O automóvel grande passa pelas cancelas, acompanhado de outro logo atrás. Desce sem pressa a ladeira de paralelepípedos, ladeada por calçadas e canteiros bem cuidados de plantas. O primeiro carro, como se prolongasse sua missão, dá passagem ao homem e seu shitzu que ali cumpriam sua rotina matinal. Cruzam então a rua principal e avançam o sinal amarelo, quase no momento em que o carioca honesto atravessa a pista rumo ao trabalho, no prédio de dez andares, com piscina e sauna, garagem e varanda.

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Honestidade pode ser encontrada em qualquer lugar. Porém, no Rio de Janeiro cansado de tanto apanhar, o carioca honesto está gripado. Ele ficou em casa, debaixo das cobertas, enquanto a chuva de outono começa a cair lá fora. O carioca honesto está cada vez mais difícil de ser achado entre nós. Nós que avançamos o sinal vermelho — sempre com uma explicação honesta para isso –, nós que fazemos uso diário das desonestidades mais banais, nós os ricos que nos deixamos frequentar e dividir espaço nas mesas com homens/mulheres públicos sabidamente corruptos, ou notoriamente sem vergonha de pedir um capilé milionário aqui ou ali. Nós os pobres de espírito que nos reunimos neste pedaço de terra escancaradamente lindo e cruelmente violento.