sobre essa idade, chega de anti-idade.

Então chega o dia em que você se dá conta de que não há mais fingimento. É a hora de se encarar esse fato da vida. Você realmente chegou lá. E chegar lá não é exatamente uma vantagem. É diferente.
Eu estou aqui. Alcancei o outro lado. Olho pra esquina e ainda consigo ver os últimos anos que escoaram de mim. Enfim, era hora. E por que ninguém me contou sobre essa idade?
Uma amiga me fez um grande favor uma vez. Sofria de um sincericídio apaixonante e minha barriga de 41 semanas de gravidez não arrefeceu seu instinto primitivo. Foi ela quem me contou, do alto de sua absoluta franqueza, que eu voltaria do parto e ainda teria uma barrigona de seis meses me esperando no espelho, só que sem o encanto de carregar minha primeira filha como recheio. Graças aos santos tenho um punhado dessas amigas por perto, porque foi mesmo uma merda — mas não um choque — encarar aquele reflexo depois das horas trabalhadas no parto normal — esse sim, lindo e inesquecível.
Anos depois, o sincericídio das amigas me fez falta numa outra tarde dessas.
Foi quando entrei na farmácia pra comprar os remédios receitados pela dermatologista. Tinha tirado umas pintas meio esquisitas e encomendei as fórmulas que precisava. Não me liguei no fenômeno prestes a se concretizar, logo ali, no balcão de vidro: cair, em definitivo, nas vendas dos cremes anti-idade. Começa com "você conhece esse", passando por "seu tipo de pele vai gostar muito desse fluido" até o "suaviza marcas profundas, inclusive bigode chinês".
Você ali que não tinha pedido nada disso, que não chegou reclamando de ruga, de pé de galinha, de coisa nenhuma, começa a ouvir aquela voz…O que fazem esses cremes? Trazem aquele seu eu-amado de 35 anos de volta? Sugam as marcas dos teus sorrisos? Levantam as bochechas? Apagam seus partos, suas despedidas? Aquele janeiro inteiro debaixo do sol da Bahia? Te abrem portas de trabalhos incríveis?
Não falo nada disso para a moça, 20 anos a menos, que me atende.
Eu não quero creme anti-idade. Eu quero ter o direito de ver o tempo passar sem me encherem o saco pra continuar jovem, palavra cafona. Ser novinho é legal. Fiz coisas maravilhosas. Mas, passou, né? Vivemos. E como. Seguimos. Continuamos aí.
O que queremos? Eu, você, a moça de 20 anos do balcão, queremos ser um mundo de possibilidades. E queremos ficar numa boa com esse mundo. É possível? Sem me enfiarem goela abaixo essa mentira?
Se a história anti-idade parasse nos cremes, mas não. Há um festival de ideias do culto à vida até os 40, depois que se dane. Há uma série de programas feitos sob medidas para deprimir mulheres vulneráveis a esse tipo de conteúdo. Os que prometem aparência instantânea de "10 anos mais jovem", os que trocam guarda-roupas inteiros e mudam até a personalidade das criaturas em coisa de três dias, "mude meu look" (e tente me reconhecer em outra pele) e por aí vão. Minhas deusas, não, né? Fora a propaganda despreparada, preguiçosa, parada no tempo. Poucos são ainda os lampejos de inteligência feminina.
Sobre essa idade, há que se descobrir em tempo que sobra borogodó pra curtir a vida. Mas sobre a descoberta do borogodó a gente fala depois.
