A Malhação-Nossa-De-Cada-Dia

Presente em 99% dos nossos pensamentos e conversas, o tema relacionamento já nos aproximou de desconhecidos, nos revelou amigos de longa data, nos tornou psicólogos, nos fez encontrar sentido até em canções e gêneros musicais inimagináveis. E sim, até possibilitou alguns amores.

Atire a primeira pedra quem nunca:

( ) Está ou esteve em um relacionamento, desejando estar sozinho.

( ) Está ou esteve em um relacionamento, desejando outro relacionamento.

( ) Está ou esteve em um relacionamento, desejando outro relacionamento, ao mesmo tempo.

( ) Está ou esteve em mais de um relacionamento, ao mesmo tempo, desejando estar sozinho.

( ) Está ou esteve sozinho, desejando estar em um relacionamento.

( ) Está ou esteve sozinho, desejando estar sozinho, mas se questionando se gosta mesmo de estar sozinho.


Quando estava no Ensino Médio, aprendi algo sobre "Progressão aritmética". Nunca soube como utilizar isto na vida. Mas tenho a leve impressão de que a Progressão aritmética calcularia a quantidade de tópicos que eu poderia inserir no questionário acima. E dada a complexidade humana, suponho que o número de possibilidades não seria nada pequeno.

Isto explica porque o seriado Malhação ultrapassa as barreiras do tempo. Você se pergunta: "Alguém ainda assiste isto?". Sim. Relacionamentos, meu caro. E se, num dia qualquer, você estiver próximo de alguma TV às 17h, ainda que seus olhos fujam daquela tela, você poderá observar mais semelhanças com alguma história de vida do que seu preconceito está disposto a assumir.

O fato é: hoje acordei disposta a escrever sobre a minha experiência como espectadora da Malhação. Não o seriado, claro. Mas a Malhação-Nossa-De-Cada-Dia.


Quando eu era criança e tinha uma vida semi-religiosa, aprendi algo sobre "Mil cairão à tua direita, dez mil à tua esquerda, mas a você, nada acontecerá" (Salmo 91). Minha reação foi basicamente a mesma sobre quando aprendi sobre Progressão aritmética, anos mais tarde.

Mas bastou substituir a palavra "cairão" por "se pegarão" e pronto: eis o resumo da minha adolescência. Finalmente algo fazia sentido. Enquanto o verbo se fazia carne aos da direita e aos da esquerda, aos da frente, e aos de trás, a mim, de fato, nada acontecia.

Até quem um dia, em mais alguma de suas faxinas diárias, Deus encontrou o meu prontuário. Ali, empoeirado, caído atrás da estante. Abriu, releu e, ao contrário das criações celestiais de outrora, viu que não era nada bom. Subitamente, como quem quer compensar algo, disparou todos os seres que poderiam ter sido revelados parceladamente ao longo dos anos anteriores. Todos (o que não significa muitos, afinal, essa ainda é a história da minha vida), numa única temporada. E eu, fiz uma escolha. Uma escolha que durou sete anos. Até que o outro fez uma nova escolha.

( E é especificamente nesta fase que os pagodes dos anos 90 te levam às lágrimas — E não falo ironicamente).

A falta de protagonismo na Malhação-Nossa-De-Cada-Dia, teve lá suas vantagens. Alguns roteiros mal feitos puderam ser evitados. O papel de espectadora me possibilitou alguns entendimentos pela escuta dos episódios alheios. Houve um tempo que fui considerada uma boa conselheira amorosa. Algo como a Super Nany do Amor.

— Não consigo criar meus filhos. Você pode me ajudar, Super Nany?

— Claro, sei tudo sobre as melhores formas de se criar os filhos.

— Você tem filhos, Super Nany?

— Claro que não.

Como era de se esperar, 99% dos conselhos dados, não puderam ser reciclados. Havia um novo cenário, o MEU cenário. E um conjunto de verdades sutis profundo demais, convidando para ser explorado:

Estou apaixonada. Pelo quê?

Vale a pena ver de novo. Vale a pena ver direito. Concordo que não é saudável nos prendermos ao passado. Mas virar a página, sem a mínima revisão, pode nos obrigar a cair na mesma história, infinita vezes.

É comum ouvir pessoas compartilhando a felicidade de ter encontrado alguém "com tantas coisas em comum". Sempre ouvi isto com uma certa desconfiança. Como uma pessoa com as mesmas figurinhas poderia te ajudar a completar o álbum? Mas ok. Esperar que o outro preencha nosso próprio vazio também é outra velha armadilha.

Na minha história, criei um novo tipo de compatibilidade — ou pelo menos algo sobre o qual não tinha pensado.

Não tínhamos exatamente o mesmo gosto musical. Não gostávamos dos mesmos tipos de filmes. Não gostávamos dos mesmos lugares. Mas eu não gostava de cerveja, ele também. Não era muito de "baladas", ele também. Nem gostava muito de conhecer pessoas novas, ele também. Nos aproximamos pelo o que não gostamos. E o que ganhamos? A segurança de poder permanecer no mesmo lugar.

O que sempre enxerguei como paciência, muita vezes era só medo da mudança. O que sempre vi como planejamento, era medo de se arriscar. O que enxerguei como aceitação, era apenas falta de objetivos maiores. O que valorizei como compreensão, era falta de posicionamento.

Por que precisei de sete anos para ter esta percepção? Constatei isto em poucos meses de convívio. Não precisei de sete anos para perceber. Levei sete anos para assumir.

Uma das coisas que mais admirava neste relacionamento era o fato de me sentir livre para ser quem eu realmente era. Cara lavada, calça jeans e tênis, cabelos despenteados. Como não amar alguém que te chame de linda nestas condições? Histórias como "Hum…ele interfere demais nas minhas escolhas"- não, nunca vivi. Sempre me senti inteiramente apoiada em qualquer decisão.

O que aprendi é que, enquanto eu podia ser exatamente quem era, não conseguia me tornar alguém ainda melhor. De alguma forma, extremamente sutil, era preciso continuar a ser a garota que não gostava de cerveja, que não vai à festas, ou que permanece tímida a qualquer primeiro contato. Não que estes sejam os sinais máximos da evolução humana. Mas poderia ser um primeiro passo para a superação de outros limites. Imagine permanecer a mesma durante toda a existência. Viver sob "excesso de compreensão alheia" não seria outro tipo, nada óbvio, de prisão?

Outro fato é: como isto se sustentou? Esta já é mais simples:

Simone 1: A gente bem que podia viajar, né? Fazer alguma coisa diferente.

Simone 2: É verdade, parece que ele nunca se incomoda com nada, credo!

Simone 3: Não, Simone. É você que se incomoda com tudo. Lembra quando ele disse que ficava feliz só de te ver? Que não importava o que vocês faziam, onde estavam, que bastava estar com você?

Simone 4: É…eu sou mesmo muito má. Acho até que ele me ama mais do que eu o amo. Quem ama, faz isso. Não precisa de muitas coisas…Deixa isso pra lá.

Sete anos.

Por isso perceber é simples. Assumir, não. Assumir que o sentimos é digno de ser trazido à tona. Assumir que não preciso sentir vergonha ou inferior pelo o que pensei.

O que concluí: Nos apaixonamos pela vulnerabilidade um do outro. E assim criamos nossa conexão, e construímos nossa cumplicidade.

O que fiz a partir desta percepção? Terminei? Não. Este texto só existe por que ele, provavelmente, assinalou o segundo tópico do questionário lá do início.


Quase dois anos depois, tendo finalizado todos os potes de sorvete da Terra, já posso olhar para esta história com bons olhos. Aliás, já posso escrever este texto. E mais, compartilhar este texto. Algumas fases podem ser esmagadoras, mas o entendimento que vem a partir destas histórias é tão profundo, tão bonito. Não tenho dúvidas: foi uma história linda — do início ao fim e ao recomeço.

Aguardemos a próxima temporada. Com certeza, vai ter muita azaração.