As Dinamarcas
[MADRID, Novembro] Observe, meu caro amigo, a sonoridade deste nome: DINAMARCA. Não creio que haja no mundo nome mais elegante. Ao ouvi-lo não lhe vem logo à mente uma dama aristocrata a caminhar majestosamente sobre um par de saltos, e a chamar a atenção por onde passa por sua pura graça feminina? Duvido que não. Já pensei em deixar a França e mudar-me àquela península escandinava, de clima tão rude mas de nome tão belo, e alugar um apartamento em Copenhague — aliás, outro nome elegantíssimo — , só para que quando me perguntassem onde moro eu dissesse: “moro na Dinamarca, em Copenhague”. Então eu ficaria até um pouco mais bonito, com um andar altivo e seguro, sem hesitações no falar, como Canuto ao conquistar a Inglaterra.
Desisti. Acontece que na Dinamarca não se fala ‘Dinamarca’. Fala-se um estressante ‘Danmark’, frio como o clima dinamarquês que só não é pior por ser abençoado pelas humidades do Mar do Norte. E ‘Copenhague’ então? Decepcionante como aquela mocinha que era linda até que — droga! — se descobre que ela é politizada. ‘Kobenhavn’, enfie uma batata sob a língua e pronuncie kôben-háu. Mas cuidado! Não pronuncie se estiver nauseabundo.
Sou da opinião de que o mundo todo deveria falar português. (Está bem, menos as mocinhas francesas e italianas, que são um dom de Afrodite aos ouvidos da humanidade.) E mais, no começo só havia a última flor do lácio inculta e bela, até que Deus se irritou com a soberba dos filhos de Adão e fez surgir essa sorte de sacrilégios sonoros a que chamamos de línguas.
Considere, meu amigo, a tristeza de nascer em uma terra chamada Suomi e morrer sem saber que nas terras lusófonas a chamamos de Finlândia. O finlandês é sisudo, não por ser antipático, mas apenas por não saber que é finlandês. Da mesma forma, é incompreensível que um país tão civilizado como a Alemanha chame-se Deutschland. ‘Alemanha’ recorda uma senhora mui distinta e respeitável, e é mesmo um excelente nome para as senhoras sexagenárias (bom dia, dona Alemanha!). ‘Deutschland’, entretanto, não recorda nada, justamente porque não quer dizer nada; é aquele monte de letras digitadas quando não se sabe o que procurar no Google. O problema da poluição no céu da China, por exemplo, só se resolverá quando ela deixar de chamar-se Zonguó.
Eu, exilado em terras francesas, enquanto não vem o Messias para instaurar em toda a terra a gloriosa língua lusitana e endireitar as línguas dos povos, escolha não tenho a não ser procurar conformar-me com a transformação da Galia em France, France bem anasalada, anasalada como o resfriado causado pelo frio do outono, frio que já começa a me gelar os dedos, e me obriga a pôr as mãos no bolso e a achar um fim qualquer a esta crônica sobre Dinamarcas.
