Crônica de todos os santos

Richard Simon
Nov 1 · 2 min read

Quando pequeno, contaram-me que nosso santo protetor deveria ser aquele com o mesmo nome que o nosso, e que em certos lugares, até, não se celebra o dia do aniversário, mas sim o dia do santo onomástico. Fui procurar então o tal Saint Richard, ou São Ricardo, para estabelecermos nosso contrato de amizade. Ele me protege e eu digo ‘rogai por nós’, que é o que os santos gostam de ouvir. Ele pelo jeito devia habitar em algum bairro bem afastado do Céu - enquanto no centro habitavam as Claras, Teresonas, Teresinhas e Franciscos - de modo que seu nome nunca chegava aos lábios das velhinhas do Apostolado da Oração. O São Ricardo, coitado, não rogava por ninguém.

Descubro, enfim, a identidade de meu padroeiro. Ricardo de Chichester, rei da Inglaterra e… monge.

— Mãe, não gostei do meu santo. Quero outro. Queria me chamar Miguel, ou Jorge.

— Que isso, menino? É pecado não gostar do santo.

— Pois eu não gostei, e pronto.

Não era culpa minha; a verdade é que criança só gosta de santo com espada ou dragão. Depois de um tempo descobri outro Ricardo, o Coração-de-Leão, também rei da Inglaterra e melhor guerreiro de toda a Europa; “Taí meu santo!”, disse animado. Mas tive que tirá-lo do Céu: esse aí não foi santo nem um pouco…

Fui falar com o padre. “Há muitos santos desconhecidos, disse ele, inclusive Ricardos.” Fiquei feliz, com certeza devia haver um do jeito que eu queria.

Imaginei então um São Ricardo que montava um cavalo branco e com sua espada lutava com o diabo. Junção de São Miguel e São Jorge. O meu não aparece na lua, mas no Sol. Quem tentar provar que eu minto fica cego.

A adolescência, porém, chegou e eu — sacrilégio!— roubei a espada do meu santo e o matei. E o Céu, ante aquele absurdo, ficou vazio. Agora eu era deus.

Acontece que eu cansei de ser deus e pouco a pouco adquiri as debilidades do homem de novo. A esse processo chamam de amadurecimento. Não julgo que amadureci muito, talvez apenas o bastante para dizer aos santos: voltem!

Voltaram. Um a um assumiu seu lugar no firmamento renovado. Menos meu pseudo São Ricardo. “Aqui nunca esteve” disse São Pedro ao olhar sua lista, quando lhe perguntei.

Descobri então que no Céu não havia santos imaginados, com suas espadas de araque e seus dragões inventados. No Céu só há gente. Gente de verdade, até o fim.

Richard Simon

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“Tanto faz cortar como desatar”

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