Discussões

Richard Simon
Nov 1 · 2 min read

[FLORIANÓPOLIS, OUTUBRO]“Quinta-feira terá temporal” anunciava o jornal. Passou a quinta, a sexta, estamos no sábado, e temporal que é bom, digo, que não é bom, nada. Enganaram-me; eu o esperava como se espera uma festa. Não porque gosto de temporais, mas porque íamos brigar, lavar a roupa suja. Ia dizer a ele o que a humanidade gostaria de ter dito em todos esses séculos de ventania, trovões e granizo, e tornar-me por uns instantes seu (da humanidade) advogado. “Quem é você para quebrar a ordem do mundo, do meu mundo, assim de repente, e sair imune?” Quero ver o que responderia! Ele simplesmente não teria resposta. E, ah, como é bom discutir quando se tem razão!

Fui até a estação meteorológica pedir explicações. Quem sabe o temporal não teria se perdido? Não é de se duvidar, hoje o mundo todo está perdido e ninguém sabe aonde vai, talvez nem mesmo as tormentas. Ou talvez, ainda, pode ter encontrado uma tempestade, se apaixonado por ela, ficado besta, e perdido assim seu poder destrutivo.

— Nós não temos culpa, o clima tropical é assim instável, o temporal pode vir e em cima da hora resolver não vir mais, disseram-me.

[O clima tropical é como aquelas pessoas que dizem vir e nunca vêm, e então vêm sem avisar; ou que só trovejam e nunca chovem, e quando chovem chovem dias sem parar. É a mentira em forma de clima. Eu, que sou um autêntico clima temperado, não o suporto.]

O dito cujo resolveu vir no domingo, às 4 da tarde. Mas domingo é dia do Senhor, tem futebol; só as velhas italianas gostam de discutir no domingo (bem como em todos os outros dias). Veio com força, chacoalhando a janela, me chamando para a briga.

— Flamengo 2 a 0 no Grêmio, não vou discutir com você, ô temporal.

De repente o vento derrubou a antena de tv.

— Tá parecendo minha mulher (e todas as outras), se a gente fala que não quer briga, aí que fica uma arara. Não tem problema, vejo o jogo no celular.

Flamengo 2 a 1. Bosta! O vento, de repente, por meio de um de seus representantes no Maracanã, levanta o braço do Rafinha, a mão bate na bola, pênalti: Flamengo 2, Grêmio 2. Foi a gota d’água, um temporal gremista eu não aguento.

— Escuta aqui, ô meu amigo, quem você pensa que é pra…. (insira aqui uma onomatopéia de estouro)

Um raio atingiu o poste de energia. Todo o bairro ficou sem luz até o dia seguinte. Perdi; o temporal não pensa que é, ele é.

O Flamengo também perdeu — este, ao contrário, pensa que é e não é coisa nenhuma.

Richard Simon

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“Tanto faz cortar como desatar”

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