Pra não dizer que não falei de amores

Era um amor como todos os outros.

Aliás, era o mais bonito e isso justificava todo o encantamento. Não era comum que eu me relacionasse duradouramente com homens detentores de traços tão delineados. Pormenores, meu ego inflamado satisfazia-se pelo encanto de, enfim, ter um par consideravelmente belo.

Era tudo, até descobrir seu coração.

O escutava atenciosamente enquanto me confidenciava seus tormentos, lamúrias e profundas decepções. Como boa ouvinte, ao me narrar suas histórias, o conhecia, o estudava, com sensibilidade e destreza ao observar os detalhes. Seu coração era tão bondoso e puro que me deixara ainda mais maravilhada.

Era tudo, até descobri suas desilusões.

Haviam sacrificado sua benignidade, seu amor e exposto em praça pública. Sacramentaram o que nele havia de ainda mais belo. Machucaram seus sentimentos deixando traumas, até então, intransponíveis.

Era tudo, até oferecer-lhe colo. Abrigo.

Permanecia extasiava. Quis cuida-lo. Amenizar os efeitos do que o haviam feito. Retribui a confiança, o carinho, o cuidado, a proteção. Pensei ser capaz de cicatrizar as feridas a mim expostas em confidência, como se delas ouvisse um apelo, um ‘grito de misericórdia'.

Era tudo, mas já era tarde, o amava.

Éramos leais a nós. Bons parceiros. Inclusive nos negócios. Havia reciprocidade. Excelentes companheiros. Seis bem vividos meses passei ao seu lado.

O amor era tudo, até a chegada do fim.

Nossas confusões mentais entre o fraternal e o carnal faziam com que o desejo oscilasse. Chegou próximo a cura. Cheguei bem perto de enlouquecer – um pouco mais. Os sentidos se confundiram. Nossas belezas e predicados faziam com que nos admirássemos. Nossas fraquezas com que nos uníssemos. Mas nossas razões nos afastaram.

Tão logo pude amar de novo. O novo amor nos afastou por um tempo, porém, trouxe a sabedoria e o discernimento necessário.

O amor é tudo quando se atrela a amizade.

O amor de outrora se transformara em um fiel amigo. Continuamos cúmplices, confidentes. Capazes de se dispor ao outro, a ouvir e a ajudar. Solidariamente. Compartilhamos alegrias, ideias e perspectivas. Nos amamos agora da maneira correta. O novo amor ficou velho, permanece no recente passado. Do que importa? Somos amigos agora. Quem sabe amantes.