O que uma barbearia pode nos ensinar

Em nossas jornadas de gente grande, é necessário depositar uma dose de confiança em outras pessoas para pequenos feitos da rotina. Um ônibus coletivo circulando pela cidade, envolve cerca de 50 pessoas que confiaram naquele carinha ali no volante para levá-los aos seus destinos em segurança. Ainda se falando em confiança, sensações mais tensas surgem quando envolvemos profissionais de saúde, agulhas, exames, olhos, entre uma série de outros itens. Mas, particularmente, tem algo que sempre me chamou a atenção: o quanto nos passa despercebido a confiança que depositamos em um barbeiro. Você está lá deitado, geralmente com uma toalha tapando seus olhos, com o pescoço exposto para alguém que tem uma lâmina afiada na mão, numa situação em que um mínimo erro pode comprometer uma das áreas mais vulneráveis do nosso corpo. E outro ponto: a gente paga pra ele fazer algo que supostamente é possível ser feito em casa, sem custo (eu não consigo, mas vai que existe alguém…).

Voltando. O que me faz optar por um barbeiro ou outro, é a sua capacidade em executar o seu trabalho sem transformar o meu pescoço/rosto em uma cena de filme do Tarantino — e acredite, isso é bem difícil.

Em geral, a contratação de um barbeiro envolve alguns fatores padrão:

Planejamento: O que pode ser feito considerando o formato do seu rosto, tipo de barba, etc.
Briefing inicial: Como você quer a sua barba.
Escopo: Você está lá pra fazer a barba, pediu por isso. Talvez até possa cortar o cabelo depois, mas o valor e prazo não serão os mesmos.
Prazo: O cara não vai fazer a sua barba correndo.
Colaboração por conta do cliente: É interessante que o cliente não fique se debatendo durante o processo.
Equipamentos: Uma lâmina nova, toalhas quentes, cadeira específica, etc.
Preço: Em geral esse já está escrito em alguma placa bem visível.

Em uma realidade onde tudo isso tenha sido respeitado, a probabilidade do serviço ser bem feito é de quase 100%.

Ok Rodrigo, mas o que isso tudo tem a ver com a minha vida?

Talvez o fato de ter uma lâmina a alguns milímetros do seu pescoço, influencie com a colaboração de cada etapa do trabalho do nosso amigo barbeiro. Mas por que isso não acontece em projetos que envolvem design, tecnologia ou (insira aqui o seu ramo de atuação)?

Colocando isso tudo em uma realidade de agência ou profissionais de design e tecnologia, é bem difícil conseguir sucesso no projeto se cada etapa prevista não é respeitada. O planejamento bem feito vai gerar um briefing decente, que vai chegar ao escopo do projeto, que é o item que a equipe tenta defender com unhas e dentes, e que poucos conseguem deixar intacto durante o processo.

Nesse momento, já temos também uma definição de prazo, que foi pensado para conseguir colocar tudo em prática. Mas esse prazo é sempre pra ontem né? (1×0 pro barbeiro). Depois que o projeto está andando, vai surgir uma nova necessidade (tchau, escopo?), vai surgir algo que o cliente não tinha pedido antes (saudades escopo), mas que ele quer que seja feito, e pelo mesmo custo do orçamento inicial, não importa se vai gerar mais 10, 20 ou 30 horas de trabalho.

Fico pensando se esse tipo de cliente entende que dependendo do projeto, o que está em jogo é tão importante quanto o pescoço dele, e que a escolha do profissional que desenvolve cada etapa e o fluxo de trabalho faz diferença.

Enquanto não chegamos numa solução, talvez colocar algum objeto cortante como ferramenta ajude.

Sobre Rodrigo Medeiros
Publicitário, ux / ui designer, míope, filho mais bonito, tem um bulldog e sonha com um aspirador de pó robô. Na Sin, é Coordenador Digital.
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