Os projetos de diversidade cultural nas escolas são embasados na Lei 10.639/03, que versa sobre a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados.

Para introduzir a matéria é preciso entender o que é diversidade cultural. Cristina Ferreira, mestre em Educação, explica que a diversidade cultural relaciona-se a todo e qualquer aspecto que esteja associado com as variações que constituem um povo, um país ou uma cultura.

Cristina argumenta que a importância desses projetos está na superação de um histórico de segregação, preconceito e perseguições não só ligadas às questões étnicas como também às questões religiosas e culturais. “Após a instituição familiar, a escola é a segunda na qual a maior parte das crianças fica e se desenvolve enquanto cidadão e em aspectos cognitivos. Contudo, o saber cognitivo e sistematizado acaba se tornando hegemônico no processo escolar”, conclui.

A questão da diversidade cultural é um assunto delicado no Brasil e precisa ser tratado com urgência nas escolas. Neuzely Ferreira, professora do 1º ano do ensino fundamental I, destaca que com o problema de preconceito hoje em dia, essa é a fase de ter um novo olhar pra cultura do outro, com respeito.

Confira aqui a entrevista completa com a professora Neuzely.


Tabu

Cristina esclarece que o desenvolvimento de assuntos relacionados a questões sociais ainda são tabus para profissionais que não estão interessados em ultrapassar as “demandas” do currículo. “Acredito que projetos que trabalhem com uma perspectiva baseada em uma educação assistemática devam ser desenvolvidos de acordo com a realidade local dos alunos de forma que o próprio conceito de educação supere a ideia de disciplinas, conteúdos e avaliações”, afirma.

Neuzely comenta que as escolas são bem estabelecidas à religião do povo branco e alguns pais tem dificuldade na aceitação do ensino de outras culturas. “Até em projetos sobre a nossa realidade brasileira, como o folclore,muitos pais acreditam ser feitiçaria. Precisa-se tirar essa máscara que existe em relação a nossa própria cultura”, explica.

“Precisa-se tirar essa máscara que existe em relação a nossa própria cultura” — Neuzely Ferreira

Dificuldade

Cristina avalia que, na educação básica, os alunos têm certa dificuldade em entender a importância do tema devido a forma como ele é abordado em sala. Neuzely ressalta que o próprio negro tem dificuldade de aceitação na sociedade; e até mesmo os professores são resistentes quanto à implantação de projetos de inclusão cultural na sala de aula.

“Isso acontece bastante nas séries do 1º ao 5º ano porque a mente do professor do Ensino Fundamental I é muito fechada, impondo normas catequistas, como orações em sala de aula”, acrescenta Neuzely.

A resistência parte também das escolas. Neuzely explica que isso ocorre porque a religiosidade é predominante dentro das escolas, e na maioria das vezes é a cultura da própria instituição que ela tenta impor. “Geralmente o diretor não é imparcial e tenta colocar a crença dele em envidência. Portanto, diante de qualquer ideia nova apresentada, ele faz de tudo para impedir”, ressalta.

Neuzely conta que o professor de Ensino Religioso, na maioria das vezes, trabalha com boas maneiras, da ética e moral,e não com o leque de conceitos de outras religiões. Com isso, o aluno não tem um contato com o que é Budismo, Kardecismo ou Candomblé. O que gera falta de respeito com a religião do outro.


Parâmetros Curriculares Nacionais

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) são a referência básica para a elaboração das matrizes de referência. Os PCNs foram feitos para difundir os princípios da reforma curricular e orientar os professores na busca de novas abordagens e metodologias.

Cristina analisa que no PCN, a temática referente às questões étnicas/raciais se apresenta enquanto parte das antigas reivindicações em prol do respeito em âmbito escolar. “Entretanto, o tema é trabalhado nas diversas disciplinas enquanto transversal, podendo então ser trabalhado em várias ‘disciplinas’ de diferentes formas e com distintas abordagens”, pondera.

“Partindo-se do PCN, a escola espera se posicionar de forma a superar o racismo e a discriminação”, pondera Cristina.

Confira aqui a entrevista completa com a mestre em Educação Cristina.

Incentivo

Neuzely considera que projetos de diversidade cultural são importantes nas escolas porque o aluno precisa conhecer a cultura dele, para se aceitar e para se impor como pessoa. “Impor também na sociedade as raizes dele. Para ter orgulho da história que possui, e não ficar se escondendo a partir de paradigmas na sociedade, em que o negro fica sem espaço”, finaliza.

Cristina explica que a iniciativa dos educadores para produzir mais projetos de inclusão cultural é complicada porque a escola lida com prazos, currículos, avaliações de qualidade e todo um sistema estipulado para o cumprimento dos 200 dias letivos.

“Isso não representa uma justificativa para que projetos de conscientização aconteçam, mas, também falta envolvimento dos próprios profissionais no entendimento de que a diversidade cultural é tão importante quanto o desenvolvimento de estratégias para que os alunos apresentem bons resultados nas provas”, conclui Cristina.

A equipe do Sinercult visitou três escolas para conhecer mais sobre os projetos de diversidade cultural. Dentre elas, duas escolas: o Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Darcy Castelo de Mendonça, no bairro de Goiabeiras em Vitória; e o Colégio Salesiano Jardim Camburi são embasados na Lei 10.639/03. Com intuito das crianças preservarem, valorizarem e respeitarem a diversidade da cultura afro-brasileira. Para que os alunos que são descendentes de pretos, de indígenas, pudessem conhecer a cultura da própria origem.


  • Você sabia? O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) usa “preto” como classificação de cor ou raça nas pesquisas de censo demográfico desde 1872.

Para formar a classificação de negros, é comum que seja somada a população preta à população parda para a formação de um grupo. Portanto, usar o termo preto não é equivalente a usar a categoria negro, que pode incluir também os pardos.

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África: O berço da cultura

Mostra cultural “África nossa raiz nosso encanto” no colégio Salesiano em Jardim Camburi, em Vitória. Fotos: Assessoria.

A diversidade está presente no cotidiano, não só do brasileiro, mas do mundo inteiro. Existem diversas culturas, raças e religiões, cada um com sua individualidade que precisa ser respeitada pelo próximo. É importante tratar desse assunto desde criança, para que a pessoa cresça entendendo e respeitando as diferenças, seja ela qual for. Com isso, algumas escolas incentivam o conhecimento desde cedo e criam projetos para ensinar de forma criativa sobre a diversidade cultural.

No colégio Salesiano localizado em Jardim Camburi, em Vitória, a professora de Língua Portuguesa, Marilda, sempre conviveu com o preconceito, pois é mãe adotiva de dois jovens negros. Desde então, ela ensina como educadora a igualdade e que a cor da pele não tem importância, porque viu seus filhos sofrerem com essa situação.

Em 2014, criou o projeto: “Africa dá o tom”, trabalhando exclusivamente a questão da cor da pele, e juntamente com os alunos, escreveu um livro que foi muito elogiado. A personagem do livro é uma estudante do Salesiano que viaja para a África, onde vive diversas experiências, com ideias que surgiram dos alunos. O livro é o relato da vida da personagem no País. Ela conta que deixou os alunos imaginarem e o resultado foi incrível. “Na história, a menina volta de viagem apaixonada por um africano, é muito bonitinho”, afirma.

A professora com muita dedicação ensina como é necessário conhecer outras culturas, principalmente a da África porque ela acredita que é o berço da cultura brasileira. “Nos brasileiros temos a obrigação de valorizar a cultura Afro e aceitar as pessoas como elas são e é isso que procuro passar para os meus alunos, aceitar o outro na condição dele”, diz.

Mostra cultural “África, nossa raiz nosso encanto” no colégio Salesiano em Jardim Camburi, Vitória. Fotos: Assessoria.

Esse ano, ela colocou em prática um novo projeto que se chama “África, nossa raiz nosso encanto”, em que ela aborda mais o lado cultural, trabalhando mais o aspecto literário. “Eu acho que a ideia que as pessoas têm da África é uma ideia de escravo, de sofrimento, uma selva de animas e não é só isso”, conta. Com o intuito de mostrar o lado cultural, a professora se baseou em jogos e brinquedos africanos.

O exemplo é a boneca Abayomi, que é símbolo de força, resistência e tradição. A boneca é toda feita de nós porque na época do navio negreiro exista muito sofrimento e as crianças ficavam ansiosas e sofriam vendo os adultos naquela situação. Com isso, as mães rasgavam a saia em pedações e faziam bonecas de pano para as crianças, para acalmá-las.

Bonecas Abayomi produzidas pelos alunos. Foto: Assessoria.

Religião e solidariedade em pauta em escola particular de Vitória

O Colégio Sagrado Coração de Maria (CSCM), em Vitória, apesar de estritamente católico, não exclui outras religiões da sua grade de ensino. Mesmo que as aulas comecem todos os dias, sem falta, com uma Ave Maria, os estudantes têm a oportunidade de aprender sobre outras doutrinas a partir de trabalhos e leituras realizadas na aula de Ensino Religioso.

A disciplina, obrigatória até o terceiro ano do Ensino Médio, faz com que os alunos possam aprender sobre religiões pouco faladas, mas que tiveram papeis importantes na formação do Brasil, como o Espiritismo, a Umbanda, Candomblé e algumas orientais, como o Confucionismo. Também são abordadas seitas, numa tentativa de ensinar e desconstruir o preconceito que gira em torno dessas expressões.

Você sabe a diferença entre seita e religião?

Seita: Vem do latim “secta” que significa secionar ou dividir. É comumente usado para designar religiões menores ou divisões de religiões já existentes. A seita pode significar uma determinada corrente, seja ela religiosa, política ou filosófica.

Religião: É seguida por um grupo de pessoas que acreditam em Deus, ou entidades divinas, seguindo os próprios preceitos, visões de mundo e valores daquela religião.

“O preconceito, muitas vezes, vem da falta de informação” — Gabriela Brown

A estudante Gabriela Brown, que teve a disciplina durante o Ensino Fundamental e Médio, conta que foi muito importante aprender sobre religiões diferentes. “É triste, mas ainda há muito preconceito com o diferente no Brasil. E o preconceito, muitas vezes, vem da falta de informação. Muita gente acha que aula de Ensino Religioso é apenas para doutrinar, mas não é verdade. Eu fiz trabalhos sobre, no mínimo, três religiões diferentes, além de aprender com o trabalho dos outros também”, conta.


Projeto Social

Mas a diversidade não é abordada apenas no âmbito religioso. A escola conta, também, com vários projetos de inclusão social, dentre eles o Missão Jovem, que consiste em levar um grupo de alunos e profissionais voluntários para uma região carente.

Em 2012, o local escolhido para o intercâmbio social foi um pequeno município de Minas Gerais, chamado Pai Pedro. A estudante Bruna Pelluzzo foi uma das voluntárias. Lá, vivia como uma família do local e, além disso, trabalhava com a recreação das crianças e a conscientização dos adolescentes sobre questões como sustentabilidade e sexualidade. Junto com o restante do grupo que a acompanhou, ela visitava as escolas e dava palestras.

“Aprendi, principalmente, sobre generosidade e a importância do carinho” — Bruna Pelluzzo

“Foi uma experiência incrível. Descobri que via de regra intercâmbios sociais são parecidos num ponto: você vai achando que vai ajudar ou ensinar algo, mas acaba sendo muito mais ajudado e ensinado. Aprendi, principalmente, sobre generosidade e importância do carinho com o outro e de como vale a pena realmente pararmos para dar total atenção ao outro. E aprendi isso sem nenhuma palestra, apenas observando como eu estava sendo tratada lá”, diz Bruna.

Grupo de alunos que participaram do Missão Jovem em 2015. Foto: Divulgação Rede Sagrado Vitória

A partir de 2014, o Missão Jovem chegou ao Espírito Santo. As regiões contempladas foram Aribiri, em Vila Velha, e Itacibá, em Cariacica. Só neste ano, 70 voluntários participaram do projeto, que visitou nove comunidades, 400 casas, quatro creches, quatro escolas, uma cooperativa, estabelecimentos comerciais e uma empresa de abastecimento de água.


Dança, culinária e belezas da comunidade

No Centro Municipal de Educação Infantil (Cmei) Darcy Castello de Mendonça, localizado em Goiabeiras, em Vitória, foram realizados projetos de valorização da cultura afro-brasileira para crianças do Ensino Fundamental I. Os projetos “Nós Afro” (2011), “ “Nossa Cultural, Cores, Ritmos e Sabores” e “O circo do Darcy é assim: Arte, Diversão e sem Discriminação” (2012), contaram com a participação de 500 estudantes.

A professora Marilene Gonçalves foi quem idealizou o projeto “Nós Afro”. A ideia surgiu após o conhecimento da Lei nº 10.639/03. “Nas escolas estaduais já existem projetos. Mas, por que não com os pequenos também? Pensamos para ser algo que lúdico, mas que ao mesmo tempo fosse enriquecedor”, explica.

O projeto foi realizado de forma interdisciplinar e contou participação das professoras de Artes e Educação Física. “Pensamos em trazer para o universo infantil, para as crianças conhecerem a cultura da própria família”, diz Marilene. Nas aulas, foram utilizados livros infantis, bonecas, cantigas e personagens da cultura-afro, para que as crianças conhecessem a história.

O “Nós Afro”serviu, também, para reforçar a autoestima das crianças que, segundo Marilene, muitas vezes é abalada. “Várias crianças negras se veem em condições inferiores. Umas falam: ‘eu quero ter o cabelo cumprido. eu queria ser da cor da minha colega’”, diz Marilene.

Cultura local

No bairro Goiabeiras há o galpão das paneleiras, o manguezal e a banda de congo, tribos que ajudam a contar a história do Espírito Santo. Pensando nisso, foi inserido o projeto “Nossa Cultural, Cores, Ritmos e Sabores”, com o objetivo de valorizar a cultura local.

A professora Marilene Gonçalves, idealizadora dos projetos no Cmei, no XVII Prêmio Arte na Escola Cidadã, em 2012

“Fizemos com que a cultural local fosse para dentro do CMEI. Mostramos como eles estão inseridos em uma comunidade rica culturalmente. Muitos alunos têm a avó paneleira e não tem ideia do quanto é precioso. Tornamos claro que é patrimônio cultural e reconhecido mundialmente”, declara a professora.

Dança

As atividades relacionadas ao circo foram inseridas, em 2013, ao projeto, com o intuito de valorizar as diferenças de cada aluno e quebrar preconceitos. “Queríamos valorizar e unir. Você tem a sua beleza e eu a minha. Queríamos valorizar o aluno mais alto, magro, brancos, negros”. A escola se apresentou no Museu Capixaba do Negro (Mucane), no Teatro Carmélia e no Clube Álvares Cabral, tendo retorno positivo das famílias.

  • Você sabia? O primeiro palhaço negro do Brasil se chamava Benjamin de Oliveira. Aos 12 anos, saiu de casa para se juntar ao Circo Sotero.

Marilene conta que foi difícil achar uma dançaria de balé clássico que fosse preta. Mas, encontraram a Michaela de Prince, que nasceu na África, mas foi adotada por norte-americanos. “Existe a cultura de que menino não pode dançar balé porque é coisa de mulher, o que não é verdade. Trouxemos uma bailarina negra para se apresentar e, o próprio diretor da escola, Rafael, também dançou, pois já foi bailarino”, explica.

Marilene, à esquerda, no meio a professora de Artes e à direita, a professora de Educação Física, durante o projeto Circo. Fotos: Reprodução/Facebook

Desafios

Para que o projeto ganhasse vida, as professoras precisaram correr atrás. Já no primeiro momento, uma dificuldade foi encontrada: a falta de material sobre cultura afro na biblioteca do próprio CMEI. Então, Marilene entrou em contato com a Secretaria Extraordinária de Políticas para Afrodescendentes (Seafro). “Para educação infantil, não havia livros do tema. A Seafro pensava em falar mais sobre racismo, preconceito… Nós queríamos algo mais leve. Sugerimos livros, compramos e, outros, nós pegamos emprestado”, relata.

No decorrer do projeto, Marilene diz ter percebido que a discriminação não está tanto entre as crianças, mas, principalmente nos adultos. “Nós tivemos dificuldades com colegas de trabalho. Com famílias que não aceitavam a gente ensinar as crianças a tocarem tambor, a dançar capoeira e nem cantigas indígenas”. O preconceito, enraizado dentro de casa, atrapalhava as próprias crianças. “Eles se envolveram, gostaram, mas, nem todas podiam, pois os pais não deixavam”.

“Muitos pais nos procuravam para falar que as crianças estavam brincando com casa com o projeto. No recreio nós também observamos isso. Foi maravilhoso” — Marilene Gonçalves

Entretanto, há famílias que incentivam e reconhecem a importância do ensino da diversidade cultural no ambiente escolar, dando chances para ampliação do senso crítico. O estudante Pedro Fraga, com autorização dos pais, participou do projeto do circo, em que foi o bailarino. “A professora de Educação Física me convidou, eu pensei um pouco e aceitei. Muita gente tava na apresentação. Todos gostaram”, conta Pedro.

A mãe de Pedro, a também professora Michelle Fraga, acredita que muitos subestimam as crianças, achando que não irão entender. Mas que, quanto mais cedo o conhecimento for oferecido, antes elas saberão lidar com as situações. “Quando não falamos sobre as diferenças, gera discriminação e preconceito. Ter essa educação na escola é importante, pois sai apenas do que elas recebem no meio familiar. Elas se tornam pessoas melhores”, afirma Michelle.

Na primeira foto, a família no Circo Tihany, na Serra, em 2012. Fotos: Reprodução/Facebook

Os resultados da participação nas atividades de escola, na vida do estudante, foram observados e elogiados pela família, que incentiva a cultura em casa, seja levando Pedro ao cinema e a museus ou conversando sobre diversidade. “Sempre levamos em lugares diferentes para conhecer as diferentes culturas. Ele gosta e fica cada vez mais interessado. Pergunta. Questiona. Na época do projeto, sempre nos mostrava os ensaios. Logo depois teve o aniversário de 15 anos da irmã, ele dançou na pista e deu um show”, finaliza a mãe.

Se estiver interessado em aprofundar mais sobre o assunto, a equipe do Sinercult produziu um artigo sobre o tema. Clica aqui e confira!

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