Outros Cristos
“É assim que reconhecemos que estamos com ele: quem diz que está com Deus deve comportar-se como Jesus se comportou” (1 Jo 2, 5–6). Estas palavras de são João são tão simples e tão repletas de significado que, não sem alguma razão, poder-se-ia dizer que sintetizam todo o Evangelho. A um só tempo, apontam para a realidade do encontro com Cristo e para o compromisso que dele se segue. Não só isso: ao chamar a atenção para o ethos do cristianismo, colocam em evidência o caráter kerigmático de que ele está revestido, fazendo notar o Reino de Deus àqueles que não o conhecem desde o testemunho e do exemplo dos cristãos. Mas o que significa comportar-se como Jesus se comportou?

Um dos livros mais conhecidos da literatura cristã é o clássico “Imitação de Cristo”, do monge agostiniano Tomás de Kempis. O seu título, que estabelece um paralelo entre o versículo supramencionado e o itinerário de ascese espiritual proposto por Kempis, pode dar a entender que comportar-se como Jesus significa emular os seus gestos, repetir as suas palavras, reproduzir os seus modos de vida à semelhança de um ator que, interpretando um papel, assume as características e os trejeitos de um personagem. Mas a ética cristã não é nenhuma competição de mímica. Não existe um roteiro traçado para a conversão e tampouco para o processo de santificação. A Igreja não é uma companhia de teatro e muitos dela já se desviaram devido aos espetáculos de religiosidade de alguns de seus representantes. Numa palavra:
[…] A imitação de Cristo não é uma tentativa de copiar os seus atos e modos de vida registrados, tentativa fadada a pouco êxito, dada a diversidade das condições de vida. Significa ser << em Cristo>>, atender ao Cristo interior… O Cristo de Nazaré teve somente uma vida para viver entre a manjedoura e a cruz…É mister que viva novamente em incontáveis vidas humanas…nas vidas dos homens e mulheres da atualidade […] (LITURGIA E VIDA, 1979, p.50, grifo nosso)
Em outras palavras, comportar-se como Jesus se comportou não significa fazer as vezes do protagonista de nossas histórias de salvação, simulando ser algo que nunca seremos. Imitar a Cristo não significa anular as nossas identidades pessoais, feridas pelo pecado, em um esforço sobre-humano para nos igualarmos a Deus — o que é impossível. Comportar-se como Jesus se comportou significa ser alter Christus, isto é, significa ser outro Cristo, com todas as nossas virtudes e contradições, significa assumir plenamente a condição humana, assim como Deus o fez, e deixar-se cristificar de maneira original e irrepetível, permitindo ao Espírito Santo que encarne em nós, fazendo de nós o que de fato somos, e não o que achamos que devemos ser. Como o apontou com bastante lucidez o frei capuchinho Ignacio Larrañaga, “o Senhor depositou no fundo do homem a semente divina, que nos impele, não a converter-nos em ‘deus’, substituindo o verdadeiro Deus (Gn 3, 5), mas a chegar a ser divinos, participando da natureza divina” (LARRAÑAGA, 1987, p.191, grifo nosso), revelando ao mundo a fecundidade de sua graça a partir de nossas próprias experiências de vida. Nas palavras de Tomáš Halík:
Cada ser humano […] é uma imagem de Deus; a infinitude de Deus pode ser representada apenas pela pluralidade infinita do mundo humano. Cada um desses retratos de Deus é completamente diferente — mas cada um deles foi assinado pelo seu autor, cada um deles é autêntico, cada um deles é verdadeiro! À medida que preservarmos a nossa originalidade impressa e guardada por Deus — e não nos tornarmos uma cópia de outras pessoas: uma imagem falsa — , cada um de nós proclamará, através do nosso caráter único e inconfundível, algo novo e verdadeiro acerca de Deus e do seu inesgotável mistério (HALÍK, 2015, p.73, grifo nosso).

Em síntese, a espiritualidade cristã nada tem de mimésis, é poiésis do início ao fim. É verdade que imitar a Jesus e comportar-se como filho ou filha de Deus requer muitas vezes que conformemos as nossas atitudes às dele, mas ter o Cristo como modelo não é o mesmo que mutilar o próprio eu. Os santos e santas que nós católicos reconhecemos nada mais são do que exemplos de pessoas que se deixaram modelar por Deus e que assim se tornaram outros Cristos em diferentes contextos, manifestando a glória e a presença do Ressuscitado de formas criativas e incomparáveis. O grande segredo da vivência do cristianismo não consiste em colocar em prática uma série de técnicas e prescrições com o intuito de nos igualarmos a Jesus, como se fosse possível homogeneizar a experiência de Deus e reduzi-la a uma expressão singular, mas em perceber que o próprio Deus se igualou a nós e que, ao fazê-lo, redimiu-nos, e quis desse modo trazer a tona o divino desde o humano, e não o contrário.
REFERÊNCIAS
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada — edição pastoral. Tradução de Ivo Storniolo et al. São Paulo: Sociedade Bíblia Internacional e Paulus, 1990.
HALÍK, Tomáš. Paciência com Deus: oportunidade para um encontro / Tomáš Halík; [tradução Paulinas Editora Prior Velho, Portugal] — São Paulo: Paulinas, 2015.
LARRAÑAGA, I. O silêncio de Maria. Tradução de José Carlos Correa Pedroso. 16ª ed. São Paulo: Ed. Paulinas, 1987.
LITURGIA E VIDA. Abril/Junho — Ano XXVI — N.º 152. Mosteiro de S. Bento: Rio de Janeiro, 1979.
