Entrando no personagem

“No Brasil eles compram o corpo, aqui eles compram o personagem”. Essa foi a resposta de um garoto de programa brasileiro em Londres, respondendo sobre a diferença entre um cliente brasileiro e um de Londres. Por que será? Ao comentar com um amigo, ele atribuiu ao fato, de ainda sermos devoradores de açougue, de carne, de ainda sermos um tanto primitivos vis à vis gente mais evoluída, no quesito relação humana. Talvez não esteja claro ainda, o que queremos ou buscamos no outro. Seria só o corpo? Apenas isso? O próprio Mário, o tal amigo que contei sobre a frase acima, é ator, segundo o próprio, um “vil e difamado ator”, como gosta de falar. Um ator, cujo corpo onde se hospeda, ainda não rompeu a barreira entre os dois, a barreira entre o corpo e o personagem. De tudo que assisti até hoje feito por ele, jamais consegui encontrar personagem, quem sempre estava no palco era o velho Mário cansado de guerra, que conheço de décadas. Claro, que jamais lhe disse, mas nunca consegui assistir a um personagem criado ou construído por ele. Confesso, que no pouco tempo de teatro que tive, lembro ter encontrado a mesma dificuldade. Numa peça infantil, que cheguei a fazer durante uma temporada inteira, só comecei a encontrar o fiozinho do personagem no final da temporada, o que foi definitivo para desistir da carreira de ator. Isso me lembra o título da peça de Luigi Pirandello, Seis personagens à procura de um Autor, se em vez de “autor” fosse “ator”, teria mais a ver com o que estou tentando desenvolver. Imagine um personagem em busca de um verdadeiro ator, que o represente, mas que seja um ator, que seja alguém. É melhor deixar esse assunto de lado, por enquanto, porque pode dar muito pano para a manga. A dificuldade é maior, porque para se chegar ou encontrar o personagem pretendido, que por sua vez não existe ainda, não se consegue ter nem a mais pálida sombra do que seja. É preciso pesquisar muito, conhecer um pouco sua vida, lugar de origem, idade, orientação, gostos, mentalidade, valores, ideias, além de toda conjuntura da época. Todo esse cabedal de informações e movimento irá trazer subsídios na elaboração do personagem, é a matéria prima, para o trabalho definitivo de composição, que depois poderá ser levado ao palco, posto em cena aberta ao público. É evidente, que para tal supõe-se, que se esteja vindo de algum canto, donde partiu, lugar que é o seu próprio ser, seu caráter, a persona que se é. Quando não se tem, ou se tem pela metade, uma obra inacabada, mal feita ou por se fazer ou se constituir, de onde se possa partir com segurança para voos mais ousados, fica tudo muito mais difícil, quase impossível. Em algumas situações, não se consegue dar sequer um passo, trava, tensiona. O que leva a supor, que para ser capaz de construir, vestir e habitar um personagem de outra pessoa, um caráter diferente do que somos, é necessário ser. No senso comum, encontra-se muita dificuldade em saber o que as pessoas comuns acham que são, em geral não sabem quase nada a respeito de si mesmas. Não gostam de pensar a respeito. A maioria das pessoas ainda faz uma enorme confusão entre ser e ter, muitas ainda acham que só são, se tiverem a posse de alguma coisa, senão serão nada. Ser e ter ou, ser ou ter? Eis a questão. Deve ser incrível poder trocar de personagem quando conveniente, sem pagar nenhum preço. Como trocar de máscaras, e conseguir surfar na onda, poder jogar com algum personagem particular, brincar de ser qualquer coisa. Qual o seu papel atual? Mencionei “jogar” de jogo, um pouco acima, na verdade, é assim que se diz, tanto em língua inglesa, to play, como em francês, jouer, que tem o mesmo significado da língua inglesa, brincar. A ideia de brincar é ótima, porque supõe uma imagem de alegria. Quem não se lembra da alegria proporcionada pelo brincar? Da imensa alegria, que costumava apresentar momentos marcantes e mais felizes na infância de muita gente boa. O ruim, é que esquecemos quase tudo, e assim fica muito mais difícil brincar de ser alguém, de entrar no personagem, seja que personagem for.

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