Como é a Vida de Uma Quadrinista da Internet

ou: como ajudar o quadrinista nacional!

Não posso falar por todos, eu sei, mas penso que posso me dar esse título “Quadrinista de Internet”, levando em conta que faço quadrinhos há 5 anos, e que, nos últimos 3 anos, tive uma média de 2 quadrinhos por semana, e que, meu principal meio de divulgação é a internet; então, sim, posso no mínimo falar sobre a minha experiência.

Para começar, são altos e baixos todos os dias e muita ansiedade envolvida. Quase não consigo separar isso de uma possível personalidade com transtorno limítrofe. Todos os dias (ou quase todos, também tem os períodos de escassez) eu pá! Topo com uma ideia que muito rapidamente se divide em três ou quatro quadros, palavras, personagens, gestos… Uma jogada gráfica aqui, ou não, não importa, vou pensar em organizar melhor quando for pro papel, isso precisa ir imediatamente pro papel. Para tudo! Para café da manhã “Mãe, por favor, não fale comigo”, “Babe, preciso ir, por favor, entenda”. Bom, já está no papel. Não é suficiente, tenho que finalizar. Depois de finalizar, publicar é o mais fácil. Vão gostar? Vão odiar? Não interessa, aquilo saiu do lápis. Amaram! Que bom que amaram, mas eu preciso parar de olhar de minuto em minuto todos os comentários na página, todos os comentários no Instagram, Twitter, Tumblr, Facebook, Instagram, Twitter, Tumblr, de novo, de novo, chega. Putz, outra ideia. Não falem comigo, por favor. Preciso rascunhar isso. Para tudo, preciso finalizar… [Repete]. Já fiquei nessa fritação dias seguidos. Não tenho a menor dúvida de que faço isso porque gosto. Ninguém pediu, mas eu sou quase viciada. Fazer quadrinhos me mantém em pé e faz com que eu me sinta eu mesma.

Hoje minha família entende um pouco mais o que eu faço, mas sinto que, no fundo, eles ainda desejariam que eu desistisse de tudo e fizesse um concurso público para, digamos assim, ter uma vida mais… Estável, segura. Essas coisas, sabe, ter plano de saúde, cartão alimentação, décimo terceiro, férias, comprar sapatos, quem sabe até conseguir um namorado, um carro e pagar aluguel… Enfim, todas essas coisas que as ajustadas na sociedade com minha idade tem. Não me importo tanto com isso, eu preciso de pouco pra viver… Quase nada. Um lápis, um papel, uma boa conexão e, claro, meu scanner e vários litros de água. Aliás, não sei se sou desajustada porque faço quadrinhos ou se faço quadrinhos porque sou desajustada. As duas coisas andam de mãos dadas, na outra mão a inquietação, na outra a forma como os planetas se alinharam no céu quando eu nasci.

No começo eu só escrevia, depois fui melhorando o desenho até que ele servisse junto com as palavras para passar a ideia da forma certa. Eu queria muito e consegui, não sem estudar desenho, Pintura na Belas Artes, aprendi a usar algumas técnicas e ampliei meu repertório. O inesperado foi que eu aumentei a frequência dos quadrinhos e comecei a ganhar algum público justamente quando estava trabalhando como operária num escritório de engenharia. Minha função era fazer com que pedaços diferentes de mapas ficassem da mesma cor e do mesmo aspecto, não importando que essas fotos de satélite tivessem sido tiradas em épocas diferentes do ano. Era tranquilo porque eu não precisava pensar muita coisa além de cor (verde mais claro, verde mais escuro) e quais ferramentas do Photoshop usar. Aprendi muito Photoshop graças a esse emprego. Mas também morria de recalque de pensar em cada pessoa que estava fazendo quadrinho naquele exato momento, enquanto eu olhava para fotos estúpidas, que logo seriam substituídas por outras e que no fim acabariam todas no Google Maps. Quanto mais eu olhava praquele verde, sei lá, da Amazônia, mais eu inventava historinhas. Quando eu chegava em casa, na Glória, eu só queria dormir, mas não podia deixar morrer aquelas ideias. Daí eu ficava até duas ou três horas da manhã fazendo quadrinho. No dia seguinte eu chegava um caco no trabalho, e já estava trabalhando em outro quadrinho que finalizaria a noite.

Era tão cansativo quanto divertido! As pessoas me mandavam mensagens de carinho e apoio e eu sentia que estava acertando. Algumas vezes perguntavam como eu me bancava e eu tinha vergonha de dizer que era operária num escritório de engenharia, então eu fingia que era uma herdeira milionária. Decidi fazer minha primeira zine, os próprios leitores escolheram o tema. Foi mais difícil do que eu imaginava, só madrugar não bastava para a SddS ficar pronta, ainda mais que eu queria que ficasse pronta para a FIQ. Para resumir o drama, eu fui demitida logo que terminei a SddS. Lembro das palavras do meu querido chefe: “Você já fez sua escolha”. Eu chorei igual um bebê, doía muito o fracasso… Mas ei, eu fracassei em ter um emprego normal/formal! Ele estava muito certo, só mais tarde que, em casa, eu iria entender, já tinha feito minha escolha: quadrinhos.

Minha primeira zine, SddS, 2013.

Não tinha mais dinheiro para o aluguel, então voltei para junto da minha família, do Rio para o Ceará, e decidi que iria fazer o meu livro pelo Catarse. Deu tudo certo, o livro foi um sucesso, eu percebi que as pessoas queriam o que eu produzia, minha família podia entender o que eu fazia e isso tudo me deu mais gás para continuar fazendo esses quadrinhos. É nesse ponto que estou.

Ansiosa, triste e feliz. Vivo numa luta diária para manter minha cabeça sã. Quando percebo que estou fantasiando demais, tento me puxar para a realidade antes de ferir alguém.

Vou com toda força para a luta quando sinto que fiquei em desvantagem porque sou mulher e a sociedade patriarcal privilegiou um cara apenas por ele ser homem, ou quando me sinto em desvantagem por ser nordestina, acusada de ser desinformada ou pouco inteligente. Não consigo agir como deveria, ignorar, ser superior ao preconceito, ter pena… Eu só consigo ver o quanto fui prejudicada, então eu luto e perco bem mais do que ganho.

Com o público a reação é completamente diferente. Eles me amam ou me odeiam. É sempre o extremo e nunca é comigo. Quando recebo email, “mensagens de amor”, de compreensão, de identificação e gratidão pelo meu trabalho, é sempre com o trabalho, eu sei que eles nem me conhecem (mas aceito o elogio por tabela). Quando é de ódio, machuca e acabam sendo mais perceptíveis que os elogios. É idiota, porque pode ser um antipático no meio de 100 simpáticos, mas só vou perceber o antipático. Não sei fazer diferente. É como se eu não fosse uma pessoa, geralmente os comentários atacam “a página” e aí podem dizer o que querem, afinal uma página não tem sentimentos. Eu me sinto uma página, eu sou uma página com sentimentos, ninguém liga pra isso.

Todos esses “poréns” fazem parte do mundo que criei e que gosto de alimentar. À noite, antes de dormir, eu penso mais nos 100 positivos do que no 1 negativo, e posso dormir bem. Eu posso fazer quadrinhos na internet! Eu gosto disso pra porra. É tipo um vício.

Se fosse menos penoso, não seria nada mal. Se fosse uma coisa que eu dissesse: “Este é meu trabalho”, e alguém não pudesse replicar: “Pois por que não dá dinheiro?” Eu me sentiria mais valorizada. Então esse textão surgiu dentro de mim como um explosivo, não dava para conter. Eu quero que vocês entendam que eu gasto tempo, dinheiro e nervos fazendo esses quadrinhos. Não recebo ajuda do governo, não trabalho para nenhum jornal, nenhuma revista. Apenas minha família faz o que pode para me manter viva. Talvez seja burrice fazer o que eu faço. Mas eu não sei explicar, eu vejo o valor disso. Depois que eu morrer, vai ser lindo, é sempre lindo um artista/escritor morto. Eu não queria precisar morrer. Não agora.

Felizmente as pessoas inventam novas possibilidades o tempo todo. Como foi quando eu precisei mostrar para o mundo que eu tinha um livro pronto com mais de 200 páginas, e geral me apoiou com o Catarse. Agora criaram uma forma de você financiar meu trabalho enquanto eu crio. Essa plataforma é o Apoia.se, uma versão brasileira do Patreon, você já deve ter ouvido falar. Você dá uma pequena quantia por mês para um artista, incentiva o trabalho dele e ganha conteúdo exclusivo e outros privilégios. É uma pequena quantia mesmo. Para me financiar, não precisa ser nenhum mecenas milionário! Apenas 3 ou 5 reais por mês, aquele dinheiro do cafezinho, já faz toda a diferença! Até mesmo 1 Real, já me ajuda muito. Explico: Nesse momento eu conto com mais de 130.000 seguidores no Facebook. É uma boa quantia, sou grata por ela e consegui com muito suor e folhas de papel. Se apenas 10% do meu público me der 1 real, eu recebo 13.000 por mês. É muito dinheiro que eu nunca vi na vida. Se pelo menos 1% pagar, já vai ser ótimo. O que eu estou pedindo é que você faça parte desse 1% E vamos fazer a porra toda valer a pena!

Para ser sincera, eu vou continuar fazendo quadrinhos de todo jeito, e há esperanças de que eu não vire uma mendiga. Como já disse, tem sempre aqueles amigos resistente que estão do meu lado não importa qual humor esteja reinante. Minha família acredita em mim e não vai me deixar sem abrigo (eu espero). Tem os parceiros que conquistei durante esses anos que apostam no meu trabalho. É isso. Eu desejo realmente que toda menina que queira fazer quadrinho possa contar com o suporte fodaralho que eu tenho. Cada dia mais eu acredito no trabalho e na sorte, na companhia e no encontro com pessoas maravilhosas que confiam em mim: Beatriz Lopes, Lovelove6, Diego Sanchez, Themis e Aureliano e todos da Editora Tribo, Thiago, Cecilia, João e todos da Lote42, Clara Averbuck, Todo o rolê dos quadrinhos que me recebe tão bem, Samba, os meninos da Mês, Zine XXX, todas as minas lindas do role, Ana Luiza Koehler e Cris Peter do Estúdio Complementares, Debora, Brendda, Dhiow, Amanda e “Arminina” aqui no Ceará, Pedro e o AvanteCast, Carolina e o Porto Iracema das Artes, Boro, Raquel e Ramon da Cosmic, o pessoal da Bolha, da Beleléu, Rafael Coutinho, Revista Prego, DW, e mais um monte de gente que sempre me estende a mão quando eu preciso — e eu preciso várias vezes.

Continuo contando com vocês e podem contar comigo para o que der e vier. ❤

Agora clica lá, olha a proposta (é bem simples!) e joga uma moedinha!

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MUITO OBRIGADA!

SY

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